O pastor de ovelhas

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O cão pastor ideal é aquele que conduz o rebanho sem latidos e mordidas, mas parando em frente à ovelha e a intimidando. Assim é Pompeu, um border collie muito simpático que se hospedou em minha casa no último final de semana. A bandana vermelha que carrega no pescoço lhe confere um ar estiloso e elegante.

E, como cada pastor cuida de seu rebanho, logo que chegou, Pompeu assumiu que Pupo era sua ovelha.

O border collie é considerado o cão mais inteligente do mundo e Pompeu é um espécime perfeito da raça nesse quesito. Alerta, astuto e muito obediente, concentrado ao extremo no trabalho de arrebanhar sua ovelha.

Com o olhar e atenção completamente focados em Pupo, Pompeu esquece completamente de observar o que acontece a seu redor. Ele simplesmente nos ignorava quando nos aproximávamos, afinal, o objetivo dele era o Pupo e este se agitava com nossa proximidade. Perdia a chance de ganhar um carinho e atenção, nem os deliciosos ossos oferecidos o atraiam mais do que sua ovelha.

Pompeu só pensava em cercar e restringir, em impor sua filosofia e condicionar. Usava para tal seu olhar intimidante e seu próprio corpo para bloquear as saídas. Ao Pupo, um cão pacífico e alegre, restou a resignação e a certeza de que logo Pompeu partiria para sua casa e ele teria sua tão sonhada paz e liberdade de movimentação.

Pupo não é tolo, aproveita o melhor de Pompeu… “Como é divertido ser perseguido!”, pensa enquanto rouba a bolinha e corre, seguido por seu amigo pastor.

Ele não aceita ser restringido, mantido calado e deitado, como quer Pompeu, mas ele não discute, só quando a intimidação é exagerada e atravessa a linha que ele estabeleceu como limite. Sabe que é temporário, que Pompeu não vai mudar quem ele é simplesmente por ser intimidador e se impor sem cessar.

Não é culpa de Pompeu ser tão chato e obsessivo com sua ovelha, lá nos primórdios de seu DNA foi dito que ele deveria agir assim para ser eficiente e é isso que ele entende como correto. É parte do Pompeu acreditar que ele é um pastor, mesmo que ele já não viva no campo e que o Pupo não pareça em nada com uma ovelha. A missão de vida dele é esta: cercar, intimidar, reunir e reorganizar de acordo com o que seus valores estabelecem como seguro. Quem pode culpá-lo? Só está levando adiante a mensagem que há anos é passada para ele e na qual ele acredita.

Só que Pompeu cuida tanto da vida dos outros que se esquece da sua… vive estressado, não relaxa. De tanto ficar em cima dos outros com suas certezas ele as sufoca e cansa. O Pupo cansou de Pompeu, eu cansei de Pompeu e acho que até o Pompeu cansou de si mesmo nos breves dias que esteve conosco. E não é porque Pompeu é ruim, não. Pompeu é adorável!

Mas eu estou usando o Pompeu como bode expiatório para uma metáfora, e acho que você já percebeu.

Eu conheço diversos Pompeus, gosto de tê-los por perto vez ou outra e me canso deles, também, vez ou outra. Apesar de bonitos, inteligentes e de terem certa razão em seu discurso, eles são obcecados e não tiram o olhar do ponto que definem como importante.

Os Pompeus, por vezes, elegem-me sua ovelha e tal como o Pupo eu me deixo cercar e me resigno dentro de um limite, porque mesmo um Pompeu é divertido de vez em quando, para me perseguir enquanto fujo com a bolinha, essas coisas… mas sempre não dá.

Precisamos ter um espaço para exercitarmos nossa liberdade, de pensar, de agir, de mudar de ideia. Aquele que adota a missão de mudar seu pensamento quer mais é se impor e imposição é uma força bruta, é um tapa na cara, ofende e afasta.

Não existem verdades absolutas e uma mesma argumentação pode ser analisada por diversos pontos e encarada como yin ou yang. Então relaxa e para de perseguir ovelhas, porque quem deixa de ganhar um afago é você.

