Castelo de areia

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Eu quase posso sentir a areia úmida sob meu corpo, os grãos grossos enfiando-se embaixo das unhas das minhas mãos enquanto cavava mais e mais fundo o fosso do meu castelo.

A areia molhada que saia do fosso eu deixava escorrer pelos meus dedos no topo do castelo e ele ia ficando encorpado e alto.

Um par de mãos grandes me ajudavam na empreitada. Palavras carinhosas incentivam-me a seguir cavando fundo.

O dia estava quente, mas o sol parecia tímido, escondido atrás das nuvens. Minha pele clara e de criança agradecia. Sempre odiei ficar lambuzada de filtro solar e aquele era um dia que não pedia muita proteção.

No entanto, a proteção estava ali, não em forma de filtro solar, mas sim por meio do olhar atento e gentil, que só aqueles que amam conseguem dar.

As horas iam passando sem serem notadas. Então o mar foi aos poucos invadindo nosso espaço e começava a ameaçar minha fortaleza.

Eu temia pela minha construção, mas meu ajudante não parecia se abalar com a ameaça.

De repente, uma onda mais intensa veio, invadiu o fosso e desmoronou o castelo.

O sorriso maroto do avô querido surgiu e de seus lábios saíram as palavras de incentivo: vamos começar de novo?

E ali, na sugestiva Praia dos Sonhos, eu aprendi que nossos castelos podem desmoronar, mas com o apoio daqueles que amamos, sempre podemos recomeçar a construí-los.

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Reticências

reticencias

— A Júlia Roberts morreu?

— Não, credo. Por que você está falando isso?

— A programação de quase todos os canais de filmes envolve a Júlia Roberts, isso só acontece quando o artista morre.

— Não fala bobagem, Ivan. Deve ser o aniversário dela. Quando é aniversário do artista eles também passam diversos filmes, fazem maratona. Deve ser isso.

E, com expressão de ponto de exclamação estampada em sua face, Ivan disse: — É verdade, também!

Rimos os dois, uma risada de cúmplices. Do outro lado da sala, sobrancelhas arqueadas demonstravam que nem todos achavam graça de nossa conversa.

Era Lydia, uma francesa filha de gregos que Ivan conhecera na Itália durante um curso de especialização em vinhos.

Ivan tinha uma queda por estrangeiras, vivia trazendo-as para casa depois de temporadas fora. Nunca durava mais do que poucas semanas, Ivan era difícil de conviver, desligado e, por vezes, desleixado. O fato de dividir a casa com sua mãe não ajudava muito nos relacionamentos.

Lydia era a única que eu não tolerava, todas as outras (não foram tantas) estavam abertas a conhecer nosso povo, nossa cultura. Já Lydia parecia intocável dentro daquela sua redoma de Chanel Nº 5. E, tal qual o perfume, ela estava se fixando por tempo demais.

Eu, alérgica a perfumes e à Lydia, já deixava de me esforçar para ser simpática. Amiga da família desde sempre, eu estava hospedada na casa de Ivan há algumas semanas e isso, visivelmente, não agravada a francesinha.

Meu apartamento, herança que meus pais deixaram, estava em reforma e, todo mundo sabe como é reforma: tem data para começar, não para terminar. Depois de umas trezentas crises de renite, recebi o convite da dona Tereza, mãe do Ivan, para ficar na casa deles enquanto o Ivan estivesse na Itália. Eu agradeci de coração e me mudei de mala e cuia para o quarto do Ivan, mas aí os dias foram passando e logo o Ivan estava chegando de volta, com a Lydia a tiracolo, e meu apartamento estava longe de estar em condições de ser habitado.

Dona Tereza não me deixou partir, esticou um colchão na biblioteca e me disse: — É aqui mesmo que você vai ficar, você adora ler… olha só! Que melhor lugar do que a biblioteca para você ficar?

Mamãe e dona Tereza eram amigas de infância e, depois que mamãe adoecera, precisou deixar nossa cidade para se tratar na capital. Foi quando deixou Dona Tereza incumbida de me manter sob vigilância. Era época de faculdade e mamãe não queria que eu ficasse “solta por aí”, como costumava dizer.

Foi quando me reaproximei de Ivan. Depois de uma grande amizade na infância, mal nos falávamos na adolescência (é uma fase esquisita para todo mundo…). Então entramos na faculdade e Ivan fez amigos, muitos amigos, animados e festeiros, enquanto eu me enfiei nos livros e nos estudos.

