Castelo de areia

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Eu quase posso sentir a areia úmida sob meu corpo, os grãos grossos enfiando-se embaixo das unhas das minhas mãos enquanto cavava mais e mais fundo o fosso do meu castelo.

A areia molhada que saia do fosso eu deixava escorrer pelos meus dedos no topo do castelo e ele ia ficando encorpado e alto.

Um par de mãos grandes me ajudavam na empreitada. Palavras carinhosas incentivam-me a seguir cavando fundo.

O dia estava quente, mas o sol parecia tímido, escondido atrás das nuvens. Minha pele clara e de criança agradecia. Sempre odiei ficar lambuzada de filtro solar e aquele era um dia que não pedia muita proteção.

No entanto, a proteção estava ali, não em forma de filtro solar, mas sim por meio do olhar atento e gentil, que só aqueles que amam conseguem dar.

As horas iam passando sem serem notadas. Então o mar foi aos poucos invadindo nosso espaço e começava a ameaçar minha fortaleza.

Eu temia pela minha construção, mas meu ajudante não parecia se abalar com a ameaça.

De repente, uma onda mais intensa veio, invadiu o fosso e desmoronou o castelo.

O sorriso maroto do avô querido surgiu e de seus lábios saíram as palavras de incentivo: vamos começar de novo?

E ali, na sugestiva Praia dos Sonhos, eu aprendi que nossos castelos podem desmoronar, mas com o apoio daqueles que amamos, sempre podemos recomeçar a construí-los.

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O lobinho que não sabia de si

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Aos cinco meses Tobias começou a ter mais liberdade de locomoção e tomou consciência do que acontecia a seu redor. Até então, sua mãe que era muito protetora não permitia que ele saísse de dentro da toca.

“É para o seu bem”, ela dizia, mas Tobias não via razão para tanto, já que viviam em um lugar onde nada de extraordinário acontecia. A comida sempre tinha a hora certa para chegar, o banho de língua ocorria exatamente às 17 horas nos dias de inverno e no verão, com o relógio ajustado, às 18 horas lá estava Tobias de barriga para cima tomando lambidas de sua mãe até não sobrar nenhuma sujeirinha.

Depois da refeição era a hora da contação de estórias… sua hora favorita. Tobias gostava da estória que a mãe contava franzindo a testa e fingindo-se de manca. Ele raramente prestava atenção no que a mãe dizia até o momento da interpretação, quando ria solto da atuação.

A mãe, por sua vez, sentia-se muito orgulhosa de fazê-lo rir com sua estória e só vez ou outra ficava cansada de ter que contar a mesma estória de novo e de novo. Tobias parecia nunca enjoar da repetição.

No dia que Tobias finalmente saiu da toca ele deu de cara com uma garotinha loirinha, de cabelos presos nas laterais por elásticos azuis, que lambia alucinadamente um pirulito quase tão grande quanto o seu rosto. Assim que o viu, a garotinha gritou: “Mamãe, mamãe, olha que bebê lobo mais lindo”.

Tobias gostou do elogio, mas desconfiou que a garotinha não enxergava bem por achar que ele era um bebê. Já era quase adolescente e seu bigode estava enorme, será que ela não conseguia notar?

Ele, então, estufou o peito e desfilou ao redor do pequeno lago que ficava diante de sua toca no intuito de se exibir para a garotinha e fazê-la notar o quanto ele já era crescido.

“Não ande tão perto da borda, Tobias, você vai escorregar e cair na água”, ralhou sua mãe.

Tobias revirou os olhos e seguiu da mesma forma, com o peito estufado e o andar elegante.

“Eu não vou falar uma terceira vez, Tobias. Você quer que eu o coloque para dentro agora mesmo?”

Tobias não teve outra escolha a não ser se afastar um pouco da borda, pelo tom da voz de sua mãe ele sabia que ela não estava de brincadeira. Ela sempre ficava irritada quando Tobias revirava os olhos, mas o que ele não conseguia descobrir era como ela sabia que ele os estava revirando se nunca fazia isso de frente para ela.

Foi quando ele resolveu se aproximar um pouco mais da garotinha, para ver se ela percebia que ele não era um bebê, que apareceu um menino grandalhão e desajeitado correndo e se posicionou bem ao lado da pequena. O menino tinha o olhar cruel quando disse para ela “Sabe este lobinho fofinho? Quando crescer ele será o Lobo Mau que vai devorar a Chapeuzinho Vermelho em uma mordida só”.

A menina franziu a boca, parecendo que ia chorar, e o menino saiu correndo novamente, rindo da cara dela. Então ela olhou novamente para Tobias e ele percebeu que ela não o enxergava mais como um bebê lobo lindo, mas sim um Lobo Mau. Apesar de não fazer ideia de quem era este tal Lobo Mau, Tobias percebeu na hora que boa coisa não era.

“Mamãe, mamãe”, chamou novamente a menina e completou fungando o nariz: “Este Lobo Mau vai pegar a Chapeuzinho e eu não quero, mamãe”.

“Quem falou essa bobagem minha filha, é claro que ele não vai pegar a Chapeuzinho, ele jamais vai para a floresta, então não vai nem encontrar com ela, pode ficar tranquila, este lobo vai ficar aqui até morrer bem velhinho”, disse a mãe consolando a garotinha.

A garotinha pareceu se consolar com a explicação que sua mãe ofereceu, mas Tobias ficou chateado ao ouvir a sentença. Então ele ficaria a vida inteira ali?

Foi quando se deu conta que “ali” era tudo o que ele conhecia, se havia outro lugar, como esta tal “floresta”, ele nunca tinha visto. E, afinal, qual era o problema de morrer bem velhinho naquele espaço tão confortável? O que todos buscavam não era a segurança de um lar com boa comida e paz? Fora isso que o senhor Papagaio dissera para ele e sua mãe certa ocasião em uma conversa. E o senhor Papagaio podia até ser um pouco depressivo, mas ele já voara por todo lado e sabia das coisas.

Sem habilidade para digerir tantas informações e reflexões, Tobias ficou horas em silêncio, sentado na beira do lago. Sua mãe, desconfiada de seu comportamento, chamou Tobias para comer, mas ele nem pareceu notar que era chamado. Então ela foi até ele e tocou levemente em sua cabeça. Ele, por sua vez, ao ser tocado, deu um pulo tão alto que ela também se assustou, escorregou e caiu dentro do lago.

