O lobinho que não sabia de si

tobias

Aos cinco meses Tobias começou a ter mais liberdade de locomoção e tomou consciência do que acontecia a seu redor. Até então, sua mãe que era muito protetora não permitia que ele saísse de dentro da toca.

“É para o seu bem”, ela dizia, mas Tobias não via razão para tanto, já que viviam em um lugar onde nada de extraordinário acontecia. A comida sempre tinha a hora certa para chegar, o banho de língua ocorria exatamente às 17 horas nos dias de inverno e no verão, com o relógio ajustado, às 18 horas lá estava Tobias de barriga para cima tomando lambidas de sua mãe até não sobrar nenhuma sujeirinha.

Depois da refeição era a hora da contação de estórias… sua hora favorita. Tobias gostava da estória que a mãe contava franzindo a testa e fingindo-se de manca. Ele raramente prestava atenção no que a mãe dizia até o momento da interpretação, quando ria solto da atuação.

A mãe, por sua vez, sentia-se muito orgulhosa de fazê-lo rir com sua estória e só vez ou outra ficava cansada de ter que contar a mesma estória de novo e de novo. Tobias parecia nunca enjoar da repetição.

No dia que Tobias finalmente saiu da toca ele deu de cara com uma garotinha loirinha, de cabelos presos nas laterais por elásticos azuis, que lambia alucinadamente um pirulito quase tão grande quanto o seu rosto. Assim que o viu, a garotinha gritou: “Mamãe, mamãe, olha que bebê lobo mais lindo”.

Tobias gostou do elogio, mas desconfiou que a garotinha não enxergava bem por achar que ele era um bebê. Já era quase adolescente e seu bigode estava enorme, será que ela não conseguia notar?

Ele, então, estufou o peito e desfilou ao redor do pequeno lago que ficava diante de sua toca no intuito de se exibir para a garotinha e fazê-la notar o quanto ele já era crescido.

“Não ande tão perto da borda, Tobias, você vai escorregar e cair na água”, ralhou sua mãe.

Tobias revirou os olhos e seguiu da mesma forma, com o peito estufado e o andar elegante.

“Eu não vou falar uma terceira vez, Tobias. Você quer que eu o coloque para dentro agora mesmo?”

Tobias não teve outra escolha a não ser se afastar um pouco da borda, pelo tom da voz de sua mãe ele sabia que ela não estava de brincadeira. Ela sempre ficava irritada quando Tobias revirava os olhos, mas o que ele não conseguia descobrir era como ela sabia que ele os estava revirando se nunca fazia isso de frente para ela.

Foi quando ele resolveu se aproximar um pouco mais da garotinha, para ver se ela percebia que ele não era um bebê, que apareceu um menino grandalhão e desajeitado correndo e se posicionou bem ao lado da pequena. O menino tinha o olhar cruel quando disse para ela “Sabe este lobinho fofinho? Quando crescer ele será o Lobo Mau que vai devorar a Chapeuzinho Vermelho em uma mordida só”.

A menina franziu a boca, parecendo que ia chorar, e o menino saiu correndo novamente, rindo da cara dela. Então ela olhou novamente para Tobias e ele percebeu que ela não o enxergava mais como um bebê lobo lindo, mas sim um Lobo Mau. Apesar de não fazer ideia de quem era este tal Lobo Mau, Tobias percebeu na hora que boa coisa não era.

“Mamãe, mamãe”, chamou novamente a menina e completou fungando o nariz: “Este Lobo Mau vai pegar a Chapeuzinho e eu não quero, mamãe”.

“Quem falou essa bobagem minha filha, é claro que ele não vai pegar a Chapeuzinho, ele jamais vai para a floresta, então não vai nem encontrar com ela, pode ficar tranquila, este lobo vai ficar aqui até morrer bem velhinho”, disse a mãe consolando a garotinha.

A garotinha pareceu se consolar com a explicação que sua mãe ofereceu, mas Tobias ficou chateado ao ouvir a sentença. Então ele ficaria a vida inteira ali?

Foi quando se deu conta que “ali” era tudo o que ele conhecia, se havia outro lugar, como esta tal “floresta”, ele nunca tinha visto. E, afinal, qual era o problema de morrer bem velhinho naquele espaço tão confortável? O que todos buscavam não era a segurança de um lar com boa comida e paz? Fora isso que o senhor Papagaio dissera para ele e sua mãe certa ocasião em uma conversa. E o senhor Papagaio podia até ser um pouco depressivo, mas ele já voara por todo lado e sabia das coisas.

Sem habilidade para digerir tantas informações e reflexões, Tobias ficou horas em silêncio, sentado na beira do lago. Sua mãe, desconfiada de seu comportamento, chamou Tobias para comer, mas ele nem pareceu notar que era chamado. Então ela foi até ele e tocou levemente em sua cabeça. Ele, por sua vez, ao ser tocado, deu um pulo tão alto que ela também se assustou, escorregou e caiu dentro do lago.

“Mamãe, que susto! Desculpe, eu derrubei a senhora no lago…”, disse Tobias com os olhos arregalados.

“Não tem problema, meu filho, mas o que está acontecendo com você? Não me ouviu chamar?”

