A arte de observar

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Não me leve a mal, não sou do tipo que conversa muito, eu gosto de observar. Meus amigos já sabem disso, e não se importam. No fundo, são todos exibicionistas e adoram me ter como plateia para seu showzinho medíocre e artificial.

Eu rio, mesmo nas piores piadas, porque é o que se espera de mim. Rio deles e não com eles. É por isso que rio tanto e tão espontaneamente, porque me dá pena ver o quanto o ser humano precisa de atenção e o quanto ele acha que está sendo agradável, quando, na verdade, não passa de um enorme pé no saco.

Quando não me chamam para sair eu saio sozinho. Eu gosto de ficar sozinho, desde que haja pessoas para observar. Então, nessas ocasiões, eu vou ao shopping. Não há melhor do que o shopping para exercitar a arte de observar.

Eu já tentei bares e baladas, mas a iluminação mais fraca não permite analisar as expressões dos observados e eles nunca estão em seu estado natural, normalmente entorpecidos por álcool ou drogas, não são bons casos para amostragem.

Os casos mais interessantes eu registro em um caderno velho de espiral com capa azul.

Nada de Moleskine… não tenho dinheiro e nem paciência para Moleskine.

Meus amigos metidos a escritores têm cada um seu Moleskine e, na primeira oportunidade, sacam seu caderninho (no fundo, um Moleskine não é nada além disso) para exibi-lo na roda. É só o primeiro agir dessa forma que se inicia o desfile dos Moleskines.

Um atrás do outro vai sendo aberto e começam a escrever ou ler alguma anotação que, certamente, poderia ter ficado para depois.

Mas, voltando ao meu caderno velho de espiral com capa azul, eu gosto mesmo é de chegar em casa, depois de uma tarde no shopping, fazer um café bem ralo (eu adoro café aguado e doce, bem doce!) e anotar minhas impressões sobre os casos mais interessantes que observei. Passo horas sentado, bebericando café e anotando.

Eu não escrevo muito, meu poder de síntese é muito grande, dedico mais tempo relembrando do que escrevendo. Esse processo me permite memorizar todos os casos interessantes. Eu nunca esqueço um rosto, uma situação que observei e anotei no caderno.

Posso oferecer de memória detalhes sobre cada um dos casos anotados, traços físicos da pessoa e dos acompanhantes, roupa que usava, como se comportava, o que dizia. Mas, como você nunca viu nenhum deles vai ter que assumir como verdadeira qualquer baboseira que eu disser.

Mas eu não falo baboseira, tenha certeza. Na verdade, eu mal falo. Quando abro a boca é para pontuar alguma coisa importante ou estabelecer algum limite. Frequentemente, aliás, eu tenho que estabelecer limites, principalmente com meus pais.

Não moro com meus pais há mais de vinte anos, mas eles ainda insistem em achar que podem entrar na minha casa e agir como se estivessem na deles. Minha mãe é a pior, ela já entra recolhendo roupa suja. Como isso me irrita!

Outro dia inventaram de ir jantar comigo, mas esqueceram de me avisar. De repente, chegam os dois com sacolas de compras nas mãos e um sorriso amarelo na cara. “Oi, viemos jantar com você”. Porra, eu quero ficar sozinho, não quero jantarzinho com papai e mamãe. Se assim fosse eu não teria saído de casa e economizava uma puta grana com aluguel.

Enfim, pais são foda, não é novidade. A novidade em certa feita foi que meu pai resolveu dar uma lidinha no meu caderno velho de espiral com capa azul enquanto eu estava no banheiro. Ele entendeu tudo errado e ficou muito preocupado com a minha esquizofrenia. Foi assim que ele chamou meu gosto especial por observar pessoas.

Ainda assim, a reação dele foi melhor do que a do terapeuta que visitei recentemente, que me disse com aquela cara azeda, procurando ser natural: “o nome disso é voyeur”. Voyeur o caralho! Eu não preciso ficar vendo ninguém fazer putaria para gozar. Cara idiota, nunca mais voltei nele.