“Mamãe, que susto! Desculpe, eu derrubei a senhora no lago…”, disse Tobias com os olhos arregalados.

“Não tem problema, meu filho, mas o que está acontecendo com você? Não me ouviu chamar?”

E, enquanto comiam, Tobias contou todas as suas angústias e descobertas para a mamãe loba, que tratou de explicar algumas coisas para ele:

“Meu querido, o Lobo Mau foi um antepassado de outra espécie, guloso e de má fama, que acabou manchando a imagem da nossa espécie. Mas a estória não foi bem como as pessoas contam…”, e mamãe loba contou toda a estória para Tobias: “e foi assim que acabou, com o Lobo Mau morto e o caçador achando que fez um grande feito, mas, meu filho, o Lobo dito Mau estava apenas seguindo seu extinto, como todos nós, lutando pela sobrevivência. No caso dele, não tinha este banquete que nós temos todo dia, precisava correr atrás do alimento. O problema é que ele foi um pouco guloso, se tivesse comido apenas a vovozinha não ficaria com tanto sono e roncando feito um trovão, não teria chamado a atenção do caçador e, provavelmente, ficaria vivo até ficar velhinho, como aquela mulher disse que acontecerá com você. Ou seja, ficar velhinho, morrer em segurança e com cuidados não é algo tão ruim como ela fez parecer.”

“Mamãe, e a floresta? A senhora conhece a floresta?”, quis saber Tobias.

“Não, meu filho, eu nasci longe da floresta, como você. Ouvi muitas coisas sobre ela, meu pai sempre dizia que era enorme, mas que era muito perigoso viver lá.”

“Você não tem vontade de conhecer, mamãe?”

“A floresta? Não, não, eu gosto daqui. Desde que nasci eu sou muito bem tratada. Minha mãe morreu logo após eu chegar ao mundo, então as pessoas cuidaram de mim, nunca me faltou nada.”

Tobias não sabia o que pensar, a palavra floresta parecia misteriosa e divertida ao mesmo tempo, era o tipo de lugar que ele adoraria brincar. No entanto, Tobias sabia que sua mãe não mentiria para ele, morrer velhinho e bem cuidado parecia um bom plano de vida.

Ficou assim, perdido em seus pensamentos, mais um par de horas. Sequer percebeu que o Sol começou a se esconder por trás das árvores.

Ele até gostaria de conhecer esta tal floresta, parecia uma aventura e tanto. Porém, conhecer a floresta implicaria em abrir mão de coisas que ele não estava disposto a deixar, como a convivência com sua mãe, por exemplo.

Então ele notou que não poderia ter tudo em sua vida e que começava a ter que fazer escolhas. Sentiu-se um lobo adulto e até estufou o peito, soltando em seguida uma bufada relaxante. Além disso, para ser bastante honesto, Tobias não fazia a menor ideia de como iria até esta tal floresta ou onde ela ficava.

Passou a noite arrastando folhas com as patas e pensando sobre as tantas coisas que ouviu naquele dia.

Acordou disposto na tarde seguinte, era domingo e ele estava animado para receber as visitas do dia. Agora ele tinha autorização para sair da toca e fazer o tour crepuscular com a mãe.

Esticou as canelas finas e deu uns pulinhos para aquecer a musculatura. Propôs uma corrida até a árvore torta. A disputa valia uma sessão de cafuné depois da refeição. A mãe aceitou e esperou alguns segundos depois da largada para sair e não chegar muito à frente na disputa.

“Ufa, esta foi por pouco, você está ficando veloz, meu filho”, disse a mamãe loba, que terminou a disputa poucos centímetros a frente.

Tobias ficava chateado quando perdia, e ele sempre perdia. Entretanto, sabia que sua mãe não o deixava ganhar só para que ficasse satisfeito. Ela até podia não dar o melhor de si durante a corrida, mas não criava nele a falsa ilusão de que era melhor corredor que ela, quando na verdade não era mesmo. Na ocasião em que ele de fato vir a ser vencedor saberá que foi por mérito próprio e não por agrado de sua mãe.

“Mamãe, eu queria lhe pedir um favor”, disse Tobias ofegante, enquanto retornavam ao ponto de partida da corrida, próximo à entrada da toca: “Eu queria saber mais sobre como eram os lobos e lobas que a senhora conheceu, pois percebi que mesmo não fazendo nada para aumentar a fama de mau, nós também não estamos fazendo nada para acabar com ela”.

“Veja só os macacos”, seguiu falando Tobias: “eles fazem uma algazarra, uma sujeira, roubam comida dos visitantes e ainda fazem xixi nos pés deles e todos ficam encantados em observá-los. Os patos, tão mal-humorados, só querem saber de miolo de pão, não ligam a mínima para quem os joga, ainda assim vivem cercados de pessoas e nunca se ouviu falar de um Pato Mau. O que nós estamos fazendo de errado?”

“Tobias, meu filho, você passou a noite pensando nisso, não foi? Se consumindo com as palavras da mãe da garotinha e com a estória do Lobo Mau que contei…”, a mamãe loba fez um carinho na cabeça do filhote e continuou: “Pois saiba que o seu raciocínio é muito bom, eu não teria pensando melhor. Eu, realmente, não sei o que nós estamos fazendo de errado. Talvez não haja certo ou errado. Nós somos o que somos, não devemos fingir ser o que não somos para agradar nossos visitantes. Você se sentiria bem fazendo macaquices, por exemplo?”

“De jeito nenhum, mamãe”, disse Tobias.

“Então é isso, meu filho, aos olhos atentos e mentes abertas nós seremos interessantes. Acredito que receberemos visitantes interessados em saber quem somos e como vivemos. Talvez eles adorem ver os macacos em ação, ou o nado sincronizado dos patos, mas estou certa que sempre haverá os que ficarão felizes em saber mais um pouco sobre nós, em nos visitar e nos apreciar.”

Tobias ficou pensativo e a mamãe loba deu um tempo para que ele pudesse assimilar o que ela tinha acabado de dizer, então continuou: “O mais importante, meu filho, é você estar satisfeito em ser quem você é. Você está?”

