Castelo de areia

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Eu quase posso sentir a areia úmida sob meu corpo, os grãos grossos enfiando-se embaixo das unhas das minhas mãos enquanto cavava mais e mais fundo o fosso do meu castelo.

A areia molhada que saia do fosso eu deixava escorrer pelos meus dedos no topo do castelo e ele ia ficando encorpado e alto.

Um par de mãos grandes me ajudavam na empreitada. Palavras carinhosas incentivam-me a seguir cavando fundo.

O dia estava quente, mas o sol parecia tímido, escondido atrás das nuvens. Minha pele clara e de criança agradecia. Sempre odiei ficar lambuzada de filtro solar e aquele era um dia que não pedia muita proteção.

No entanto, a proteção estava ali, não em forma de filtro solar, mas sim por meio do olhar atento e gentil, que só aqueles que amam conseguem dar.

As horas iam passando sem serem notadas. Então o mar foi aos poucos invadindo nosso espaço e começava a ameaçar minha fortaleza.

Eu temia pela minha construção, mas meu ajudante não parecia se abalar com a ameaça.

De repente, uma onda mais intensa veio, invadiu o fosso e desmoronou o castelo.

O sorriso maroto do avô querido surgiu e de seus lábios saíram as palavras de incentivo: vamos começar de novo?

E ali, na sugestiva Praia dos Sonhos, eu aprendi que nossos castelos podem desmoronar, mas com o apoio daqueles que amamos, sempre podemos recomeçar a construí-los.

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Reticências

reticencias

— A Júlia Roberts morreu?

— Não, credo. Por que você está falando isso?

— A programação de quase todos os canais de filmes envolve a Júlia Roberts, isso só acontece quando o artista morre.

— Não fala bobagem, Ivan. Deve ser o aniversário dela. Quando é aniversário do artista eles também passam diversos filmes, fazem maratona. Deve ser isso.

E, com expressão de ponto de exclamação estampada em sua face, Ivan disse: — É verdade, também!

Rimos os dois, uma risada de cúmplices. Do outro lado da sala, sobrancelhas arqueadas demonstravam que nem todos achavam graça de nossa conversa.

Era Lydia, uma francesa filha de gregos que Ivan conhecera na Itália durante um curso de especialização em vinhos.

Ivan tinha uma queda por estrangeiras, vivia trazendo-as para casa depois de temporadas fora. Nunca durava mais do que poucas semanas, Ivan era difícil de conviver, desligado e, por vezes, desleixado. O fato de dividir a casa com sua mãe não ajudava muito nos relacionamentos.

Lydia era a única que eu não tolerava, todas as outras (não foram tantas) estavam abertas a conhecer nosso povo, nossa cultura. Já Lydia parecia intocável dentro daquela sua redoma de Chanel Nº 5. E, tal qual o perfume, ela estava se fixando por tempo demais.

Eu, alérgica a perfumes e à Lydia, já deixava de me esforçar para ser simpática. Amiga da família desde sempre, eu estava hospedada na casa de Ivan há algumas semanas e isso, visivelmente, não agravada a francesinha.

Meu apartamento, herança que meus pais deixaram, estava em reforma e, todo mundo sabe como é reforma: tem data para começar, não para terminar. Depois de umas trezentas crises de renite, recebi o convite da dona Tereza, mãe do Ivan, para ficar na casa deles enquanto o Ivan estivesse na Itália. Eu agradeci de coração e me mudei de mala e cuia para o quarto do Ivan, mas aí os dias foram passando e logo o Ivan estava chegando de volta, com a Lydia a tiracolo, e meu apartamento estava longe de estar em condições de ser habitado.

Dona Tereza não me deixou partir, esticou um colchão na biblioteca e me disse: — É aqui mesmo que você vai ficar, você adora ler… olha só! Que melhor lugar do que a biblioteca para você ficar?