E, enquanto comiam, Tobias contou todas as suas angústias e descobertas para a mamãe loba, que tratou de explicar algumas coisas para ele:

“Meu querido, o Lobo Mau foi um antepassado de outra espécie, guloso e de má fama, que acabou manchando a imagem da nossa espécie. Mas a estória não foi bem como as pessoas contam…”, e mamãe loba contou toda a estória para Tobias: “e foi assim que acabou, com o Lobo Mau morto e o caçador achando que fez um grande feito, mas, meu filho, o Lobo dito Mau estava apenas seguindo seu extinto, como todos nós, lutando pela sobrevivência. No caso dele, não tinha este banquete que nós temos todo dia, precisava correr atrás do alimento. O problema é que ele foi um pouco guloso, se tivesse comido apenas a vovozinha não ficaria com tanto sono e roncando feito um trovão, não teria chamado a atenção do caçador e, provavelmente, ficaria vivo até ficar velhinho, como aquela mulher disse que acontecerá com você. Ou seja, ficar velhinho, morrer em segurança e com cuidados não é algo tão ruim como ela fez parecer.”

“Mamãe, e a floresta? A senhora conhece a floresta?”, quis saber Tobias.

“Não, meu filho, eu nasci longe da floresta, como você. Ouvi muitas coisas sobre ela, meu pai sempre dizia que era enorme, mas que era muito perigoso viver lá.”

“Você não tem vontade de conhecer, mamãe?”

“A floresta? Não, não, eu gosto daqui. Desde que nasci eu sou muito bem tratada. Minha mãe morreu logo após eu chegar ao mundo, então as pessoas cuidaram de mim, nunca me faltou nada.”

Tobias não sabia o que pensar, a palavra floresta parecia misteriosa e divertida ao mesmo tempo, era o tipo de lugar que ele adoraria brincar. No entanto, Tobias sabia que sua mãe não mentiria para ele, morrer velhinho e bem cuidado parecia um bom plano de vida.

Ficou assim, perdido em seus pensamentos, mais um par de horas. Sequer percebeu que o Sol começou a se esconder por trás das árvores.

Ele até gostaria de conhecer esta tal floresta, parecia uma aventura e tanto. Porém, conhecer a floresta implicaria em abrir mão de coisas que ele não estava disposto a deixar, como a convivência com sua mãe, por exemplo.

Então ele notou que não poderia ter tudo em sua vida e que começava a ter que fazer escolhas. Sentiu-se um lobo adulto e até estufou o peito, soltando em seguida uma bufada relaxante. Além disso, para ser bastante honesto, Tobias não fazia a menor ideia de como iria até esta tal floresta ou onde ela ficava.

Passou a noite arrastando folhas com as patas e pensando sobre as tantas coisas que ouviu naquele dia.

Acordou disposto na tarde seguinte, era domingo e ele estava animado para receber as visitas do dia. Agora ele tinha autorização para sair da toca e fazer o tour crepuscular com a mãe.

Esticou as canelas finas e deu uns pulinhos para aquecer a musculatura. Propôs uma corrida até a árvore torta. A disputa valia uma sessão de cafuné depois da refeição. A mãe aceitou e esperou alguns segundos depois da largada para sair e não chegar muito à frente na disputa.

“Ufa, esta foi por pouco, você está ficando veloz, meu filho”, disse a mamãe loba, que terminou a disputa poucos centímetros a frente.

Tobias ficava chateado quando perdia, e ele sempre perdia. Entretanto, sabia que sua mãe não o deixava ganhar só para que ficasse satisfeito. Ela até podia não dar o melhor de si durante a corrida, mas não criava nele a falsa ilusão de que era melhor corredor que ela, quando na verdade não era mesmo. Na ocasião em que ele de fato vir a ser vencedor saberá que foi por mérito próprio e não por agrado de sua mãe.

“Mamãe, eu queria lhe pedir um favor”, disse Tobias ofegante, enquanto retornavam ao ponto de partida da corrida, próximo à entrada da toca: “Eu queria saber mais sobre como eram os lobos e lobas que a senhora conheceu, pois percebi que mesmo não fazendo nada para aumentar a fama de mau, nós também não estamos fazendo nada para acabar com ela”.

“Veja só os macacos”, seguiu falando Tobias: “eles fazem uma algazarra, uma sujeira, roubam comida dos visitantes e ainda fazem xixi nos pés deles e todos ficam encantados em observá-los. Os patos, tão mal-humorados, só querem saber de miolo de pão, não ligam a mínima para quem os joga, ainda assim vivem cercados de pessoas e nunca se ouviu falar de um Pato Mau. O que nós estamos fazendo de errado?”

“Tobias, meu filho, você passou a noite pensando nisso, não foi? Se consumindo com as palavras da mãe da garotinha e com a estória do Lobo Mau que contei…”, a mamãe loba fez um carinho na cabeça do filhote e continuou: “Pois saiba que o seu raciocínio é muito bom, eu não teria pensando melhor. Eu, realmente, não sei o que nós estamos fazendo de errado. Talvez não haja certo ou errado. Nós somos o que somos, não devemos fingir ser o que não somos para agradar nossos visitantes. Você se sentiria bem fazendo macaquices, por exemplo?”

“De jeito nenhum, mamãe”, disse Tobias.

“Então é isso, meu filho, aos olhos atentos e mentes abertas nós seremos interessantes. Acredito que receberemos visitantes interessados em saber quem somos e como vivemos. Talvez eles adorem ver os macacos em ação, ou o nado sincronizado dos patos, mas estou certa que sempre haverá os que ficarão felizes em saber mais um pouco sobre nós, em nos visitar e nos apreciar.”

Tobias ficou pensativo e a mamãe loba deu um tempo para que ele pudesse assimilar o que ela tinha acabado de dizer, então continuou: “O mais importante, meu filho, é você estar satisfeito em ser quem você é. Você está?”

“Sim, estou muito satisfeito”, respondeu Tobias sem pestanejar.

“Ótimo, estamos resolvidos! Que tal uma nova disputa até a árvore?”

E saíram os dois correndo, mãe e filho, felizes por viverem a vida que viviam e por serem quem eram.

 

Imagem disponível aqui. Acesso em: 19 de janeiro de 2017.
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