“Sim, estou muito satisfeito”, respondeu Tobias sem pestanejar.

“Ótimo, estamos resolvidos! Que tal uma nova disputa até a árvore?”

E saíram os dois correndo, mãe e filho, felizes por viverem a vida que viviam e por serem quem eram.

 

Imagem disponível aqui. Acesso em: 19 de janeiro de 2017.

Reticências

reticencias

— A Júlia Roberts morreu?

— Não, credo. Por que você está falando isso?

— A programação de quase todos os canais de filmes envolve a Júlia Roberts, isso só acontece quando o artista morre.

— Não fala bobagem, Ivan. Deve ser o aniversário dela. Quando é aniversário do artista eles também passam diversos filmes, fazem maratona. Deve ser isso.

E, com expressão de ponto de exclamação estampada em sua face, Ivan disse: — É verdade, também!

Rimos os dois, uma risada de cúmplices. Do outro lado da sala, sobrancelhas arqueadas demonstravam que nem todos achavam graça de nossa conversa.

Era Lydia, uma francesa filha de gregos que Ivan conhecera na Itália durante um curso de especialização em vinhos.

Ivan tinha uma queda por estrangeiras, vivia trazendo-as para casa depois de temporadas fora. Nunca durava mais do que poucas semanas, Ivan era difícil de conviver, desligado e, por vezes, desleixado. O fato de dividir a casa com sua mãe não ajudava muito nos relacionamentos.

Lydia era a única que eu não tolerava, todas as outras (não foram tantas) estavam abertas a conhecer nosso povo, nossa cultura. Já Lydia parecia intocável dentro daquela sua redoma de Chanel Nº 5. E, tal qual o perfume, ela estava se fixando por tempo demais.

Eu, alérgica a perfumes e à Lydia, já deixava de me esforçar para ser simpática. Amiga da família desde sempre, eu estava hospedada na casa de Ivan há algumas semanas e isso, visivelmente, não agravada a francesinha.

Meu apartamento, herança que meus pais deixaram, estava em reforma e, todo mundo sabe como é reforma: tem data para começar, não para terminar. Depois de umas trezentas crises de renite, recebi o convite da dona Tereza, mãe do Ivan, para ficar na casa deles enquanto o Ivan estivesse na Itália. Eu agradeci de coração e me mudei de mala e cuia para o quarto do Ivan, mas aí os dias foram passando e logo o Ivan estava chegando de volta, com a Lydia a tiracolo, e meu apartamento estava longe de estar em condições de ser habitado.

Dona Tereza não me deixou partir, esticou um colchão na biblioteca e me disse: — É aqui mesmo que você vai ficar, você adora ler… olha só! Que melhor lugar do que a biblioteca para você ficar?

Mamãe e dona Tereza eram amigas de infância e, depois que mamãe adoecera, precisou deixar nossa cidade para se tratar na capital. Foi quando deixou Dona Tereza incumbida de me manter sob vigilância. Era época de faculdade e mamãe não queria que eu ficasse “solta por aí”, como costumava dizer.

Foi quando me reaproximei de Ivan. Depois de uma grande amizade na infância, mal nos falávamos na adolescência (é uma fase esquisita para todo mundo…). Então entramos na faculdade e Ivan fez amigos, muitos amigos, animados e festeiros, enquanto eu me enfiei nos livros e nos estudos.

Dona Tereza praticamente o obrigou a me levar para todas as festas que ia naquela época. Para ele dizia: — Pobre menina, só estuda, precisa se distrair, leve-a com você para se divertir. Para mim confidenciava: — Eu preciso que alguém fique de olho neste menino, quem melhor do que você para isso?

Foi um sacrifício apenas nas três primeiras saídas, depois retomamos o ritmo da amizade e não nos desgrudamos mais.

Foi quando Ivan voltou da Itália com Lydia que as coisas começaram a ficar esquisitas. Ela não gostava da minha presença na casa e não fazia questão alguma de esconder. Eu tentava acelerar as coisas na reforma, mas estavam na fase da pintura e o cheiro era insuportável.

— Eu jamais deixaria você partir assim, querida – dizia Dona Tereza –, isso nem entra em discussão.

E assim eu ia ficando…

— Hoje vai ter uma festa ótima na casa do Jorge. O tema é México, então vai ter muita tequila. O que acham, garotas? — Ivan fez o convite, em inglês, para mim e para Lydia.

Lydia respondeu em francês, o que significava que não queria que eu entendesse o que estava dizendo. Precisou repetir três vezes até Ivan compreender o que ela estava dizendo (o francês dele era bem básico) e, pela cara dele, não foi algo muito agradável de se ouvir.
Ivan encerrou o assunto com um “OK” amargo e apenas me direcionou uma piscada e um sorriso amarelo. Bastava para eu saber que a festa não iria acontecer para nós.

Era muito óbvio para todo mundo que Lydia queria ficar sozinha com o Ivan e era mais do que natural esse tipo de coisa. A casa estava ficando apertada para tantas mulheres na vida dele e Lydia queria expandir seu espaço. Por mais de duas vezes eu chamei Dona Tereza para um cinema, um passeio no shopping, com o intuito de deixar Ivan e Lydia a sós, mas ela sempre os incluía no passeio com as desculpas mais esfarrapadas.

Eu estava começando a desconfiar que Dona Tereza não aprovava Lydia na vida de Ivan, mas ela era tão boa na arte da representação que eu não conseguia ter certeza quanto a seus objetivos. Sempre doce e sorridente, era impossível acusá-la de qualquer atitude suspeita.

Foi quando Ivan apareceu com um papel impresso, todo empolgado, mostrando-me um curso “imperdível!” de um ano em Lyon que Dona Tereza se revelou.

— Eu posso fazer meu trabalho de lá, você sabe, só vai agregar. E também posso aprimorar meu francês. Não é legal?

Lydia era de Lyon e eu já estava cansada dos ipsilones que ela trouxe consigo.

— Mas não faz nem três meses que você chegou… – lamentei com Ivan.

— Além do mais, você não precisa do francês para nada além de falar com a Lydia, Ivan – Dona Tereza adentrou na biblioteca reclamando.