Mamãe e dona Tereza eram amigas de infância e, depois que mamãe adoecera, precisou deixar nossa cidade para se tratar na capital. Foi quando deixou Dona Tereza incumbida de me manter sob vigilância. Era época de faculdade e mamãe não queria que eu ficasse “solta por aí”, como costumava dizer.

Foi quando me reaproximei de Ivan. Depois de uma grande amizade na infância, mal nos falávamos na adolescência (é uma fase esquisita para todo mundo…). Então entramos na faculdade e Ivan fez amigos, muitos amigos, animados e festeiros, enquanto eu me enfiei nos livros e nos estudos.

Dona Tereza praticamente o obrigou a me levar para todas as festas que ia naquela época. Para ele dizia: — Pobre menina, só estuda, precisa se distrair, leve-a com você para se divertir. Para mim confidenciava: — Eu preciso que alguém fique de olho neste menino, quem melhor do que você para isso?

Foi um sacrifício apenas nas três primeiras saídas, depois retomamos o ritmo da amizade e não nos desgrudamos mais.

Foi quando Ivan voltou da Itália com Lydia que as coisas começaram a ficar esquisitas. Ela não gostava da minha presença na casa e não fazia questão alguma de esconder. Eu tentava acelerar as coisas na reforma, mas estavam na fase da pintura e o cheiro era insuportável.

— Eu jamais deixaria você partir assim, querida – dizia Dona Tereza –, isso nem entra em discussão.

E assim eu ia ficando…

— Hoje vai ter uma festa ótima na casa do Jorge. O tema é México, então vai ter muita tequila. O que acham, garotas? — Ivan fez o convite, em inglês, para mim e para Lydia.

Lydia respondeu em francês, o que significava que não queria que eu entendesse o que estava dizendo. Precisou repetir três vezes até Ivan compreender o que ela estava dizendo (o francês dele era bem básico) e, pela cara dele, não foi algo muito agradável de se ouvir.
Ivan encerrou o assunto com um “OK” amargo e apenas me direcionou uma piscada e um sorriso amarelo. Bastava para eu saber que a festa não iria acontecer para nós.

Era muito óbvio para todo mundo que Lydia queria ficar sozinha com o Ivan e era mais do que natural esse tipo de coisa. A casa estava ficando apertada para tantas mulheres na vida dele e Lydia queria expandir seu espaço. Por mais de duas vezes eu chamei Dona Tereza para um cinema, um passeio no shopping, com o intuito de deixar Ivan e Lydia a sós, mas ela sempre os incluía no passeio com as desculpas mais esfarrapadas.

Eu estava começando a desconfiar que Dona Tereza não aprovava Lydia na vida de Ivan, mas ela era tão boa na arte da representação que eu não conseguia ter certeza quanto a seus objetivos. Sempre doce e sorridente, era impossível acusá-la de qualquer atitude suspeita.

Foi quando Ivan apareceu com um papel impresso, todo empolgado, mostrando-me um curso “imperdível!” de um ano em Lyon que Dona Tereza se revelou.

— Eu posso fazer meu trabalho de lá, você sabe, só vai agregar. E também posso aprimorar meu francês. Não é legal?

Lydia era de Lyon e eu já estava cansada dos ipsilones que ela trouxe consigo.

— Mas não faz nem três meses que você chegou… – lamentei com Ivan.

— Além do mais, você não precisa do francês para nada além de falar com a Lydia, Ivan – Dona Tereza adentrou na biblioteca reclamando.

— Ouvindo atrás da porta, Dona Tereza, que coisa feia! – comentou rindo Ivan.

— Até parece que eu preciso usar desse estratagema, Ivan. Você não sabe falar baixo… desde pequeno é assim.

— Nossa, estratagema é para gastar o latim, hein, mãe? Não está nada decidido ainda, mas a Lydia achou que seria legal a gente passar um ano com a família dela em Lyon e achou este curso bacana e tal. Estou pensando com carinho.

— Uau, um ano? Está ficando sério entre você e Lydia, não é? – argumentei. Eu sabia que o compromisso o apavorava.