Eu gosto de observar, só isso. Aprendo muito sobre comportamento fazendo isso, pode até ser meio esquisito, mas, das esquisitices do mundo, tenho certeza que não é a pior.
Aliás, meu irmão é muito mais esquisito que eu. É com ele que meu pai deveria se preocupar. O cara gosta de acumular coisas. Ele gasta uma pequena fortuna com canetas. Tem uma coleção de canetas de marcas que eu sequer sei pronunciar o nome. Caras, todas elas.

Pra mim isso é coisa de viado. Ficar fazendo coleçõezinhas? Ah, vai dar a bunda que é mais barato…

Meu irmão é casado e isso dá a ele o álibi perfeito para meu pai deixá-lo em paz. Mas eu sei, porque observo, que ele não gosta de estar casado, a menos, não com a Sara, sua esposa.

A maioria dos amigos que tenho, os do clube de poker e os do clube do uísque, exceto os dos Moleskine, são amigos do meu irmão. Eu os conheci por meio dele, que me introduziu nessas rodas para me tirar da minha esquizofrenia, a pedido de papai amado. E no clube de poker tem um cidadão meio suspeito que sai com mulheres lindíssimas, mas nunca se casa com nenhuma delas. Eu notei que ele aproveita o jogo para trocar olhares significativos com meu irmão.

Aliás, sobre esta coisa de observar, se você reparar bem vai perceber que cara muito machão é viado. Talvez nem ele saiba, mas é. Aquela necessidade de ficar autoafirmando a masculinidade é descaradamente insegurança quanto a ela.

Eu não tenho nada contra viado. De boa meu irmão ser um, só acho hipocrisia ele ficar casado com a Sara fingindo o parzinho perfeito. Eu sei que ela dá os pulos dela, porque observo, e acho que eles podiam assumir que entre eles não rola e cada um comer quem quiser. Meus pais acham os dois “um casal lindo” e esperam ansiosos pelo primeiro netinho. Os coroas não sacaram ainda o que rola ali. Se vier netinho não vai ser do meu irmão, isso tenho certeza.

Eu nunca cometi a indelicadeza de fazer anotações sobre o meu irmão, seus amigos ou sua esposa. Sou só um pobretão e foi apenas por caridade do casalzinho lindo que fui inserido no meio de tanta gente esnobe. Na real? Não me acrescenta porra nenhuma, mas dá material bom para minhas crônicas.

Escrevo crônicas para um jornal local. São semanais, pagam uma merreca, mas é melhor que nada. Também lavo pratos em um restaurante aqui do lado de casa nos finais de semana, isso sim dá uma boa grana. Até aí nenhuma grande novidade, qualquer merda de emprego paga melhor do que escrever.

O restaurante é chique, só gente de muita grana o frequenta. No final de semana fica uma fila enorme na porta, e quanto maior a fila mais gente quer parar e esperar. Só rindo!

Eu não reclamo, para mim quanto mais gente melhor. Eu recebo por hora, então quanto mais gente jantar, mais horas de trabalho.

No final da noite eu janto uma comida da boa e não preciso conversar com ninguém enquanto trabalho. É minha terapia. Muito melhor, a propósito, do que a que eu paguei para aquele idiota me chamar de voyeur.

O dono do restaurante gosta tanto do meu trabalho que quer demitir o lavador antigo e me contratar diariamente, mas eu estou resistente, não quero trabalhar todas as noites mais o final de semana.

O mandachuva do restaurante só escolhe para trabalhar com ele quem tem pós-graduação.

Na boa? Eu acho um absurdo o cara querer um cara assim para lavar pratos, mas não vou reclamar porque foi assim que eu consegui o emprego sem nunca ter lavado uma porra de uma colher na vida: com um doutorado em Literatura no currículo.