 

Imagem de Pompeu vigiando Pupo, arquivo da autora.
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A arte de observar

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Não me leve a mal, não sou do tipo que conversa muito, eu gosto de observar. Meus amigos já sabem disso, e não se importam. No fundo, são todos exibicionistas e adoram me ter como plateia para seu showzinho medíocre e artificial.

Eu rio, mesmo nas piores piadas, porque é o que se espera de mim. Rio deles e não com eles. É por isso que rio tanto e tão espontaneamente, porque me dá pena ver o quanto o ser humano precisa de atenção e o quanto ele acha que está sendo agradável, quando, na verdade, não passa de um enorme pé no saco.

Quando não me chamam para sair eu saio sozinho. Eu gosto de ficar sozinho, desde que haja pessoas para observar. Então, nessas ocasiões, eu vou ao shopping. Não há melhor do que o shopping para exercitar a arte de observar.

Eu já tentei bares e baladas, mas a iluminação mais fraca não permite analisar as expressões dos observados e eles nunca estão em seu estado natural, normalmente entorpecidos por álcool ou drogas, não são bons casos para amostragem.

Os casos mais interessantes eu registro em um caderno velho de espiral com capa azul.

Nada de Moleskine… não tenho dinheiro e nem paciência para Moleskine.

Meus amigos metidos a escritores têm cada um seu Moleskine e, na primeira oportunidade, sacam seu caderninho (no fundo, um Moleskine não é nada além disso) para exibi-lo na roda. É só o primeiro agir dessa forma que se inicia o desfile dos Moleskines.

Um atrás do outro vai sendo aberto e começam a escrever ou ler alguma anotação que, certamente, poderia ter ficado para depois.

Mas, voltando ao meu caderno velho de espiral com capa azul, eu gosto mesmo é de chegar em casa, depois de uma tarde no shopping, fazer um café bem ralo (eu adoro café aguado e doce, bem doce!) e anotar minhas impressões sobre os casos mais interessantes que observei. Passo horas sentado, bebericando café e anotando.

Eu não escrevo muito, meu poder de síntese é muito grande, dedico mais tempo relembrando do que escrevendo. Esse processo me permite memorizar todos os casos interessantes. Eu nunca esqueço um rosto, uma situação que observei e anotei no caderno.

Posso oferecer de memória detalhes sobre cada um dos casos anotados, traços físicos da pessoa e dos acompanhantes, roupa que usava, como se comportava, o que dizia. Mas, como você nunca viu nenhum deles vai ter que assumir como verdadeira qualquer baboseira que eu disser.

Mas eu não falo baboseira, tenha certeza. Na verdade, eu mal falo. Quando abro a boca é para pontuar alguma coisa importante ou estabelecer algum limite. Frequentemente, aliás, eu tenho que estabelecer limites, principalmente com meus pais.

Não moro com meus pais há mais de vinte anos, mas eles ainda insistem em achar que podem entrar na minha casa e agir como se estivessem na deles. Minha mãe é a pior, ela já entra recolhendo roupa suja. Como isso me irrita!

Outro dia inventaram de ir jantar comigo, mas esqueceram de me avisar. De repente, chegam os dois com sacolas de compras nas mãos e um sorriso amarelo na cara. “Oi, viemos jantar com você”. Porra, eu quero ficar sozinho, não quero jantarzinho com papai e mamãe. Se assim fosse eu não teria saído de casa e economizava uma puta grana com aluguel.

Enfim, pais são foda, não é novidade. A novidade em certa feita foi que meu pai resolveu dar uma lidinha no meu caderno velho de espiral com capa azul enquanto eu estava no banheiro. Ele entendeu tudo errado e ficou muito preocupado com a minha esquizofrenia. Foi assim que ele chamou meu gosto especial por observar pessoas.

Ainda assim, a reação dele foi melhor do que a do terapeuta que visitei recentemente, que me disse com aquela cara azeda, procurando ser natural: “o nome disso é voyeur”. Voyeur o caralho! Eu não preciso ficar vendo ninguém fazer putaria para gozar. Cara idiota, nunca mais voltei nele.