Ivan desconversou e saiu da biblioteca. Não consegui esconder minha decepção, nem de Dona Tereza e nem de mim mesma. Ele estava indo embora, e com Lydia… e por um ano! Nunca liguei quando ele partia, mas agora senti um aperto no peito que não consegui explicar.

Então peguei o olhar de Dona Tereza sobre mim e não tive tempo de dar uma desculpa. Ela se aproximou e cochichou no meu ouvido:

— Faça o que for preciso, minha querida.

Deu uma piscadinha em minha direção e se afastou com um sorriso no rosto. Foi quando eu entendi. Entendi o que ela dizia, o que eu queria e o que, até então, não tinha verbalizado: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Acordei disposta, apesar da agitação na casa do vizinho (e dentro da minha cabeça) na noite anterior que me fizeram rolar no colchão de hora em hora. Eu não tinha muito tempo para tirar da cabeça do Ivan a ideia de ficar um ano fora com a Chanel Nº 5, então comecei a agir imediatamente.

— Ivan, mandei uma mensagem para o Jorge chamando ele e a Ivone para um lanche no parque. O que você acha? Tem algum plano com a Lydia? Está afim de se juntar a nós?

— Que bacana, quero ir sim. Vou falar com a Lydia assim que ela sair do banho e encontramos vocês lá, pode ser?

— Claro. Vá com roupa confortável.

— Combinado.

Lydia adorava atividades ao ar livre e, certamente, iria topar na hora. O que Lydia não gostava era de praticar esportes, nem eu, confesso, mas o Ivan adorava. Como Jorge e Ivone eram o tipo que topa tudo, eu programei um jogo de bets para aquela tarde.

— Vamos lá, Lydia. É o jogo da nossa infância, você precisa aprender, é muito divertido, é assim…

Ivan explicava as regras para Lydia em inglês e ela respondia em francês. Péssimo sinal! Ele sorria sem graça e jogava alguns pontos conosco, então tentava convencê-la a participar e ela, novamente, respondia em francês. Até a hora que ele desistiu e, mesmo sem querer, passou a se divertir imensamente conosco enquanto ela ficava cada segundo mais carrancuda.

Foi apenas a chuva que nos fez parar o jogo, e talvez um pouco nossa lombar que começava a reclamar. Então recolhemos nossa pequena bagunça de comes e bebes e voltamos para casa, todos com um sorriso no rosto, exceto Lydia, é claro.

Chegamos em casa e ela logo se trancou no quarto.

— Desculpa por isso, o programa não agradou a Lydia – disse a Ivan.

— Não se preocupe, ultimamente quase nada a agrada mesmo.

Estávamos só os dois na sala, Dona Tereza estava na casa dos vizinhos jogando buraco, então eu não resisti e me aproximei dele como se fosse confessar algo e, impulsivamente, o beijei.

Foi um beijo curto, intenso e muito molhado. O beijo que eu sempre quis dar em alguém de surpresa, mas Ivan não parecia surpreendido.

Eu me afastei e sem nenhum pudor, disse sorrindo:

— Desculpa por isso também.

Então ele veio para cima de mim e a surpreendida fui eu. Dei um passo para trás e me vi entre ele e o batente da porta. Ele me beijou mais longa e intensamente ainda e, ao se afastar disse:

— Eu não vou me desculpar por isso.

Com um sorriso encantador ele saiu em direção ao quarto e eu tive certeza: Lydia ia voltar para a França sozinha…

Imagem disponível aqui. Acesso em: 6 de novembro de 2016.

Teu nome

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José é meu nome. De Zé me chamavam em raros dias de muito bom humor.

Sou um cachorro que foi miseravelmente desamparado por minha família.

Meu humano me deixou assim, sem mais nem menos. Abriu a porta do carro, colocou-me para fora e partiu em alta velocidade. Mudou-se e eu fiquei para trás.

Razões e justificativas ele tem muitas, mas o fato é que nada justifica tamanho crime.

Eu conhecia o cheiro de todas as ruas, pois não deixava pedra por cheirar nos passeios que fizemos juntos. Ainda assim, de nada adiantou eu retornar a uma casa que agora estava vazia.