— Ouvindo atrás da porta, Dona Tereza, que coisa feia! – comentou rindo Ivan.

— Até parece que eu preciso usar desse estratagema, Ivan. Você não sabe falar baixo… desde pequeno é assim.

— Nossa, estratagema é para gastar o latim, hein, mãe? Não está nada decidido ainda, mas a Lydia achou que seria legal a gente passar um ano com a família dela em Lyon e achou este curso bacana e tal. Estou pensando com carinho.

— Uau, um ano? Está ficando sério entre você e Lydia, não é? – argumentei. Eu sabia que o compromisso o apavorava.

Ivan desconversou e saiu da biblioteca. Não consegui esconder minha decepção, nem de Dona Tereza e nem de mim mesma. Ele estava indo embora, e com Lydia… e por um ano! Nunca liguei quando ele partia, mas agora senti um aperto no peito que não consegui explicar.

Então peguei o olhar de Dona Tereza sobre mim e não tive tempo de dar uma desculpa. Ela se aproximou e cochichou no meu ouvido:

— Faça o que for preciso, minha querida.

Deu uma piscadinha em minha direção e se afastou com um sorriso no rosto. Foi quando eu entendi. Entendi o que ela dizia, o que eu queria e o que, até então, não tinha verbalizado: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Acordei disposta, apesar da agitação na casa do vizinho (e dentro da minha cabeça) na noite anterior que me fizeram rolar no colchão de hora em hora. Eu não tinha muito tempo para tirar da cabeça do Ivan a ideia de ficar um ano fora com a Chanel Nº 5, então comecei a agir imediatamente.

— Ivan, mandei uma mensagem para o Jorge chamando ele e a Ivone para um lanche no parque. O que você acha? Tem algum plano com a Lydia? Está afim de se juntar a nós?

— Que bacana, quero ir sim. Vou falar com a Lydia assim que ela sair do banho e encontramos vocês lá, pode ser?

— Claro. Vá com roupa confortável.

— Combinado.

Lydia adorava atividades ao ar livre e, certamente, iria topar na hora. O que Lydia não gostava era de praticar esportes, nem eu, confesso, mas o Ivan adorava. Como Jorge e Ivone eram o tipo que topa tudo, eu programei um jogo de bets para aquela tarde.

— Vamos lá, Lydia. É o jogo da nossa infância, você precisa aprender, é muito divertido, é assim…

Ivan explicava as regras para Lydia em inglês e ela respondia em francês. Péssimo sinal! Ele sorria sem graça e jogava alguns pontos conosco, então tentava convencê-la a participar e ela, novamente, respondia em francês. Até a hora que ele desistiu e, mesmo sem querer, passou a se divertir imensamente conosco enquanto ela ficava cada segundo mais carrancuda.

Foi apenas a chuva que nos fez parar o jogo, e talvez um pouco nossa lombar que começava a reclamar. Então recolhemos nossa pequena bagunça de comes e bebes e voltamos para casa, todos com um sorriso no rosto, exceto Lydia, é claro.

Chegamos em casa e ela logo se trancou no quarto.

— Desculpa por isso, o programa não agradou a Lydia – disse a Ivan.

— Não se preocupe, ultimamente quase nada a agrada mesmo.

Estávamos só os dois na sala, Dona Tereza estava na casa dos vizinhos jogando buraco, então eu não resisti e me aproximei dele como se fosse confessar algo e, impulsivamente, o beijei.

Foi um beijo curto, intenso e muito molhado. O beijo que eu sempre quis dar em alguém de surpresa, mas Ivan não parecia surpreendido.

Eu me afastei e sem nenhum pudor, disse sorrindo:

— Desculpa por isso também.

Então ele veio para cima de mim e a surpreendida fui eu. Dei um passo para trás e me vi entre ele e o batente da porta. Ele me beijou mais longa e intensamente ainda e, ao se afastar disse:

— Eu não vou me desculpar por isso.

Com um sorriso encantador ele saiu em direção ao quarto e eu tive certeza: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Imagem disponível aqui. Acesso em: 6 de novembro de 2016.

Nós

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B.

Foram 67 dias juntos!

Nos primeiros dias eu nem notei que estávamos juntos pra valer. Foi ficando tudo intenso aos poucos, fomos nos conectando e uma ligação bem forte se estabeleceu.

Começou pelo deslumbramento que todo novo amor traz. Seguiu se intensificando, começamos a nos tornar um só. Suas vontades eram as minhas, minhas alegrias também eram as suas e nossas vidas se misturavam.

De repente, sem perceber, foi ficando difícil convivermos, algumas vezes você me causava as piores sensações e eu só conseguia pensar “será que vai ser sempre assim?”. Até o momento em que eu queria voltar a ser eu de novo. Simplesmente eu antes de você.

Não que eu tenha me arrependido de ter você comigo, não era isso. É que tudo mudou de repente, minha vida estava virando do avesso e, apesar dessa paixão louca que eu sentia, você estava mudando meus dias completamente. Eu não conseguia comer direito, não me focava mais em nada, estava descontrolada…

Fui levando os dias e tentando administrar toda essa intensa relação que estabelecemos até que, de repente, sem perceber, eu me dei conta que tínhamos nos desconectado.

Ao perceber isso fiquei assustada, mas, como é comum do ser humano, neguei tudo o que estava pressentindo. Inventei desculpas para o nosso distanciamento e tentei, em vão, novamente me conectar a você.

Alguns dias depois, a confirmação: era o fim. Você não era mais parte de mim.

Meus planos… tantos planos… não teríamos mais um futuro juntos.

Senti culpa, senti frustração, senti sua falta.

Agora eu sei que nunca mais serei simplesmente eu antes de você.

E.A.

Imagem disponível aqui. Acesso em: 16 de agosto de 2016.
Parte integrante de As cartas que nunca enviei, publicado no Wattpad.

Teu nome

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José é meu nome. De Zé me chamavam em raros dias de muito bom humor.

Sou um cachorro que foi miseravelmente desamparado por minha família.

Meu humano me deixou assim, sem mais nem menos. Abriu a porta do carro, colocou-me para fora e partiu em alta velocidade. Mudou-se e eu fiquei para trás.

Razões e justificativas ele tem muitas, mas o fato é que nada justifica tamanho crime.