Eu gosto de observar, só isso. Aprendo muito sobre comportamento fazendo isso, pode até ser meio esquisito, mas, das esquisitices do mundo, tenho certeza que não é a pior.
Aliás, meu irmão é muito mais esquisito que eu. É com ele que meu pai deveria se preocupar. O cara gosta de acumular coisas. Ele gasta uma pequena fortuna com canetas. Tem uma coleção de canetas de marcas que eu sequer sei pronunciar o nome. Caras, todas elas.

Pra mim isso é coisa de viado. Ficar fazendo coleçõezinhas? Ah, vai dar a bunda que é mais barato…

Meu irmão é casado e isso dá a ele o álibi perfeito para meu pai deixá-lo em paz. Mas eu sei, porque observo, que ele não gosta de estar casado, a menos, não com a Sara, sua esposa.

A maioria dos amigos que tenho, os do clube de poker e os do clube do uísque, exceto os dos Moleskine, são amigos do meu irmão. Eu os conheci por meio dele, que me introduziu nessas rodas para me tirar da minha esquizofrenia, a pedido de papai amado. E no clube de poker tem um cidadão meio suspeito que sai com mulheres lindíssimas, mas nunca se casa com nenhuma delas. Eu notei que ele aproveita o jogo para trocar olhares significativos com meu irmão.

Aliás, sobre esta coisa de observar, se você reparar bem vai perceber que cara muito machão é viado. Talvez nem ele saiba, mas é. Aquela necessidade de ficar autoafirmando a masculinidade é descaradamente insegurança quanto a ela.

Eu não tenho nada contra viado. De boa meu irmão ser um, só acho hipocrisia ele ficar casado com a Sara fingindo o parzinho perfeito. Eu sei que ela dá os pulos dela, porque observo, e acho que eles podiam assumir que entre eles não rola e cada um comer quem quiser. Meus pais acham os dois “um casal lindo” e esperam ansiosos pelo primeiro netinho. Os coroas não sacaram ainda o que rola ali. Se vier netinho não vai ser do meu irmão, isso tenho certeza.

Eu nunca cometi a indelicadeza de fazer anotações sobre o meu irmão, seus amigos ou sua esposa. Sou só um pobretão e foi apenas por caridade do casalzinho lindo que fui inserido no meio de tanta gente esnobe. Na real? Não me acrescenta porra nenhuma, mas dá material bom para minhas crônicas.

Escrevo crônicas para um jornal local. São semanais, pagam uma merreca, mas é melhor que nada. Também lavo pratos em um restaurante aqui do lado de casa nos finais de semana, isso sim dá uma boa grana. Até aí nenhuma grande novidade, qualquer merda de emprego paga melhor do que escrever.

O restaurante é chique, só gente de muita grana o frequenta. No final de semana fica uma fila enorme na porta, e quanto maior a fila mais gente quer parar e esperar. Só rindo!

Eu não reclamo, para mim quanto mais gente melhor. Eu recebo por hora, então quanto mais gente jantar, mais horas de trabalho.

No final da noite eu janto uma comida da boa e não preciso conversar com ninguém enquanto trabalho. É minha terapia. Muito melhor, a propósito, do que a que eu paguei para aquele idiota me chamar de voyeur.

O dono do restaurante gosta tanto do meu trabalho que quer demitir o lavador antigo e me contratar diariamente, mas eu estou resistente, não quero trabalhar todas as noites mais o final de semana.

O mandachuva do restaurante só escolhe para trabalhar com ele quem tem pós-graduação.

Na boa? Eu acho um absurdo o cara querer um cara assim para lavar pratos, mas não vou reclamar porque foi assim que eu consegui o emprego sem nunca ter lavado uma porra de uma colher na vida: com um doutorado em Literatura no currículo.

Ele nem quis saber porque eu estava querendo lavar pratos, só olhou o título de doutor e perguntou quanto eu queria ganhar por hora. Para ele, o importante é ter alguém que não quebre os pratos chiques e os copos finos feito uma casca de ovo e que possa sustentar uma conversa interessante no final do dia, durante o jantar coletivo.

O outro cara, o que lava os pratos nos outros dias da semana, tem MBA em Economia.

Perdeu o emprego numa crise feia que teve no país, ficou um tempão sem achar nada e depois ficou velho demais para retornar ao mercado. Ele não é tão bom quanto eu, já quebrou três copos, cinco pratos e arranhou duas tigelas de inox de sobremesa. Mas é bom de papo!