Quando a fome apertou eu simplesmente lati, na tola esperança de ter sobrado alguém na casa para me dar comida. Não tinha.

Tomei pito de um vizinho, um jato de água de mangueira de outro e nem assim me calei, porque a fome gritava em mim. Então eu raspei a porta de dona Zuleika. Ela tinha um olhar piedoso e sempre me dava carinho quando passava pelo portão. Foi dona Zuleika foi quem acalmou meu estômago naquele dia.

Ela até tentou me alimentar mais vezes, mas o marido dela é muito bravo e deu-lhe uma coça. Eu tive pena dela e, por gratidão, fui sofrer meu desarrimo em outro lugar.

Tem sido assim desde então, um dia ganho comida, outro roubo, um ou outro fico ouvindo o ronco do vazio dentro de mim e com saudade dos tempos de fartura durmo embaixo do carro do seu Eliseu, um senhor muito simpático que me abre o portão toda noite.

Embaixo do opala velho do seu Eliseu tem um tapetinho que me aquece. Não fosse a nossa uma cidade quente eu já teria virado picolé nas ruas. O tapetinho embaixo do carro é bom, mas fico manchado de óleo e com um visual tão imundo que fica mais complicado ainda conseguir comida.

O mundo é cruel, o mundo é dos belos.

O meu humano me achava bonito apesar de tudo, ele me disse uma vez: “você é tão feio que até é bonito”. Eu fiquei feliz com o elogio e rosnei e mordisquei o braço dele em agradecimento. Ele me jogou o livro que estava lendo e riu. Era a forma que ela tinha de dizer que me amava.

Ao menos eu pensei que ele me amava, até o dia que me deixou para trás.

Eu juro, se ele aparecesse aqui, se voltasse para me buscar, eu o perdoaria. Eu pularia em seu colo e lamberia sua face. Vamos, apareça! Volte!

Será que ele sente remorso?

Não pude notar se os seus olhos continham lágrimas quando me colocou no carro, pois a claridade batia nas lentes dos seus óculos. Só percebi que o momento era crítico porque as crianças choravam. Não fosse isso eu pensaria estar partindo para um passeio.

Eu não consigo esquecer seu rosto de senhor de meia-idade encarando pelo retrovisor enquanto me deixava para trás. Nem uma palavra ele disse, um adeus ou um foda-se.

Muitas vezes o ouvi me dizer: “Eu o chamo José. Como é que tu me chamas?”

Eu o chamava Amor, agora o chamo Abandono.

 

Imagem disponível em: <http://revistameupet.com.br/upload/imagens_upload/pet_rua.jpg&gt;. Acesso em: 29 de junho de 2016.
Inspirado no conto O crime do professor de matemática de Clarice Lispector.

A arte de observar

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Não me leve a mal, não sou do tipo que conversa muito, eu gosto de observar. Meus amigos já sabem disso, e não se importam. No fundo, são todos exibicionistas e adoram me ter como plateia para seu showzinho medíocre e artificial.

Eu rio, mesmo nas piores piadas, porque é o que se espera de mim. Rio deles e não com eles. É por isso que rio tanto e tão espontaneamente, porque me dá pena ver o quanto o ser humano precisa de atenção e o quanto ele acha que está sendo agradável, quando, na verdade, não passa de um enorme pé no saco.

Quando não me chamam para sair eu saio sozinho. Eu gosto de ficar sozinho, desde que haja pessoas para observar. Então, nessas ocasiões, eu vou ao shopping. Não há melhor do que o shopping para exercitar a arte de observar.

Eu já tentei bares e baladas, mas a iluminação mais fraca não permite analisar as expressões dos observados e eles nunca estão em seu estado natural, normalmente entorpecidos por álcool ou drogas, não são bons casos para amostragem.

Os casos mais interessantes eu registro em um caderno velho de espiral com capa azul.

Nada de Moleskine… não tenho dinheiro e nem paciência para Moleskine.