Eu conhecia o cheiro de todas as ruas, pois não deixava pedra por cheirar nos passeios que fizemos juntos. Ainda assim, de nada adiantou eu retornar a uma casa que agora estava vazia.

Quando a fome apertou eu simplesmente lati, na tola esperança de ter sobrado alguém na casa para me dar comida. Não tinha.

Tomei pito de um vizinho, um jato de água de mangueira de outro e nem assim me calei, porque a fome gritava em mim. Então eu raspei a porta de dona Zuleika. Ela tinha um olhar piedoso e sempre me dava carinho quando passava pelo portão. Foi dona Zuleika foi quem acalmou meu estômago naquele dia.

Ela até tentou me alimentar mais vezes, mas o marido dela é muito bravo e deu-lhe uma coça. Eu tive pena dela e, por gratidão, fui sofrer meu desarrimo em outro lugar.

Tem sido assim desde então, um dia ganho comida, outro roubo, um ou outro fico ouvindo o ronco do vazio dentro de mim e com saudade dos tempos de fartura durmo embaixo do carro do seu Eliseu, um senhor muito simpático que me abre o portão toda noite.

Embaixo do opala velho do seu Eliseu tem um tapetinho que me aquece. Não fosse a nossa uma cidade quente eu já teria virado picolé nas ruas. O tapetinho embaixo do carro é bom, mas fico manchado de óleo e com um visual tão imundo que fica mais complicado ainda conseguir comida.

O mundo é cruel, o mundo é dos belos.

O meu humano me achava bonito apesar de tudo, ele me disse uma vez: “você é tão feio que até é bonito”. Eu fiquei feliz com o elogio e rosnei e mordisquei o braço dele em agradecimento. Ele me jogou o livro que estava lendo e riu. Era a forma que ela tinha de dizer que me amava.

Ao menos eu pensei que ele me amava, até o dia que me deixou para trás.

Eu juro, se ele aparecesse aqui, se voltasse para me buscar, eu o perdoaria. Eu pularia em seu colo e lamberia sua face. Vamos, apareça! Volte!

Será que ele sente remorso?

Não pude notar se os seus olhos continham lágrimas quando me colocou no carro, pois a claridade batia nas lentes dos seus óculos. Só percebi que o momento era crítico porque as crianças choravam. Não fosse isso eu pensaria estar partindo para um passeio.

Eu não consigo esquecer seu rosto de senhor de meia-idade encarando pelo retrovisor enquanto me deixava para trás. Nem uma palavra ele disse, um adeus ou um foda-se.

Muitas vezes o ouvi me dizer: “Eu o chamo José. Como é que tu me chamas?”

Eu o chamava Amor, agora o chamo Abandono.

 

Imagem disponível em: <http://revistameupet.com.br/upload/imagens_upload/pet_rua.jpg&gt;. Acesso em: 29 de junho de 2016.
Inspirado no conto O crime do professor de matemática de Clarice Lispector.

Um sapo de personalidade

 

Eusebio

O sapo Eusébio era descendente de uma linhagem real dos Grandes Lagos da Vila Suíça. Desde girino Eusébio aprendera a amar seu lar e sua família, assim como ser grato por todo alimento que a natureza o oferecia.

Sua família era muito tradicional e fechada. Seus relacionamentos e convivência se limitavam aos primos e parentes próximos. O convívio com os demais moradores dos lagos não era, de forma alguma, incentivado. E, apesar de nunca ter havido notícia concreta de punição, corria a lenda que um ancestral havia cometido o sacrilégio de fugir com uma rãzona pimenta dos olhos vermelhos e foi banido da família.

Eusébio ouvira essa estória de seu tio-avô Bartolomeu em certa noite úmida, enquanto caçavam e ficou curioso para saber como era a tal rã que encantou tanto seu antepassado a ponto de fazê-lo transgredir a orientação dos familiares.

Fez diversas perguntas, mas Bartolomeu não quis saber de responder nenhuma e tratou logo de mudar de assunto, pois viu um perigoso interesse em Eusébio.

Para encerrar a conversa disse em voz muito grave e séria: “Meu caro Eusébio, resta-lhe apenas guardar a seguinte mensagem: não saia pelo lago fazendo amizades, não é educado de sua parte mostrar aos demais moradores deste habitat o quanto somos superiores a eles”.

O tio-avô Bartolomeu era muito formal e, às vezes, também bastante arrogante.

Normalmente, depois das fartas caçadas noturnas com o tio-avô Bartolomeu seguia-se uma longa noite de cantorias na beira do lago. Depois, com a barriga cheia e a garganta ardida de tanto coaxar, Eusébio dormia até perto do momento em que o sol se posicionava no meio do céu, bem acima de sua cabeça. E, como não gostava de tomar sol, sempre que acordava ia refrescar suas escamas em sua poça favorita, repleta de lama e água geladinha que ficava abaixo da Grande Pedra.

Certa feita, no caminho para a poça, Eusébio avistou um brilho estranho no meio de duas folhas e parou para ver do que se tratava. Para seu espanto, uma mosca enorme, brilhante, de tons verdes metálicos, debatia-se presa em uma teia de aranha.

“Um belo café da manhã”, pensou ele já colocando a enorme língua para fora da boca. Foi então que ele sentiu uma enorme ânsia. E depois outra. Sentiu as patas adormecerem e fechou os olhos para esperar a sensação passar. Devia ser algum mal-estar momentâneo devido ao banquete que fizera na noite anterior.

Ao abrir os olhos novamente, qual não foi seu espanto ao notar que a mosca o encarava com um olhar apavorado. Ele nunca notara antes quão grandes e expressivos eram os olhos das moscas. Se bem que ele nunca tinha visto uma mosca como aquela antes, tão grande e brilhosa. Parecia até vestida com uma fantasia de festa do Cururu do Ano.

— O que você está olhando? – perguntou Eusébio que, para seu total desconserto ouviu como resposta: — “Não me coma, por favor, eu tenho filhas para criar”.

— Você fala?

— Claro que eu falo, que tipo de mosca acha que eu sou?

— Desculpe, nunca ouvi uma mosca falar antes – disse Eusébio desconcertado.