Dona Tereza praticamente o obrigou a me levar para todas as festas que ia naquela época. Para ele dizia: — Pobre menina, só estuda, precisa se distrair, leve-a com você para se divertir. Para mim confidenciava: — Eu preciso que alguém fique de olho neste menino, quem melhor do que você para isso?

Foi um sacrifício apenas nas três primeiras saídas, depois retomamos o ritmo da amizade e não nos desgrudamos mais.

Foi quando Ivan voltou da Itália com Lydia que as coisas começaram a ficar esquisitas. Ela não gostava da minha presença na casa e não fazia questão alguma de esconder. Eu tentava acelerar as coisas na reforma, mas estavam na fase da pintura e o cheiro era insuportável.

— Eu jamais deixaria você partir assim, querida – dizia Dona Tereza –, isso nem entra em discussão.

E assim eu ia ficando…

— Hoje vai ter uma festa ótima na casa do Jorge. O tema é México, então vai ter muita tequila. O que acham, garotas? — Ivan fez o convite, em inglês, para mim e para Lydia.

Lydia respondeu em francês, o que significava que não queria que eu entendesse o que estava dizendo. Precisou repetir três vezes até Ivan compreender o que ela estava dizendo (o francês dele era bem básico) e, pela cara dele, não foi algo muito agradável de se ouvir.
Ivan encerrou o assunto com um “OK” amargo e apenas me direcionou uma piscada e um sorriso amarelo. Bastava para eu saber que a festa não iria acontecer para nós.

Era muito óbvio para todo mundo que Lydia queria ficar sozinha com o Ivan e era mais do que natural esse tipo de coisa. A casa estava ficando apertada para tantas mulheres na vida dele e Lydia queria expandir seu espaço. Por mais de duas vezes eu chamei Dona Tereza para um cinema, um passeio no shopping, com o intuito de deixar Ivan e Lydia a sós, mas ela sempre os incluía no passeio com as desculpas mais esfarrapadas.

Eu estava começando a desconfiar que Dona Tereza não aprovava Lydia na vida de Ivan, mas ela era tão boa na arte da representação que eu não conseguia ter certeza quanto a seus objetivos. Sempre doce e sorridente, era impossível acusá-la de qualquer atitude suspeita.

Foi quando Ivan apareceu com um papel impresso, todo empolgado, mostrando-me um curso “imperdível!” de um ano em Lyon que Dona Tereza se revelou.

— Eu posso fazer meu trabalho de lá, você sabe, só vai agregar. E também posso aprimorar meu francês. Não é legal?

Lydia era de Lyon e eu já estava cansada dos ipsilones que ela trouxe consigo.

— Mas não faz nem três meses que você chegou… – lamentei com Ivan.

— Além do mais, você não precisa do francês para nada além de falar com a Lydia, Ivan – Dona Tereza adentrou na biblioteca reclamando.

— Ouvindo atrás da porta, Dona Tereza, que coisa feia! – comentou rindo Ivan.

— Até parece que eu preciso usar desse estratagema, Ivan. Você não sabe falar baixo… desde pequeno é assim.

— Nossa, estratagema é para gastar o latim, hein, mãe? Não está nada decidido ainda, mas a Lydia achou que seria legal a gente passar um ano com a família dela em Lyon e achou este curso bacana e tal. Estou pensando com carinho.

— Uau, um ano? Está ficando sério entre você e Lydia, não é? – argumentei. Eu sabia que o compromisso o apavorava.

Ivan desconversou e saiu da biblioteca. Não consegui esconder minha decepção, nem de Dona Tereza e nem de mim mesma. Ele estava indo embora, e com Lydia… e por um ano! Nunca liguei quando ele partia, mas agora senti um aperto no peito que não consegui explicar.

Então peguei o olhar de Dona Tereza sobre mim e não tive tempo de dar uma desculpa. Ela se aproximou e cochichou no meu ouvido:

— Faça o que for preciso, minha querida.

Deu uma piscadinha em minha direção e se afastou com um sorriso no rosto. Foi quando eu entendi. Entendi o que ela dizia, o que eu queria e o que, até então, não tinha verbalizado: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Acordei disposta, apesar da agitação na casa do vizinho (e dentro da minha cabeça) na noite anterior que me fizeram rolar no colchão de hora em hora. Eu não tinha muito tempo para tirar da cabeça do Ivan a ideia de ficar um ano fora com a Chanel Nº 5, então comecei a agir imediatamente.

— Ivan, mandei uma mensagem para o Jorge chamando ele e a Ivone para um lanche no parque. O que você acha? Tem algum plano com a Lydia? Está afim de se juntar a nós?