Meus amigos metidos a escritores têm cada um seu Moleskine e, na primeira oportunidade, sacam seu caderninho (no fundo, um Moleskine não é nada além disso) para exibi-lo na roda. É só o primeiro agir dessa forma que se inicia o desfile dos Moleskines.

Um atrás do outro vai sendo aberto e começam a escrever ou ler alguma anotação que, certamente, poderia ter ficado para depois.

Mas, voltando ao meu caderno velho de espiral com capa azul, eu gosto mesmo é de chegar em casa, depois de uma tarde no shopping, fazer um café bem ralo (eu adoro café aguado e doce, bem doce!) e anotar minhas impressões sobre os casos mais interessantes que observei. Passo horas sentado, bebericando café e anotando.

Eu não escrevo muito, meu poder de síntese é muito grande, dedico mais tempo relembrando do que escrevendo. Esse processo me permite memorizar todos os casos interessantes. Eu nunca esqueço um rosto, uma situação que observei e anotei no caderno.

Posso oferecer de memória detalhes sobre cada um dos casos anotados, traços físicos da pessoa e dos acompanhantes, roupa que usava, como se comportava, o que dizia. Mas, como você nunca viu nenhum deles vai ter que assumir como verdadeira qualquer baboseira que eu disser.

Mas eu não falo baboseira, tenha certeza. Na verdade, eu mal falo. Quando abro a boca é para pontuar alguma coisa importante ou estabelecer algum limite. Frequentemente, aliás, eu tenho que estabelecer limites, principalmente com meus pais.

Não moro com meus pais há mais de vinte anos, mas eles ainda insistem em achar que podem entrar na minha casa e agir como se estivessem na deles. Minha mãe é a pior, ela já entra recolhendo roupa suja. Como isso me irrita!

Outro dia inventaram de ir jantar comigo, mas esqueceram de me avisar. De repente, chegam os dois com sacolas de compras nas mãos e um sorriso amarelo na cara. “Oi, viemos jantar com você”. Porra, eu quero ficar sozinho, não quero jantarzinho com papai e mamãe. Se assim fosse eu não teria saído de casa e economizava uma puta grana com aluguel.

Enfim, pais são foda, não é novidade. A novidade em certa feita foi que meu pai resolveu dar uma lidinha no meu caderno velho de espiral com capa azul enquanto eu estava no banheiro. Ele entendeu tudo errado e ficou muito preocupado com a minha esquizofrenia. Foi assim que ele chamou meu gosto especial por observar pessoas.

Ainda assim, a reação dele foi melhor do que a do terapeuta que visitei recentemente, que me disse com aquela cara azeda, procurando ser natural: “o nome disso é voyeur”. Voyeur o caralho! Eu não preciso ficar vendo ninguém fazer putaria para gozar. Cara idiota, nunca mais voltei nele.

Eu gosto de observar, só isso. Aprendo muito sobre comportamento fazendo isso, pode até ser meio esquisito, mas, das esquisitices do mundo, tenho certeza que não é a pior.
Aliás, meu irmão é muito mais esquisito que eu. É com ele que meu pai deveria se preocupar. O cara gosta de acumular coisas. Ele gasta uma pequena fortuna com canetas. Tem uma coleção de canetas de marcas que eu sequer sei pronunciar o nome. Caras, todas elas.

Pra mim isso é coisa de viado. Ficar fazendo coleçõezinhas? Ah, vai dar a bunda que é mais barato…

Meu irmão é casado e isso dá a ele o álibi perfeito para meu pai deixá-lo em paz. Mas eu sei, porque observo, que ele não gosta de estar casado, a menos, não com a Sara, sua esposa.

A maioria dos amigos que tenho, os do clube de poker e os do clube do uísque, exceto os dos Moleskine, são amigos do meu irmão. Eu os conheci por meio dele, que me introduziu nessas rodas para me tirar da minha esquizofrenia, a pedido de papai amado. E no clube de poker tem um cidadão meio suspeito que sai com mulheres lindíssimas, mas nunca se casa com nenhuma delas. Eu notei que ele aproveita o jogo para trocar olhares significativos com meu irmão.