Eu nunca quebrei nada, mas quase perdi o emprego quando meu chefe sacou que eu não era muito de conversar. Por que ter um funcionário com doutorado que custa uma fortuna por hora para a função que desempenha se ele não fala porra nenhuma no jantar coletivo?Pois é, porquê?

Não sei o que me manteve no emprego, mas já estou lá há quatro anos. Devo lavar prato bem pra caralho!

Eu lavo prato melhor do que escrevo, disso tenho certeza, porque meu chefe do jornal me comia o rabo todo mês. Aderi ao envio on-line justamente para fugir disso. Era eu levar o original que ele já me chamava para conversar (leia-se, comer meu toco). Agora, como envio por e-mail, ele nem se dá ao trabalho de ficar falando merda. Por pura preguiça de escrever, isso é certo.

É uma pena, porque tinha uma gostosa muito da boa naquela redação e era minha alegria semanal dar uma xavecada nela. Por e-mail também não tem a menor graça xavecar alguém.

Eu sei que pareço minha avó quando digo isto, mas antigamente era muito melhor!

Não ligo a mínima de lavar prato a vida inteira se isso possibilitar que eu passe minhas tardes no shopping tomando milk shake e observando as pessoas. E quero que se fodam aqueles que dizem que eu sou um quarentão que age feito um adolescente. Eu parei na melhor época da minha vida mesmo e quero que todo mundo vá à merda. Que cada um cuide da porcaria da sua vida e me deixe em paz.

Eu pago as minhas contas no vencimento na maioria das vezes e não devo satisfações a ninguém. Quando eu escrever uma porra de um livro best seller todo mundo vai me achar o mais foda dos caras e vai perdoar a minha imbecil vida de adolescente aos quarenta. Mais até, acharão lindo ser como eu!

Para eles, vou escrever uma dedicatória assim no dia do lançamento: “Morra de inveja, seu cretino de merda. Abraços fraternos do autor quarentão adolescente e feliz”.

Eu já comecei a escrever meu best seller. Ele tem trinta e duas páginas de Word, com corpo doze, por enquanto, mas vai ter bem mais. Vai falar, obviamente, do que observo por aí.

Serão cinco casos que eu observei mais atentamente. O primeiro e único que já escrevi é especial. Por causa dele fui parar na cadeia. Vou aproveitar que estou fazendo minha pausa e vou dar uma resumida para você.

Eu tinha acabado de sair de uma cafeteria, franquia de uma marca estrangeira, quando avistei duas adolescentes de cochichos. Duas cocotinhas de riso frouxo, sainha curtinha e com malícia no olhar. Logo saquei que elas iam aprontar e comecei a segui-las de longe.

Primeiro elas entraram no banheiro e eu, obviamente, precisei esperar do lado de fora. Alguns minutos depois elas saíram com um batonzão vermelho na boca. Dirigiram-se para o quiosque de sorvetes e compraram uma casquinha para cada. Uma delas tirou com cuidado os trocados da bolsa rosa choque, pagou pelo sorvete e saíram se lambuzando com a casquinha (e deixando a molecada ao redor com o maior tesão).

Poucos metros adiante sentaram com um garoto no banco do corredor. Ele, meio tímido, claramente intimidado por ser a minoria entre os sexos do trio.

Conversaram durante alguns minutos, enquanto as meninas terminaram o sorvete e rumaram, os três, em direção a uma das saídas do shopping.

Eu já ia desistindo do trio quando vi a garota pegar o garoto por trás de um jeito um tanto insinuante. Fiquei chocado com a ousadia dela, mas fiquei instigado a continuar observando.

Lá fora, eles disfarçaram e entraram em um dos corredores de acessos de cargas, com uma atitude de quem sabe muito bem aonde estava indo. Foram até metade do corredor e eu tentei me posicionar a uma distância segura para observar sem ser visto pelo trio ou pelos passantes comuns do shopping.

Sem muita enrolação uma das garotas encostou o garoto na parede e começou a se esfregar nele, dando uns belos amassos com direito à mão mais do que boba pra lá e pra cá. A outra sequer se mostrou constrangida, pegou o celular e começou a filmar o pornô teen.