Ele nem quis saber porque eu estava querendo lavar pratos, só olhou o título de doutor e perguntou quanto eu queria ganhar por hora. Para ele, o importante é ter alguém que não quebre os pratos chiques e os copos finos feito uma casca de ovo e que possa sustentar uma conversa interessante no final do dia, durante o jantar coletivo.

O outro cara, o que lava os pratos nos outros dias da semana, tem MBA em Economia.

Perdeu o emprego numa crise feia que teve no país, ficou um tempão sem achar nada e depois ficou velho demais para retornar ao mercado. Ele não é tão bom quanto eu, já quebrou três copos, cinco pratos e arranhou duas tigelas de inox de sobremesa. Mas é bom de papo!

Eu nunca quebrei nada, mas quase perdi o emprego quando meu chefe sacou que eu não era muito de conversar. Por que ter um funcionário com doutorado que custa uma fortuna por hora para a função que desempenha se ele não fala porra nenhuma no jantar coletivo?Pois é, porquê?

Não sei o que me manteve no emprego, mas já estou lá há quatro anos. Devo lavar prato bem pra caralho!

Eu lavo prato melhor do que escrevo, disso tenho certeza, porque meu chefe do jornal me comia o rabo todo mês. Aderi ao envio on-line justamente para fugir disso. Era eu levar o original que ele já me chamava para conversar (leia-se, comer meu toco). Agora, como envio por e-mail, ele nem se dá ao trabalho de ficar falando merda. Por pura preguiça de escrever, isso é certo.

É uma pena, porque tinha uma gostosa muito da boa naquela redação e era minha alegria semanal dar uma xavecada nela. Por e-mail também não tem a menor graça xavecar alguém.

Eu sei que pareço minha avó quando digo isto, mas antigamente era muito melhor!

Não ligo a mínima de lavar prato a vida inteira se isso possibilitar que eu passe minhas tardes no shopping tomando milk shake e observando as pessoas. E quero que se fodam aqueles que dizem que eu sou um quarentão que age feito um adolescente. Eu parei na melhor época da minha vida mesmo e quero que todo mundo vá à merda. Que cada um cuide da porcaria da sua vida e me deixe em paz.

Eu pago as minhas contas no vencimento na maioria das vezes e não devo satisfações a ninguém. Quando eu escrever uma porra de um livro best seller todo mundo vai me achar o mais foda dos caras e vai perdoar a minha imbecil vida de adolescente aos quarenta. Mais até, acharão lindo ser como eu!

Para eles, vou escrever uma dedicatória assim no dia do lançamento: “Morra de inveja, seu cretino de merda. Abraços fraternos do autor quarentão adolescente e feliz”.

Eu já comecei a escrever meu best seller. Ele tem trinta e duas páginas de Word, com corpo doze, por enquanto, mas vai ter bem mais. Vai falar, obviamente, do que observo por aí.

Serão cinco casos que eu observei mais atentamente. O primeiro e único que já escrevi é especial. Por causa dele fui parar na cadeia. Vou aproveitar que estou fazendo minha pausa e vou dar uma resumida para você.

Eu tinha acabado de sair de uma cafeteria, franquia de uma marca estrangeira, quando avistei duas adolescentes de cochichos. Duas cocotinhas de riso frouxo, sainha curtinha e com malícia no olhar. Logo saquei que elas iam aprontar e comecei a segui-las de longe.

Primeiro elas entraram no banheiro e eu, obviamente, precisei esperar do lado de fora. Alguns minutos depois elas saíram com um batonzão vermelho na boca. Dirigiram-se para o quiosque de sorvetes e compraram uma casquinha para cada. Uma delas tirou com cuidado os trocados da bolsa rosa choque, pagou pelo sorvete e saíram se lambuzando com a casquinha (e deixando a molecada ao redor com o maior tesão).

Poucos metros adiante sentaram com um garoto no banco do corredor. Ele, meio tímido, claramente intimidado por ser a minoria entre os sexos do trio.