Aliás, sobre esta coisa de observar, se você reparar bem vai perceber que cara muito machão é viado. Talvez nem ele saiba, mas é. Aquela necessidade de ficar autoafirmando a masculinidade é descaradamente insegurança quanto a ela.

Eu não tenho nada contra viado. De boa meu irmão ser um, só acho hipocrisia ele ficar casado com a Sara fingindo o parzinho perfeito. Eu sei que ela dá os pulos dela, porque observo, e acho que eles podiam assumir que entre eles não rola e cada um comer quem quiser. Meus pais acham os dois “um casal lindo” e esperam ansiosos pelo primeiro netinho. Os coroas não sacaram ainda o que rola ali. Se vier netinho não vai ser do meu irmão, isso tenho certeza.

Eu nunca cometi a indelicadeza de fazer anotações sobre o meu irmão, seus amigos ou sua esposa. Sou só um pobretão e foi apenas por caridade do casalzinho lindo que fui inserido no meio de tanta gente esnobe. Na real? Não me acrescenta porra nenhuma, mas dá material bom para minhas crônicas.

Escrevo crônicas para um jornal local. São semanais, pagam uma merreca, mas é melhor que nada. Também lavo pratos em um restaurante aqui do lado de casa nos finais de semana, isso sim dá uma boa grana. Até aí nenhuma grande novidade, qualquer merda de emprego paga melhor do que escrever.

O restaurante é chique, só gente de muita grana o frequenta. No final de semana fica uma fila enorme na porta, e quanto maior a fila mais gente quer parar e esperar. Só rindo!

Eu não reclamo, para mim quanto mais gente melhor. Eu recebo por hora, então quanto mais gente jantar, mais horas de trabalho.

No final da noite eu janto uma comida da boa e não preciso conversar com ninguém enquanto trabalho. É minha terapia. Muito melhor, a propósito, do que a que eu paguei para aquele idiota me chamar de voyeur.

O dono do restaurante gosta tanto do meu trabalho que quer demitir o lavador antigo e me contratar diariamente, mas eu estou resistente, não quero trabalhar todas as noites mais o final de semana.

O mandachuva do restaurante só escolhe para trabalhar com ele quem tem pós-graduação.

Na boa? Eu acho um absurdo o cara querer um cara assim para lavar pratos, mas não vou reclamar porque foi assim que eu consegui o emprego sem nunca ter lavado uma porra de uma colher na vida: com um doutorado em Literatura no currículo.

Ele nem quis saber porque eu estava querendo lavar pratos, só olhou o título de doutor e perguntou quanto eu queria ganhar por hora. Para ele, o importante é ter alguém que não quebre os pratos chiques e os copos finos feito uma casca de ovo e que possa sustentar uma conversa interessante no final do dia, durante o jantar coletivo.

O outro cara, o que lava os pratos nos outros dias da semana, tem MBA em Economia.

Perdeu o emprego numa crise feia que teve no país, ficou um tempão sem achar nada e depois ficou velho demais para retornar ao mercado. Ele não é tão bom quanto eu, já quebrou três copos, cinco pratos e arranhou duas tigelas de inox de sobremesa. Mas é bom de papo!

Eu nunca quebrei nada, mas quase perdi o emprego quando meu chefe sacou que eu não era muito de conversar. Por que ter um funcionário com doutorado que custa uma fortuna por hora para a função que desempenha se ele não fala porra nenhuma no jantar coletivo?Pois é, porquê?

Não sei o que me manteve no emprego, mas já estou lá há quatro anos. Devo lavar prato bem pra caralho!

Eu lavo prato melhor do que escrevo, disso tenho certeza, porque meu chefe do jornal me comia o rabo todo mês. Aderi ao envio on-line justamente para fugir disso. Era eu levar o original que ele já me chamava para conversar (leia-se, comer meu toco). Agora, como envio por e-mail, ele nem se dá ao trabalho de ficar falando merda. Por pura preguiça de escrever, isso é certo.