— Por favor, é sério, não me mate e, se não for pedir muito, me ajude a sair daqui, estou presa há horas e sei que logo a dona desta teia vai voltar e eu estarei destinada a morrer lentamente envolvida em um casulo.

— Eu não sei como fazer para tirá-la daí.

— Use sua língua, mas, por favor, mesmo, por favor, não me engula.

— Isso vai ser muito difícil…

— Não me comer?

— Não! Tirar você daí usando minha língua… Façamos assim, eu vou esticar este graveto com a língua e você agarra ele bem firme com suas patas, ok?

— Ok.

— Força, está quase desgrudando… Ufa! Saiu. Agora pode voar… vamos, voe logo. Não consegue voar?

— Não consigo, estou exausta de tanto esforço para fugir da teia, preciso de um tempo para recuperar as forças e conseguir bater minhas asas novamente.

— Tudo bem então, boa sorte, até qualquer dia, eu vou indo.

— Não, por favor, fique. Estou muito vulnerável aqui sem poder voar. Qualquer predador pode me atacar assim.

— Acho que você não percebeu Dona Mosca, mas eu sou um predador que pode te atacar, então creio que seja melhor eu ir seguindo meu caminho.

— Por favor, fique. Confio em você. A propósito, como é seu nome?

— É Eusébio. Fico lisonjeado com sua confiança.

E foi assim que Eusébio ficou ali jogando conversa fora com a mosca que antes seria sua presa. A propósito, o nome dela era Josefina e assim que soube seu nome Eusébio teve certeza que seria incapaz de comê-la mesmo que estivesse morrendo de fome.

Ela era uma mosca muito simpática, contara muitas aventuras a Eusébio, que ficou morrendo de vontade de voar também para poder conhecer os lugares que ela visitou. Sem nem perceber o dia foi indo embora e quando viu já era hora de voltar para a casa para caçar com o tio-avô Bartolomeu.

— Nossa, já é tarde, preciso ir. E você tem suas filhas para cuidar. Já consegue voar?

— É, acho que sim… – resmungou Josefina enquanto batia cautelosamente suas asas. — Já posso sim. Mas, preciso ser sincera com você, agora que somos amigos… eu não tenho filhas, foi uma mentirinha que contei. Sabe como é, questão de sobrevivência, entrei em pânico. Mas tenho sobrinhas lindas e tenho certeza que elas sentiriam muito minha falta caso me comesse.

Eusébio riu da cara de arrependida que Josefina fez.

— Tudo bem, tudo bem, acho que eu faria o mesmo. Agora preciso mesmo ir. Nos vemos por aí?

— Claro que sim, amanhã estarei presa nesta mesma teia ao meio dia – e Josefina gargalhou batendo as asas para longe.

De lá de cima gritou para Eusébio:

— Daqui do alto você é ainda mais elegante, Eusébio. Suas escamas brilham vistas do alto, você sabia? É quase tão cintilante quanto meu corpo, mas de um tom completamente diferente. É incrível!

Não, Eusébio não sabia. E também não sabia que podia ser tão agradável a amizade com uma mosca.

Naquela noite, depois de tomar uma bronca do tio-avô Bartolomeu e de ouvir um sermão de meia hora sobre pontualidade, Eusébio saiu para a caçada noturna já com a barriga roncando de fome.

Durante o trajeto ele foi pensando se deveria contar ao tio-avô sobre a amizade que fizera com Josefina. Ele sabia que ninguém da sua família aceitaria isso, então segurou a informação para si.

Ao se posicionarem abaixo de um feixe de luz que saía do poste na clareira ao lado do Lago Leste, o tio-avô Bartolomeu começou a caçada e parecia estar com um apetite voraz, pois mal engolia um inseto e já capturava outro.

Eusébio também estava com fome e logo laçou um mosquito com sua língua. Mas, assim que o mosquito se aproximou de sua boca ele notou os olhos petrificados do inseto e o cuspiu no chão de terra batida. O mosquito, por sua vez, voou rapidamente para bem alto, fora do alcance dos dois sapos.

O tio-avô Bartolomeu nem percebeu o que acabara de acontecer, continuou enchendo a pança sem ao menos olhar para o lado.

“E agora, o que eu vou fazer? Será que todo inseto que eu caçar vai ser isso?”, pensou Eusébio, aflito.

Ele se afastou um pouco de Bartolomeu e tentou novamente esticar a linguona para pegar um besouro suculento que parecia estar voando sem rumo pela clareira. Foi quando sentiu novamente ânsia e recolheu imediatamente a língua, antes mesmo de se aproximar do besouro.

Agora a ânsia não se devia ao fato de estar com a barriga muito cheia, na verdade, ele sentia dores de fome e até uma certa tontura. Precisava se alimentar, mas só de pensar em caçar um novo inseto ele ficava com o estômago embrulhado. Foi aí que teve uma ideia: iria comer plantas! Claro, a mata ao redor do lago estava cheia de plantas verdinhas e os insetos pareciam se fartar. Devia ser muito bom.

Eusébio alegou uma indisposição ao tio-avô Bartolomeu e se afastou para a mata. Lá procurou uma touceira de mato para tentar se alimentar. Ele não fazia ideia de que tipo de mato era aquele, para ele era tudo igual, mas como viu uma formiga recolhendo um pedacinho e levando para o formigueiro sentiu-se seguro para experimentar.

Esticou a língua e pegou um ramo. “Hum, deve ser bom”, pensou se motivando.

— Eca – resmungou Eusébio enquanto cuspia o pedacinho de mato.

Como ia comer aquilo, pensou Eusébio enquanto olhava ao redor a procura de alguma outra planta que parecesse apetitosa.

Não achou nenhuma, foi para casa com a barriga doendo e nem conseguiu participar da cantoria daquela noite. Deixou seus pais preocupados, que questionaram o tio-avô Bartolomeu sobre a caçada da noite.

— Caros sobrinhos, não faço ideia do que possa ter havido com Eusébio. Sempre achei este sapinho muito esquisito. Fala mais do que come, pensa mais do que hiberna. Vocês o estão educando muito mal, sabem disso. Fazem todas as vontades dele. Minha missão é apenas levá-lo comigo na caçada. Se vocês precisam de uma babá contratem uma, mas não me façam perguntas que não poderei responder.