Conversaram durante alguns minutos, enquanto as meninas terminaram o sorvete e rumaram, os três, em direção a uma das saídas do shopping.

Eu já ia desistindo do trio quando vi a garota pegar o garoto por trás de um jeito um tanto insinuante. Fiquei chocado com a ousadia dela, mas fiquei instigado a continuar observando.

Lá fora, eles disfarçaram e entraram em um dos corredores de acessos de cargas, com uma atitude de quem sabe muito bem aonde estava indo. Foram até metade do corredor e eu tentei me posicionar a uma distância segura para observar sem ser visto pelo trio ou pelos passantes comuns do shopping.

Sem muita enrolação uma das garotas encostou o garoto na parede e começou a se esfregar nele, dando uns belos amassos com direito à mão mais do que boba pra lá e pra cá. A outra sequer se mostrou constrangida, pegou o celular e começou a filmar o pornô teen.

Poucos segundos depois (sim, segundos!, o amasso mais rápido do século) a menina desatracou do garoto que, com cara de desnorteado, não sabia que direção tomar.

Começaram a vir em minha direção, que era também a saída do corredor: as meninas olhando o vídeo gravado no celular e dando risinhos histéricos e o garoto com a boca completamente borrada de batom vermelho, cara de quem foi usado e gostou, o volume aumentado na calça jeans.

Mais que depressa sai do meu “esconderijo” com a certeza de que não tinha sido visto e me misturei com os caminhantes em direção à porta do shopping, mas parei perto da entrada para aguardar o trio. Mas o trio já voltara a ser dupla, o rapaz seguiu para o ponto de ônibus e as garotas vinham na direção da porta. Continue seguindo-as.

Elas entraram em uma loja de departamentos, pegaram diversas roupas para provar e quando saíram do provador, disfarçadamente, esconderam duas blusinhas e um shorts jeans na bolsa rosa choque que acomodaria muito mais peças facilmente. Mantiveram uma das peças na mão e foram para perto da saída. Fingiram olhar outras peças perto da porta e quando o alarme disparou e o segurança veio na direção delas, elas conversaram baixo algo com ele olhando para minha direção, entregaram o cabide com a peça que, teoricamente, disparou o alarme e saíram da loja.

Nisso o segurança veio na minha direção e pediu para eu acompanhá-lo até a sala de reunião e eu falei que não ia porra nenhuma. Ele então me arrastou até lá. Foi falando que era uma vergonha um tiozão feito eu ficar perseguindo adolescentes no shopping e eu disse que não tinha feito nada, que elas é que estavam roubando na loja e que fizeram ele de trouxa porque na bolsa tinham outras três peças.

Quando eu chamei o cara de trouxa ele ficou transtornado, chamou pelo rádio um monte de outros filhos-da-puta da segurança feito ele que acham que tem alguma porra de poder e os cretinos ficaram me enchendo o saco e me chamando de pedófilo. Eu mandava eles chamarem as garotas de volta que eles iam ver que elas aprontaram para nós. E foi aí que um dos cretinos filho-da-puta se aproximou e eu perdi a razão e dei um belo de um soco naquela cara gorda.

Foi assim que aquelas putinhas se deram bem levando para casa duas blusinhas e um shorts jeans roubado e eu fui parar na delegacia por perseguir menores e por socar o segurança do shopping.

Mas a estória não está com detalhes picantes sobre a ceninha do corredor e se você quiser saber mais vai ter que comprar meu livro, é claro. Acha que eu sou idiota de entregar tudo de mão beijada?

Toc, toc, toc.

— Que é, porra?

— Você demora aí?

Você aí, outra hora eu escrevo mais, o viado do garçom também quer cagar e esta porra deste restaurante só tem um banheiro para os funcionários.

Texto escrito para atividade de final de curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 30 de novembro de 2015.
Imagem disponível em: <https://clubeliterariodoporto.files.wordpress.com/2012/11/tumblr_mduofd1aov1r7l28fo7_500.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.
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