— Que bacana, quero ir sim. Vou falar com a Lydia assim que ela sair do banho e encontramos vocês lá, pode ser?

— Claro. Vá com roupa confortável.

— Combinado.

Lydia adorava atividades ao ar livre e, certamente, iria topar na hora. O que Lydia não gostava era de praticar esportes, nem eu, confesso, mas o Ivan adorava. Como Jorge e Ivone eram o tipo que topa tudo, eu programei um jogo de bets para aquela tarde.

— Vamos lá, Lydia. É o jogo da nossa infância, você precisa aprender, é muito divertido, é assim…

Ivan explicava as regras para Lydia em inglês e ela respondia em francês. Péssimo sinal! Ele sorria sem graça e jogava alguns pontos conosco, então tentava convencê-la a participar e ela, novamente, respondia em francês. Até a hora que ele desistiu e, mesmo sem querer, passou a se divertir imensamente conosco enquanto ela ficava cada segundo mais carrancuda.

Foi apenas a chuva que nos fez parar o jogo, e talvez um pouco nossa lombar que começava a reclamar. Então recolhemos nossa pequena bagunça de comes e bebes e voltamos para casa, todos com um sorriso no rosto, exceto Lydia, é claro.

Chegamos em casa e ela logo se trancou no quarto.

— Desculpa por isso, o programa não agradou a Lydia – disse a Ivan.

— Não se preocupe, ultimamente quase nada a agrada mesmo.

Estávamos só os dois na sala, Dona Tereza estava na casa dos vizinhos jogando buraco, então eu não resisti e me aproximei dele como se fosse confessar algo e, impulsivamente, o beijei.

Foi um beijo curto, intenso e muito molhado. O beijo que eu sempre quis dar em alguém de surpresa, mas Ivan não parecia surpreendido.

Eu me afastei e sem nenhum pudor, disse sorrindo:

— Desculpa por isso também.

Então ele veio para cima de mim e a surpreendida fui eu. Dei um passo para trás e me vi entre ele e o batente da porta. Ele me beijou mais longa e intensamente ainda e, ao se afastar disse:

— Eu não vou me desculpar por isso.

Com um sorriso encantador ele saiu em direção ao quarto e eu tive certeza: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Imagem disponível aqui. Acesso em: 6 de novembro de 2016.

Eu escolho o amor

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Escute o que eu estou lhe dizendo, eu não vou ficar repetindo ou correndo atrás de você para dizer mais vezes. Eu estou aqui de peito aberto para pedir desculpas pelo que eu fiz.

Não faça esta cara, eu sei que o magoei, eu sei que destruí o que havia entre nós. Acredite, eu sei. E eu lamento.

Eu não fui leviana, não vou mentir e dizer que foi algo sem significado para mim. Não foi.

Eu não o trairia se não fosse com alguém que realmente houvesse me tirado do meu centro. E acho que você sabe disso, pois me conhece muito bem.

Fiz a escolha de seguir sem esta pessoa em minha vida e doeu. Não fiz esta escolha por você e nem pelo nosso filho que eu carrego em meu ventre. Eu fiz por mim. Eu preciso de paz. Até por isso estou aqui para deixar tudo esclarecido entre nós. Eu sinto muito pelo rumo que tudo tomou.

Olha pra mim. Não é fácil estar aqui dizendo tudo isto.

Não, eu não quero que você diga “eu te perdoo”. Eu quero que você perdoe de verdade e não precisa nem me dizer, se não quiser. Eu não preciso do seu perdão para seguir em frente. Eu não preciso, de verdade. Eu me perdoei e isso era tudo o que eu precisava para viver minha vida daqui para frente. Mas se você me perdoar vai conseguir viver sem tanto ódio e isso vai ser melhor para você. Vai parar de se destruir aos poucos como tem feito. Eu não suporto ver você assim.

Não estou aqui pedindo o perdão para depois pedir que volte para mim. Eu não quero comigo alguém que me culpe por sua infelicidade, que me odeie. Eu escolhi o amor, é isso que eu quero para a minha vida e para a vida de nosso filho.

Não torça os olhos, não ouse. Nosso filho sim. Você é homem suficiente para admitir que estava lá e o fez comigo e não havia ninguém entre nós dois, nem física e nem sentimentalmente. Tudo aconteceu depois, você sabe. Não use meus erros como desculpa para condenar nosso filho. Ele não tem culpa.