O tio-avô Bartolomeu também era bastante indelicado às vezes.

No dia seguinte, ainda com a barriga doendo de fome, Eusébio teve uma ideia. Saiu para a clareira onde ficava o poste que caçavam de noite e começou a comer os insetos que tinham morrido ao se debaterem na luz no dia anterior e estavam caídos no chão.

O gosto era muito ruim, nem de longe lembrava o sabor dos insetos caçados na hora. No entanto, havia a vantagem de não ter um par de olhos o mirando enquanto engolia.

Depois de comer, Eusébio rumou para a poça de lama na esperança de encontrar sua amiga Josefina e, assim que a encontrou, já foi contando seu dilema. Durante a conversa ele começou a sentir uma dor de barriga que foi aumentando, aumentando, até a hora que ele precisou sair correndo para trás da moita-banheiro para se aliviar.

— Olha só, Josefina. Esta é minha situação agora, ou tenho ânsia ou dor de barriga. Não consigo me alimentar e a culpa é sua…

— Minha, Eusébio? Por quê?

— Oras bolas, eu nem sabia que os insetos tinham sentimentos, família, antes de te conhecer. Agora que eu sei não consigo mais comê-los. Estou condenado a morrer de fome ou de diarreia.

— Não seja tão exagerado, Eusébio. Existe uma infinidade de coisas que você pode comer. No começo vai ser difícil, mas depois vai acostumar. Tanto seu paladar quanto seu estômago irão se ajustar. Vamos começar experimentando aquela flor rosa ali. Eu ouvi falar que é muito boa, tem um creminho dentro que alguns passarinhos adoram chupar.

E Eusébio subiu no galho mais baixo e esticou a língua para lamber o tal creminho. “É docinho”, pensou. E começou a lamber mais e mais até o sabor sumir.

— É bom, mas continuo com fome, Josefina. Este creminho não sustenta…

— Já sei, já sei, vem comigo.

E Josefina levou Eusébio em um cantinho da mata que ele nunca tinha visitado. Por ser meio longe dos lagos os sapos nunca iam para aquela direção.

Lá encontraram uma diversidade muito grande de plantas e Eusébio foi logo experimentando tudo que viu pela frente. Nenhuma era realmente boa ou suculenta como os insetos que comera no passado, mas uma ou outra dava uma boa enganada na fome. Até que encontrou uma planta esbranquiçada com um caule baixinho, grosso e que tinha uma espécie de chapeuzinho vermelho sobre ele.

Já estava com a planta na mão para comer quando Josefina deu um grito para ele:

— Não coma isto, Eusébio. É venenoso!

— Venenoso? Mas o que é isto?

— É um fungo, chama-se cogumelo. Este que você está segurando é venenoso, mas tem alguns logo ali que são comestíveis. Vem comigo.

Ao ultrapassar uma pequena moita de capim logo a seu lado direito, Eusébio se deparou com muitos cogumelos com o chapeuzinho levemente amarelado. Ficou encantado.

— Estes eu posso comer, Josefina?

— Pode sim.

Ao dar a primeira mordida Eusébio fez uma cara de surpresa e disse:

— Hum, é delicioso!

— É mesmo? Que bom que gostou. Mas como apenas alguns, não sabemos como seu estômago vai reagir a tanta novidade.

— Sim, pode deixar. Só vou comer uns 35.

E riram juntos do exagero de Eusébio, que era mesmo um comilão.

Naquela noite, na caçada com o tio-avô Bartolomeu, Eusébio disfarçou que estava capturando insetos, mas ficou apenas colocando a língua para dentro e para fora da boca sem pegar nada. Achou que o tinha enganado, mas pouco depois da caçada, na hora da cantoria, perto dos pais de Eusébio, o tio-avô disse sem nem controlar o tom de voz:

— Meu caro Eusébio, considero este um bom momento para que você nos revele o segredo de se manter sadio sem comer…

— Como assim? Você passou mal de novo, meu filho? Não conseguiu caçar? – disse, preocupada, a mãe de Eusébio.

— Não, mamãe, eu cacei sim. O tio-avô Bartolomeu deve ter se enganado. Estou bem alimentando.

— Ora, seu pestinha, acaso me chama de mentiroso agora? Acha que não notei seu esforço em fingir que comia enquanto mirava a língua para o ar e não capturava nada? Fiquei observando-o a noite toda e agora me vem com esta de estar bem alimentado. Só se comeu vento…

— Eusébio, peça desculpas para tio Bartolomeu. E explique essa história de que ficou fingindo que caçava.

Pelo olhar da mãe e devido ao desconcerto de ser pego de surpresa, Eusébio soube que não poderia inventar uma desculpa qualquer. Não conseguia pensar em nada para dizer além da verdade, então pediu que a mãe o acompanhasse em casa para poder contar tudo com calma. Ficou receoso de falar diante de todos e ser discriminado.

No entanto, mesmo com toda cautela para contar o ocorrido, a notícia caiu como uma bomba. A mãe de Eusébio começou a chorar, o pai deu a ele uma enorme carraspana e, em horas, todos já sabiam o que tinha acontecido, ocorrendo justamente o que ele temia… todos passaram a olhar para ele com desdém e a ignorá-lo.

Foi cabisbaixo que Eusébio encontrou Josefina na mata e contou a ela toda sua tristeza. Temia ter o mesmo destino de seu antepassado e ser banido do convívio dos seus familiares.

— Para com isto, Eusébio. Os tempos são outros, ninguém vai te banir por uma bobagem dessas…

— Mesmo que eu não seja expulso, não quero que me ignorem ou zombem de mim o tempo todo.

Josefina ouviu as lamúrias de Eusébio pelo tempo que pareceu uma eternidade. Então lhe disse:

— Preste muita atenção no que eu vou te dizer, Eusébio. Você é um sapo sabido e vai entender rapidinho. Você tem o direito de ser o que quiser e isso inclui o que vai comer, beber, vestir, com quem vai namorar ou ter amizades. Sua família precisa entender isso e aceitar suas escolhas. Se eles realmente o amam irão acabar entendendo que suas escolhas são parte de quem você é e aceitarão. Mas, independentemente de eles o aceitarem, você precisa se aceitar, assumir-se como um sapo que não come insetos e pronto e acabou, doa a quem doer.