Poucos segundos depois (sim, segundos!, o amasso mais rápido do século) a menina desatracou do garoto que, com cara de desnorteado, não sabia que direção tomar.

Começaram a vir em minha direção, que era também a saída do corredor: as meninas olhando o vídeo gravado no celular e dando risinhos histéricos e o garoto com a boca completamente borrada de batom vermelho, cara de quem foi usado e gostou, o volume aumentado na calça jeans.

Mais que depressa sai do meu “esconderijo” com a certeza de que não tinha sido visto e me misturei com os caminhantes em direção à porta do shopping, mas parei perto da entrada para aguardar o trio. Mas o trio já voltara a ser dupla, o rapaz seguiu para o ponto de ônibus e as garotas vinham na direção da porta. Continue seguindo-as.

Elas entraram em uma loja de departamentos, pegaram diversas roupas para provar e quando saíram do provador, disfarçadamente, esconderam duas blusinhas e um shorts jeans na bolsa rosa choque que acomodaria muito mais peças facilmente. Mantiveram uma das peças na mão e foram para perto da saída. Fingiram olhar outras peças perto da porta e quando o alarme disparou e o segurança veio na direção delas, elas conversaram baixo algo com ele olhando para minha direção, entregaram o cabide com a peça que, teoricamente, disparou o alarme e saíram da loja.

Nisso o segurança veio na minha direção e pediu para eu acompanhá-lo até a sala de reunião e eu falei que não ia porra nenhuma. Ele então me arrastou até lá. Foi falando que era uma vergonha um tiozão feito eu ficar perseguindo adolescentes no shopping e eu disse que não tinha feito nada, que elas é que estavam roubando na loja e que fizeram ele de trouxa porque na bolsa tinham outras três peças.

Quando eu chamei o cara de trouxa ele ficou transtornado, chamou pelo rádio um monte de outros filhos-da-puta da segurança feito ele que acham que tem alguma porra de poder e os cretinos ficaram me enchendo o saco e me chamando de pedófilo. Eu mandava eles chamarem as garotas de volta que eles iam ver que elas aprontaram para nós. E foi aí que um dos cretinos filho-da-puta se aproximou e eu perdi a razão e dei um belo de um soco naquela cara gorda.

Foi assim que aquelas putinhas se deram bem levando para casa duas blusinhas e um shorts jeans roubado e eu fui parar na delegacia por perseguir menores e por socar o segurança do shopping.

Mas a estória não está com detalhes picantes sobre a ceninha do corredor e se você quiser saber mais vai ter que comprar meu livro, é claro. Acha que eu sou idiota de entregar tudo de mão beijada?

Toc, toc, toc.

— Que é, porra?

— Você demora aí?

Você aí, outra hora eu escrevo mais, o viado do garçom também quer cagar e esta porra deste restaurante só tem um banheiro para os funcionários.

Texto escrito para atividade de final de curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 30 de novembro de 2015.
Imagem disponível em: <https://clubeliterariodoporto.files.wordpress.com/2012/11/tumblr_mduofd1aov1r7l28fo7_500.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

Esta menininha que mora em mim

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Era uma vez uma menina loirinha que adorava animais.

Seus animais favoritos eram, nesta ordem: cães, macacos, golfinhos e cavalos.

Ela amava cães. Eles já eram parte de sua vida desde pequena e se acostumara a sua agradável presença. Com os outros três favoritos era diferente, eles pareciam seres distantes de sua convivência e representavam mais do que apenas animais de estimação.

Chorava muito assistindo Lassie, uma cadela collie que fazia parte de um seriado. Lassie sempre sofria muito nos episódios… era muito sabida e carinhosa.

Todos os cães que ela teve em sua vida a ensinaram coisas boas e foram importantes. Ela se recorda carinhosamente de cada um deles e suas melhores lembranças da infância estão relacionadas a eles.

Para a menina os cães simbolizam o amor.

Em seu quarto havia um quadro/pôster enorme com um macaco chimpanzé. Ela adorava esse quadro, o macaco era lindo e divertido, com sua roupa de tenista e a raquete na mão.