Aliás, só fique na vida dele se o amar. Senão pode ir. Eu tenho amor suficiente para dar a ele. E ele o amará, assim como eu o amo.

Eu lamento, mas você não pode fazer nada com relação a isso. Não pode nos impedir de lhe amar. Esta é a nossa escolha, aceite-a e viva como achar melhor.

 

Publicação original no Scribe.
Imagem disponível em: <http://todateen.uol.com.br/tt/wp-content/uploads/2015/08/maos-formando-coracao-mat.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

O tordo

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As labaredas do fogo estalavam a madeira enquanto a consumia. Tudo ao redor fervia.

O ar estava ficando denso de fumaça e respirar se tornava um desafio perigoso.

Uma claridade se projetava pela lateral do imenso salão em chamas. Era uma saída daquele inferno dantesco.

Corro em direção a claridade, tropeço em alguma coisa quente e sinto a sola do meu calçado derreter. A sola do meu pé começa a arder e me apresso em levantar e continuar correndo.

A luz é forte do lado de fora, não consigo ver nada, fecho os olhos e sinto o ar limpo entrar em meus pulmões. Ele me queima por dentro, eu engasgo e tenho um acesso de tosse.

Olho para os lados, vejo embaçado agora, apenas vultos para um lado e para outro da rua.

Todos estão perdidos. Todos estão tentando se salvar.

Percebo que não ouço mais nada, apenas um zumbido contínuo. Lembro de um estrondo alto, acho que foi uma explosão, e mais nada, só zumbido, calor, fumaça e desespero.

Mas agora eu respiro, enxergo embaçado e ouço o zumbido. Estou viva, é o que importa.

De repente eu sinto algo se aproximando vindo do céu em minha direção, é um pássaro negro, ele está em chamas e bate suas asas em minha direção, ele tenta me agarrar.

Caio no chão, estou esgotada, cubro meu rosto com os braços e o pássaro me arranha com suas unhas.

Eu grito. Grito alto. Grito desesperadamente.

Abro os olhos assustada, vejo a luz do dia invadindo o quarto. No beiral de granito da varanda um tucano que nos visita diariamente tenta se equilibrar. A anatomia de suas garras não permite que ele se sustente na pedra lisa.

O meu grito o assusta e ele bate ainda mais as asas negras. Seu bico amarelo e laranja me remetem às chamas que até poucos segundos povoavam minha mente.

Meu marido desperta. Ele vê o tucano já desistindo de pousar em nossa varanda.

— O que está acontecendo? – pergunta-me assustado.

Eu não consigo responder, não porque o sonho foi impressionantemente real e se mesclou com a realidade do despertar de uma maneira surpreendente, mas porque não consigo parar de rir. Nunca mais assisto Jogos Vorazes antes de dormir.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 9 de novembro de 2015. Publicação original no Scribe (18 de novembro de 2015).
Imagem disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-GbKiXwNwqGA/UNu1mwShz0I/
AAAAAAAACzc/GHGPzaXVfCI/s1600/em-chamas-2c2ba-filme-de-jogos-vorazes-jc3a1-tem-data-de-lanc3a7amento.jpg>. Acesso em: 18 nov. 2015.

O sorriso

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Ela era uma universitária, ele um artista de cinema, dia da formatura da primeira.

Do outro lado do auditório uma possibilidade se escondia… seria uma vida apaixonada e feliz. Realizada, ela seguiria seu caminho sendo uma boa esposa, receberia amor e viveria muitos anos exercendo a profissão que escolheu.

Diante dela, o olhar, o sorriso devastador e um romance que apesar de breve (não adiantava se iludir) certamente seria inesquecível. Bastava retribuir o bilhete com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer.

Dois caminhos, uma escolha difícil. Sentimentos intensos, era dia de sua formatura.

A prova final fora uma armadilha, tinha certeza disso. O professor – um senhor sisudo de cabelos grisalhos – entregou-lhe a folha de avaliação com olhar desafiador. O olhar dizia: “quero vê-la sair desta”. Às vésperas da conclusão do curso e o professor vinha com essa…

Impetuosa como era, não pensou duas vezes, terminou a prova e saiu disparada em direção à sala do professor na universidade. Diante de uma plateia de cinco outros docentes desferiu os desaforos que guardava dentro de si.

A lógica estava ao lado dela, e mais, lembrava-se de uma informação que derrubou as defesas e argumentos do professor. Ela colocou para fora seus pensamentos, aquela prova era uma ofensa pessoal, virou as costas e sequer deu tempo para a réplica do professor, que pareceu receber uma paulada na face e pouco tinha a dizer em sua defesa.

