Reticências

reticencias

— A Júlia Roberts morreu?

— Não, credo. Por que você está falando isso?

— A programação de quase todos os canais de filmes envolve a Júlia Roberts, isso só acontece quando o artista morre.

— Não fala bobagem, Ivan. Deve ser o aniversário dela. Quando é aniversário do artista eles também passam diversos filmes, fazem maratona. Deve ser isso.

E, com expressão de ponto de exclamação estampada em sua face, Ivan disse: — É verdade, também!

Rimos os dois, uma risada de cúmplices. Do outro lado da sala, sobrancelhas arqueadas demonstravam que nem todos achavam graça de nossa conversa.

Era Lydia, uma francesa filha de gregos que Ivan conhecera na Itália durante um curso de especialização em vinhos.

Ivan tinha uma queda por estrangeiras, vivia trazendo-as para casa depois de temporadas fora. Nunca durava mais do que poucas semanas, Ivan era difícil de conviver, desligado e, por vezes, desleixado. O fato de dividir a casa com sua mãe não ajudava muito nos relacionamentos.

Lydia era a única que eu não tolerava, todas as outras (não foram tantas) estavam abertas a conhecer nosso povo, nossa cultura. Já Lydia parecia intocável dentro daquela sua redoma de Chanel Nº 5. E, tal qual o perfume, ela estava se fixando por tempo demais.

Eu, alérgica a perfumes e à Lydia, já deixava de me esforçar para ser simpática. Amiga da família desde sempre, eu estava hospedada na casa de Ivan há algumas semanas e isso, visivelmente, não agravada a francesinha.

Meu apartamento, herança que meus pais deixaram, estava em reforma e, todo mundo sabe como é reforma: tem data para começar, não para terminar. Depois de umas trezentas crises de renite, recebi o convite da dona Tereza, mãe do Ivan, para ficar na casa deles enquanto o Ivan estivesse na Itália. Eu agradeci de coração e me mudei de mala e cuia para o quarto do Ivan, mas aí os dias foram passando e logo o Ivan estava chegando de volta, com a Lydia a tiracolo, e meu apartamento estava longe de estar em condições de ser habitado.

Dona Tereza não me deixou partir, esticou um colchão na biblioteca e me disse: — É aqui mesmo que você vai ficar, você adora ler… olha só! Que melhor lugar do que a biblioteca para você ficar?

Mamãe e dona Tereza eram amigas de infância e, depois que mamãe adoecera, precisou deixar nossa cidade para se tratar na capital. Foi quando deixou Dona Tereza incumbida de me manter sob vigilância. Era época de faculdade e mamãe não queria que eu ficasse “solta por aí”, como costumava dizer.

Foi quando me reaproximei de Ivan. Depois de uma grande amizade na infância, mal nos falávamos na adolescência (é uma fase esquisita para todo mundo…). Então entramos na faculdade e Ivan fez amigos, muitos amigos, animados e festeiros, enquanto eu me enfiei nos livros e nos estudos.

Dona Tereza praticamente o obrigou a me levar para todas as festas que ia naquela época. Para ele dizia: — Pobre menina, só estuda, precisa se distrair, leve-a com você para se divertir. Para mim confidenciava: — Eu preciso que alguém fique de olho neste menino, quem melhor do que você para isso?

Foi um sacrifício apenas nas três primeiras saídas, depois retomamos o ritmo da amizade e não nos desgrudamos mais.

Foi quando Ivan voltou da Itália com Lydia que as coisas começaram a ficar esquisitas. Ela não gostava da minha presença na casa e não fazia questão alguma de esconder. Eu tentava acelerar as coisas na reforma, mas estavam na fase da pintura e o cheiro era insuportável.

— Eu jamais deixaria você partir assim, querida – dizia Dona Tereza –, isso nem entra em discussão.

E assim eu ia ficando…

— Hoje vai ter uma festa ótima na casa do Jorge. O tema é México, então vai ter muita tequila. O que acham, garotas? — Ivan fez o convite, em inglês, para mim e para Lydia.

Lydia respondeu em francês, o que significava que não queria que eu entendesse o que estava dizendo. Precisou repetir três vezes até Ivan compreender o que ela estava dizendo (o francês dele era bem básico) e, pela cara dele, não foi algo muito agradável de se ouvir.
Ivan encerrou o assunto com um “OK” amargo e apenas me direcionou uma piscada e um sorriso amarelo. Bastava para eu saber que a festa não iria acontecer para nós.

Era muito óbvio para todo mundo que Lydia queria ficar sozinha com o Ivan e era mais do que natural esse tipo de coisa. A casa estava ficando apertada para tantas mulheres na vida dele e Lydia queria expandir seu espaço. Por mais de duas vezes eu chamei Dona Tereza para um cinema, um passeio no shopping, com o intuito de deixar Ivan e Lydia a sós, mas ela sempre os incluía no passeio com as desculpas mais esfarrapadas.