Espalhados, ela também tinha algumas pelúcias dos símios. Um deles até fazia um som engraçado quando sua barriga era apertada. Seu nome era Murphy. Ele usava uma camisa da seleção brasileira e pendurada a ela estava uma redinha com uma bola de futebol dentro. Pura fofura!

Ela teve o prazer de ter e conviver com os pequenos macaquinhos saguis que seu pai adquiriu, aprendeu muito sobre eles para poder cuidar melhor deles e tem muito boas recordações de todos com os quais conviveu de pertinho. Ela ajuda há muitos anos um projeto que preserva e cuida desses mesmos macaquinhos.

Para a menina os macacos simbolizam a alegria.

Os golfinhos ela tinha fascínio de conhecer, de nadar com eles. Colecionava imagens no computador e os colocava de fundo de tela. Durante um tempo eles foram sua obsessão. Flipper era seu golfinho favorito e ela adorava vê-lo pela tv.

Apenas depois de grande a menina pode ver golfinhos nadando perto do barco que ela passeava. Foi um momento mágico.

Ela ainda tem o sonho de nadar com um deles…

Para a menina os golfinhos simbolizam a liberdade.

Os cavalos, por fim, eram animais fascinantes, que ela via de perto sempre que podia. Até já tinha passeado em alguns deles por algumas vezes.

Seu filme favorito sobre cavalos, que a fazia sonhar em ter um deles, era O Corcel Negro.

Aquele cavalo negro quando empinava enchia o peito dela de uma sensação que nunca soube explicar. Até hoje quando ela vê os cavalos empinarem daquela forma sente-se da mesma maneira. Ainda não conseguiu encontrar palavra que descreva a sensação.

Uma de suas grandes e boas lembranças foi quando seu pai a levou para conhecer a égua que ele havia comprado: a Rainha. Ela veio para a família e a menina, já uma mocinha, pôde realizar o sonho de cuidar, andar e amar um cavalo que era seu. A sensação era maravilhosa.

Para a menina os cavalos simbolizam a força.

Hoje, adulta, a menina que ainda mora nela sabe que seus animais favoritos retratam o que ela valoriza na vida.

 

Imagem da autora na infância, arquivo pessoal.

Eu escolho o amor

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Escute o que eu estou lhe dizendo, eu não vou ficar repetindo ou correndo atrás de você para dizer mais vezes. Eu estou aqui de peito aberto para pedir desculpas pelo que eu fiz.

Não faça esta cara, eu sei que o magoei, eu sei que destruí o que havia entre nós. Acredite, eu sei. E eu lamento.

Eu não fui leviana, não vou mentir e dizer que foi algo sem significado para mim. Não foi.

Eu não o trairia se não fosse com alguém que realmente houvesse me tirado do meu centro. E acho que você sabe disso, pois me conhece muito bem.

Fiz a escolha de seguir sem esta pessoa em minha vida e doeu. Não fiz esta escolha por você e nem pelo nosso filho que eu carrego em meu ventre. Eu fiz por mim. Eu preciso de paz. Até por isso estou aqui para deixar tudo esclarecido entre nós. Eu sinto muito pelo rumo que tudo tomou.

Olha pra mim. Não é fácil estar aqui dizendo tudo isto.

Não, eu não quero que você diga “eu te perdoo”. Eu quero que você perdoe de verdade e não precisa nem me dizer, se não quiser. Eu não preciso do seu perdão para seguir em frente. Eu não preciso, de verdade. Eu me perdoei e isso era tudo o que eu precisava para viver minha vida daqui para frente. Mas se você me perdoar vai conseguir viver sem tanto ódio e isso vai ser melhor para você. Vai parar de se destruir aos poucos como tem feito. Eu não suporto ver você assim.

Não estou aqui pedindo o perdão para depois pedir que volte para mim. Eu não quero comigo alguém que me culpe por sua infelicidade, que me odeie. Eu escolhi o amor, é isso que eu quero para a minha vida e para a vida de nosso filho.

Não torça os olhos, não ouse. Nosso filho sim. Você é homem suficiente para admitir que estava lá e o fez comigo e não havia ninguém entre nós dois, nem física e nem sentimentalmente. Tudo aconteceu depois, você sabe. Não use meus erros como desculpa para condenar nosso filho. Ele não tem culpa.