Podia ter comprometido sua formatura, mas às favas com esse detalhe, queria mesmo era livrar-se daquele sentimento. E o fez. Assim que virou as costas, depois de tudo dito, sentia-se novamente em paz. Formada ou não formada, tinha a alma lavada e nada mais importava.

Passara por muita tensão, mas era dia de sua formatura, logo, conclui-se que as palavras desferidas ao professor surtiram efeito. Entretanto, o importante nesta história era o bilhete… e com o bilhete, vinha o olhar. E o sorriso, devastador.

Emocionada ela abraçou sua avó, a típica avó: grisalha e pequena, uma criatura falante que causava simpatia por onde passava.

De repente, começou a chorar. Choro compulsivo, alto, dolorido. Quem avistava a cena poderia acreditar que se tratava da emoção do momento, graduação depois do sufoco das provas finais, do desaforo do professor. Os mais atentos talvez imaginassem que era tudo por causa do bilhete, do olhar, do sorriso. Os atentos notaram o sorriso.

Mas não era. Só ela sabia, só ela sentia, só ela via… Era um dia especial, a emoção fazia parte dele, ela deveria estar vendo apenas a avó diante dela, mas via mais.

Via aquele que deveria estar ao lado da sua avó, e a seus olhos ele estava. Aquele que era parte importante daquele dia, mas que não estava fisicamente presente nele.

A emoção de vê-lo, o presente de ali tê-lo, era tudo muito intenso, muito verdadeiro, mesmo sendo uma visão apenas dela. Se era real ou se não era, pouco importava. Ela simplesmente sentia e chorava. Um choro que era uma prece, mas que ninguém sabia.

Ela segurava o bilhete, bastava tê-lo retribuído com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer. Ela não o fez, ficou estarrecida com a possibilidade.

Ela sempre o desejou, mas, de repente, os distintos caminhos que sua vida poderia tomar se mostraram claros diante dela. A escolha de qual seguir era muito difícil.

Do outro lado do auditório outra possibilidade a esperava. Uma vida muito bonita e feliz.
Ali, diante dela, o bilhete: “A GENTE NÃO ESCOLHE COMO VAI SER TODA NOSSA VIDA, MAS ESCOLHE COM QUEM VAI PASSÁ-LA.”

Levanta a cabeça, de cima do púlpito parte o olhar devastador, atravessa o salão dos cumprimentos, chega até ela. É o momento da decisão… e ela faz sua escolha.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (6 de abril de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://img01.deviantart.net/cf47/i/2015/264/7/2/gato_de_cheshire_by_deltaarena-d9agjzv.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Logo ali, onde tudo acontece…

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Depois de longos anos Cristina retornou às aulas naquela escola que tanta felicidade lhe trouxera. Foram áureos tempos, com crises adolescentes, amores impossíveis, diversão e amizade.

Tudo aquilo voltava, mas só na lembrança, muita coisa havia mudado.

A escola já não era a mesma, novas cores, reformada, bem mais apresentável que os primeiros anos de estudo.

Os tempos eram outros, mas as emoções eram revividas, passo a passo, sala a sala.

Ela olhava todos os rostos, nenhum lhe era familiar mas, apesar de tantos estranhos, ela se sentia em casa, ambientada como em poucos lugares.

E no meio da multidão, que passeia entretida no intervalo entre as aulas, eis que surje um rosto conhecido.

Na verdade, um rosto amado, desejado por anos a fio, um amor impossível.

Cristina, em vão, sonhara com a atenção daquele garoto, mas ele tinha olhos para todas, menos para ela.

Foram dias frustrantes e tudo voltou à tona naquele momento.

Mas agora algo parecia diferente, ele se dirigia à ela, sorria, se aproximava mais, mais ainda…

O ar lhe faltava, a proximidade era grande, mal dava para ouvir o que ele dizia de tão alto que seu coração batia.

Ele a beijou, ela fechou os olhos e aproveitou o ansiado momento.

O beijo era doce, melhor do que ela esperava e mais quente do que desejava.

Então ela abriu os olhos, o cenário havia mudado, o quarto escuro denunciava que ainda era noite e tudo não passou de um sonho.

Cristina sorriu, o sonho fora maravilhoso, mas a realidade era ainda melhor!

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (5 de julho de 2010).
Imagem disponível em: <http://www.folhavitoria.com.br/entretenimento/blogs/sexo-e-prazer/wp-content/uploads/2013/10/fantasiar.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.