Eu estava começando a desconfiar que Dona Tereza não aprovava Lydia na vida de Ivan, mas ela era tão boa na arte da representação que eu não conseguia ter certeza quanto a seus objetivos. Sempre doce e sorridente, era impossível acusá-la de qualquer atitude suspeita.

Foi quando Ivan apareceu com um papel impresso, todo empolgado, mostrando-me um curso “imperdível!” de um ano em Lyon que Dona Tereza se revelou.

— Eu posso fazer meu trabalho de lá, você sabe, só vai agregar. E também posso aprimorar meu francês. Não é legal?

Lydia era de Lyon e eu já estava cansada dos ipsilones que ela trouxe consigo.

— Mas não faz nem três meses que você chegou… – lamentei com Ivan.

— Além do mais, você não precisa do francês para nada além de falar com a Lydia, Ivan – Dona Tereza adentrou na biblioteca reclamando.

— Ouvindo atrás da porta, Dona Tereza, que coisa feia! – comentou rindo Ivan.

— Até parece que eu preciso usar desse estratagema, Ivan. Você não sabe falar baixo… desde pequeno é assim.

— Nossa, estratagema é para gastar o latim, hein, mãe? Não está nada decidido ainda, mas a Lydia achou que seria legal a gente passar um ano com a família dela em Lyon e achou este curso bacana e tal. Estou pensando com carinho.

— Uau, um ano? Está ficando sério entre você e Lydia, não é? – argumentei. Eu sabia que o compromisso o apavorava.

Ivan desconversou e saiu da biblioteca. Não consegui esconder minha decepção, nem de Dona Tereza e nem de mim mesma. Ele estava indo embora, e com Lydia… e por um ano! Nunca liguei quando ele partia, mas agora senti um aperto no peito que não consegui explicar.

Então peguei o olhar de Dona Tereza sobre mim e não tive tempo de dar uma desculpa. Ela se aproximou e cochichou no meu ouvido:

— Faça o que for preciso, minha querida.

Deu uma piscadinha em minha direção e se afastou com um sorriso no rosto. Foi quando eu entendi. Entendi o que ela dizia, o que eu queria e o que, até então, não tinha verbalizado: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Acordei disposta, apesar da agitação na casa do vizinho (e dentro da minha cabeça) na noite anterior que me fizeram rolar no colchão de hora em hora. Eu não tinha muito tempo para tirar da cabeça do Ivan a ideia de ficar um ano fora com a Chanel Nº 5, então comecei a agir imediatamente.

— Ivan, mandei uma mensagem para o Jorge chamando ele e a Ivone para um lanche no parque. O que você acha? Tem algum plano com a Lydia? Está afim de se juntar a nós?

— Que bacana, quero ir sim. Vou falar com a Lydia assim que ela sair do banho e encontramos vocês lá, pode ser?

— Claro. Vá com roupa confortável.

— Combinado.

Lydia adorava atividades ao ar livre e, certamente, iria topar na hora. O que Lydia não gostava era de praticar esportes, nem eu, confesso, mas o Ivan adorava. Como Jorge e Ivone eram o tipo que topa tudo, eu programei um jogo de bets para aquela tarde.

— Vamos lá, Lydia. É o jogo da nossa infância, você precisa aprender, é muito divertido, é assim…

Ivan explicava as regras para Lydia em inglês e ela respondia em francês. Péssimo sinal! Ele sorria sem graça e jogava alguns pontos conosco, então tentava convencê-la a participar e ela, novamente, respondia em francês. Até a hora que ele desistiu e, mesmo sem querer, passou a se divertir imensamente conosco enquanto ela ficava cada segundo mais carrancuda.

Foi apenas a chuva que nos fez parar o jogo, e talvez um pouco nossa lombar que começava a reclamar. Então recolhemos nossa pequena bagunça de comes e bebes e voltamos para casa, todos com um sorriso no rosto, exceto Lydia, é claro.

Chegamos em casa e ela logo se trancou no quarto.

— Desculpa por isso, o programa não agradou a Lydia – disse a Ivan.

— Não se preocupe, ultimamente quase nada a agrada mesmo.

Estávamos só os dois na sala, Dona Tereza estava na casa dos vizinhos jogando buraco, então eu não resisti e me aproximei dele como se fosse confessar algo e, impulsivamente, o beijei.

Foi um beijo curto, intenso e muito molhado. O beijo que eu sempre quis dar em alguém de surpresa, mas Ivan não parecia surpreendido.

Eu me afastei e sem nenhum pudor, disse sorrindo:

— Desculpa por isso também.

Então ele veio para cima de mim e a surpreendida fui eu. Dei um passo para trás e me vi entre ele e o batente da porta. Ele me beijou mais longa e intensamente ainda e, ao se afastar disse:

— Eu não vou me desculpar por isso.

Com um sorriso encantador ele saiu em direção ao quarto e eu tive certeza: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Imagem disponível aqui. Acesso em: 6 de novembro de 2016.
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