Aliás, só fique na vida dele se o amar. Senão pode ir. Eu tenho amor suficiente para dar a ele. E ele o amará, assim como eu o amo.

Eu lamento, mas você não pode fazer nada com relação a isso. Não pode nos impedir de lhe amar. Esta é a nossa escolha, aceite-a e viva como achar melhor.

 

Publicação original no Scribe.
Imagem disponível em: <http://todateen.uol.com.br/tt/wp-content/uploads/2015/08/maos-formando-coracao-mat.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

O tordo

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As labaredas do fogo estalavam a madeira enquanto a consumia. Tudo ao redor fervia.

O ar estava ficando denso de fumaça e respirar se tornava um desafio perigoso.

Uma claridade se projetava pela lateral do imenso salão em chamas. Era uma saída daquele inferno dantesco.

Corro em direção a claridade, tropeço em alguma coisa quente e sinto a sola do meu calçado derreter. A sola do meu pé começa a arder e me apresso em levantar e continuar correndo.

A luz é forte do lado de fora, não consigo ver nada, fecho os olhos e sinto o ar limpo entrar em meus pulmões. Ele me queima por dentro, eu engasgo e tenho um acesso de tosse.

Olho para os lados, vejo embaçado agora, apenas vultos para um lado e para outro da rua.

Todos estão perdidos. Todos estão tentando se salvar.

Percebo que não ouço mais nada, apenas um zumbido contínuo. Lembro de um estrondo alto, acho que foi uma explosão, e mais nada, só zumbido, calor, fumaça e desespero.

Mas agora eu respiro, enxergo embaçado e ouço o zumbido. Estou viva, é o que importa.

De repente eu sinto algo se aproximando vindo do céu em minha direção, é um pássaro negro, ele está em chamas e bate suas asas em minha direção, ele tenta me agarrar.

Caio no chão, estou esgotada, cubro meu rosto com os braços e o pássaro me arranha com suas unhas.

Eu grito. Grito alto. Grito desesperadamente.

Abro os olhos assustada, vejo a luz do dia invadindo o quarto. No beiral de granito da varanda um tucano que nos visita diariamente tenta se equilibrar. A anatomia de suas garras não permite que ele se sustente na pedra lisa.

O meu grito o assusta e ele bate ainda mais as asas negras. Seu bico amarelo e laranja me remetem às chamas que até poucos segundos povoavam minha mente.

Meu marido desperta. Ele vê o tucano já desistindo de pousar em nossa varanda.

— O que está acontecendo? – pergunta-me assustado.

Eu não consigo responder, não porque o sonho foi impressionantemente real e se mesclou com a realidade do despertar de uma maneira surpreendente, mas porque não consigo parar de rir. Nunca mais assisto Jogos Vorazes antes de dormir.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 9 de novembro de 2015. Publicação original no Scribe (18 de novembro de 2015).
Imagem disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-GbKiXwNwqGA/UNu1mwShz0I/
AAAAAAAACzc/GHGPzaXVfCI/s1600/em-chamas-2c2ba-filme-de-jogos-vorazes-jc3a1-tem-data-de-lanc3a7amento.jpg>. Acesso em: 18 nov. 2015.

Entre rodopios

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Uma bailarina rodopia em seu próprio eixo, a saia rodada formando um sol, luminoso e reluzente, aquecendo o ambiente.

Seu semblante é sereno, os sucessivos rodopios não parecem desestabilizá-la. Encontra-se em uma espécie de transe.

Não fosse ela pagã eu a santificaria, tamanho o sentimento de paz que ela transmite.

De repente ela inclui um movimento novo, não apenas rodopia, mas também movimenta o pescoço em círculos opostos ao seu giro, aumentando o grau de dificuldade de execução de seu bailado.

Qual o objetivo daquilo, eu me pergunto. Não parece ser apenas uma demonstração técnica, tamanha é a entrega.

Capto um leve sorriso quando me abaixo para espiá-la melhor.

Então ela me nota? Vê que a observo e analiso? Como isso é possível?

Eu me canso de olhar antes que ela faça qualquer menção de estar cansada de girar.