— Você falando até parece fácil.

— Não, não é fácil. Mas é importante como poucas coisas na vida são. Eu garanto que você vai se sentir muito mais seguro para fazer futuras escolhas quando encarar este primeiro desafio.

E realmente não foi fácil. Eusébio emagreceu e deixou de ter aquela pancinha característica dos sapos de sua família, que se fartavam de insetos todas as noites. Sua pele clareou um pouco e ele ficou parecendo meio pálido perto de seus familiares. As escamas perderam um pouco o brilho, mas ele ganhou agilidade e disposição, acabou dormindo menos e visitando mais a biblioteca nas horas que sobraram. Descobriu coisas incríveis sobre a fauna e a flora de seu habitat. Sabia, como ninguém, dar conselhos para os jovens sapos sobre o que comer para acabar com a dor na língua, que erva passar na pele queimada de sol, como fugir dos predadores, essas coisas úteis e que antes eram desconhecidas pela maioria.

Seus pais acabaram sentindo orgulho do sapo que ele se tornou e enchiam-se de alegria ao contar que ele foi promovido a conselheiro do Lago Leste, o maior dos Grandes Lagos da Vila Suíça.

Eusébio seguiu feliz e realizado por ser quem ele era, por suas escolhas e personalidade. Agora era muito mais fácil encarar os desafios e os olhares dos sapos maldosos que todo lago tinha. Ele se considerava um sapo feliz e amado, tudo parecia perfeito, exceto por um detalhe: nunca falara sobre Josefina para seus familiares. Ninguém desconfiava de sua amizade com uma mosca e Eusébio sabia que era apenas questão de tempo até ter que se posicionar e apresentar sua melhor amiga para a família. Josefina não reclamava, mas Eusébio sabia que ela merecia esta consideração.

Ele precisava se posicionar e valorizar uma amizade que contribuíra tanto para seu crescimento pessoal. Mas a aventura de sua revelação fica para uma outra estória…

 

Imagem disponível em: <http://azcolorir.com/desenhos/KT6/A7z/KT6A7zqTo.gif&gt;. Acesso em: 24 de junho de 2016.

O pastor de ovelhas

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O cão pastor ideal é aquele que conduz o rebanho sem latidos e mordidas, mas parando em frente à ovelha e a intimidando. Assim é Pompeu, um border collie muito simpático que se hospedou em minha casa no último final de semana. A bandana vermelha que carrega no pescoço lhe confere um ar estiloso e elegante.

E, como cada pastor cuida de seu rebanho, logo que chegou, Pompeu assumiu que Pupo era sua ovelha.

O border collie é considerado o cão mais inteligente do mundo e Pompeu é um espécime perfeito da raça nesse quesito. Alerta, astuto e muito obediente, concentrado ao extremo no trabalho de arrebanhar sua ovelha.

Com o olhar e atenção completamente focados em Pupo, Pompeu esquece completamente de observar o que acontece a seu redor. Ele simplesmente nos ignorava quando nos aproximávamos, afinal, o objetivo dele era o Pupo e este se agitava com nossa proximidade. Perdia a chance de ganhar um carinho e atenção, nem os deliciosos ossos oferecidos o atraiam mais do que sua ovelha.

Pompeu só pensava em cercar e restringir, em impor sua filosofia e condicionar. Usava para tal seu olhar intimidante e seu próprio corpo para bloquear as saídas. Ao Pupo, um cão pacífico e alegre, restou a resignação e a certeza de que logo Pompeu partiria para sua casa e ele teria sua tão sonhada paz e liberdade de movimentação.

Pupo não é tolo, aproveita o melhor de Pompeu… “Como é divertido ser perseguido!”, pensa enquanto rouba a bolinha e corre, seguido por seu amigo pastor.

Ele não aceita ser restringido, mantido calado e deitado, como quer Pompeu, mas ele não discute, só quando a intimidação é exagerada e atravessa a linha que ele estabeleceu como limite. Sabe que é temporário, que Pompeu não vai mudar quem ele é simplesmente por ser intimidador e se impor sem cessar.

Não é culpa de Pompeu ser tão chato e obsessivo com sua ovelha, lá nos primórdios de seu DNA foi dito que ele deveria agir assim para ser eficiente e é isso que ele entende como correto. É parte do Pompeu acreditar que ele é um pastor, mesmo que ele já não viva no campo e que o Pupo não pareça em nada com uma ovelha. A missão de vida dele é esta: cercar, intimidar, reunir e reorganizar de acordo com o que seus valores estabelecem como seguro. Quem pode culpá-lo? Só está levando adiante a mensagem que há anos é passada para ele e na qual ele acredita.

Só que Pompeu cuida tanto da vida dos outros que se esquece da sua… vive estressado, não relaxa. De tanto ficar em cima dos outros com suas certezas ele as sufoca e cansa. O Pupo cansou de Pompeu, eu cansei de Pompeu e acho que até o Pompeu cansou de si mesmo nos breves dias que esteve conosco. E não é porque Pompeu é ruim, não. Pompeu é adorável!

Mas eu estou usando o Pompeu como bode expiatório para uma metáfora, e acho que você já percebeu.

Eu conheço diversos Pompeus, gosto de tê-los por perto vez ou outra e me canso deles, também, vez ou outra. Apesar de bonitos, inteligentes e de terem certa razão em seu discurso, eles são obcecados e não tiram o olhar do ponto que definem como importante.

Os Pompeus, por vezes, elegem-me sua ovelha e tal como o Pupo eu me deixo cercar e me resigno dentro de um limite, porque mesmo um Pompeu é divertido de vez em quando, para me perseguir enquanto fujo com a bolinha, essas coisas… mas sempre não dá.

Precisamos ter um espaço para exercitarmos nossa liberdade, de pensar, de agir, de mudar de ideia. Aquele que adota a missão de mudar seu pensamento quer mais é se impor e imposição é uma força bruta, é um tapa na cara, ofende e afasta.

Não existem verdades absolutas e uma mesma argumentação pode ser analisada por diversos pontos e encarada como yin ou yang. Então relaxa e para de perseguir ovelhas, porque quem deixa de ganhar um afago é você.

 

Imagem de Pompeu vigiando Pupo, arquivo da autora.