Minto, não me canso de olhar, mas não tenho coragem de admitir meu embrulho no estômago apenas por observar tantos rodopios, então finjo desdém aos demais que a assistem ao meu lado, na imensa roda que se formou ao redor da bela girante. No melhor estilo “ok, ela faz só isso?”, como um brinquedo velho eu a descarto e viro as costas para sair.

Percebo rapidamente o espanto no olhar dos que a cercam assim que me viro. Volto-me para trás novamente e dou de cara com a bailarina parada, olhos expressivos sustentando os meus. Ela me encara firmemente. Tal como a roda da fortuna, ela interrompeu o seu giro. Meu destino agora está traçado.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 8 de outubro de 2015. Publicação original no Scribe (20 de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://www.tgwashington.org/files/bailarina_cigana.jpg&gt;. Acesso em: 20 out. 2015.

O buraco

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Eles são cheios de grana, de carros, de empregados. Eles não são daqui.

Muito “na deles”, não se misturam. Mal cumprimentam.

Seu cachorro vem defecar no meu jardim. Eu fico louca da vida, mas tenho medo de reclamar, tenho desconfianças e receio dessa gente.

E as desconfianças só aumentam… agora é a garagem que eles resolveram reformar. Mas é tudo tão estranho, não é possível entender o que estão fazendo ali.

Começou com uma equipe de trabalhadores que chegou com uma enorme britadeira e ficou por três dias arrebentando todo o chão. Não fosse o barulho irritante e pelo poeirão eu teria espiado mais.

Depois começaram a cavar, cavar, cavar. Colocaram duas caçambas na frente da reforma, não dava para ver direito o que acontecia. Em menos de dois dias as caçambas já estavam cheias.

Vieram retirá-las. Fiquei com medo do caminhão bater em meu carro, estacionado na rua.

Não ousei ir perguntar se queriam que eu tirasse o carro para facilitar.

Gente estranha, não explica o que está acontecendo… E se eu ofereço para tirar o carro e eles acham que estou reclamando? Tenho medo do que possam fazer. Assim, espiei metade do dia pelo vão da persiana do escritório, esperando as caçambas saírem para liberar o campo de visão.

Nossa! Já some um homem dentro do buraco. Para que precisam cavar tanto? Eu acredito que não seja coisa de Deus o que planejam para aquele buraco.

Quando meu marido chegou, de noite, contei-lhe tudo. Ele me disse para deixar de especulação que talvez seja apenas uma adega que eles estão fazendo.

Uma adega? Até parece…

Uma adega na garagem? Não faz o menor sentido.

Eu parei a conversa, logo vi que meu marido não ia ajudar muito. Uma adega? Cada ideia…

Hoje cedo chegaram tijolos, daqueles cinzas que costumam utilizar nos prédios. Meus Deus, para que tijolos?

Eu sei que se eu entender no que vai se transformar aquele buraco irei também compreender de onde vem todo o dinheiro que eles têm. Meu faro diz que as duas coisas estão interligadas. E meu faro nunca falha.

O trabalhador do buraco não me dá muita bola quando eu finjo ir buscar um pano que voou perto da sarjeta, acho que ele está sendo bem pago para ficar de bico fechado. Ele me fuzila com o olhar quando eu insisto em entender o que é aquilo. Eu saio de fininho antes que ele chame os donos da casa.

Inconformada, sento-me diante da televisão esperando a novela começar. O jornal noticia que os sequestros aumentaram muito na região. Minha sobrancelha se curva e, imediatamente, um sorriso se forma em meus lábios. Descobri! Só pode ser isto, aquele buraco na garagem vai se transformar em cárcere para sequestros. Eis a fonte de renda do meu vizinho, eis o sentido para tanto sigilo.

Olho para o lado, meu marido cochila no sofá. Eu ameaço abrir a boca e no mesmo instante a fecho. Ele não merece saber. Deixe estar, só quero ver sua cara quando a polícia tirar de lá um grande empresário depois da minha denúncia. Eu vou encher os pulmões e dizer: bem que eu disse!

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 16 de setembro de 2015. Publicação original no Scribe (1° de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-mpJLrHKC47I/VH-l0jXMp1I/AAAAAAAAAkA/0BlrajnL498/s1600/Buraco%2BNegro%2B002.jpg&gt;. Acesso em: 1° out. 2015.