É uma pena, porque tinha uma gostosa muito da boa naquela redação e era minha alegria semanal dar uma xavecada nela. Por e-mail também não tem a menor graça xavecar alguém.

Eu sei que pareço minha avó quando digo isto, mas antigamente era muito melhor!

Não ligo a mínima de lavar prato a vida inteira se isso possibilitar que eu passe minhas tardes no shopping tomando milk shake e observando as pessoas. E quero que se fodam aqueles que dizem que eu sou um quarentão que age feito um adolescente. Eu parei na melhor época da minha vida mesmo e quero que todo mundo vá à merda. Que cada um cuide da porcaria da sua vida e me deixe em paz.

Eu pago as minhas contas no vencimento na maioria das vezes e não devo satisfações a ninguém. Quando eu escrever uma porra de um livro best seller todo mundo vai me achar o mais foda dos caras e vai perdoar a minha imbecil vida de adolescente aos quarenta. Mais até, acharão lindo ser como eu!

Para eles, vou escrever uma dedicatória assim no dia do lançamento: “Morra de inveja, seu cretino de merda. Abraços fraternos do autor quarentão adolescente e feliz”.

Eu já comecei a escrever meu best seller. Ele tem trinta e duas páginas de Word, com corpo doze, por enquanto, mas vai ter bem mais. Vai falar, obviamente, do que observo por aí.

Serão cinco casos que eu observei mais atentamente. O primeiro e único que já escrevi é especial. Por causa dele fui parar na cadeia. Vou aproveitar que estou fazendo minha pausa e vou dar uma resumida para você.

Eu tinha acabado de sair de uma cafeteria, franquia de uma marca estrangeira, quando avistei duas adolescentes de cochichos. Duas cocotinhas de riso frouxo, sainha curtinha e com malícia no olhar. Logo saquei que elas iam aprontar e comecei a segui-las de longe.

Primeiro elas entraram no banheiro e eu, obviamente, precisei esperar do lado de fora. Alguns minutos depois elas saíram com um batonzão vermelho na boca. Dirigiram-se para o quiosque de sorvetes e compraram uma casquinha para cada. Uma delas tirou com cuidado os trocados da bolsa rosa choque, pagou pelo sorvete e saíram se lambuzando com a casquinha (e deixando a molecada ao redor com o maior tesão).

Poucos metros adiante sentaram com um garoto no banco do corredor. Ele, meio tímido, claramente intimidado por ser a minoria entre os sexos do trio.

Conversaram durante alguns minutos, enquanto as meninas terminaram o sorvete e rumaram, os três, em direção a uma das saídas do shopping.

Eu já ia desistindo do trio quando vi a garota pegar o garoto por trás de um jeito um tanto insinuante. Fiquei chocado com a ousadia dela, mas fiquei instigado a continuar observando.

Lá fora, eles disfarçaram e entraram em um dos corredores de acessos de cargas, com uma atitude de quem sabe muito bem aonde estava indo. Foram até metade do corredor e eu tentei me posicionar a uma distância segura para observar sem ser visto pelo trio ou pelos passantes comuns do shopping.

Sem muita enrolação uma das garotas encostou o garoto na parede e começou a se esfregar nele, dando uns belos amassos com direito à mão mais do que boba pra lá e pra cá. A outra sequer se mostrou constrangida, pegou o celular e começou a filmar o pornô teen.

Poucos segundos depois (sim, segundos!, o amasso mais rápido do século) a menina desatracou do garoto que, com cara de desnorteado, não sabia que direção tomar.

Começaram a vir em minha direção, que era também a saída do corredor: as meninas olhando o vídeo gravado no celular e dando risinhos histéricos e o garoto com a boca completamente borrada de batom vermelho, cara de quem foi usado e gostou, o volume aumentado na calça jeans.

Mais que depressa sai do meu “esconderijo” com a certeza de que não tinha sido visto e me misturei com os caminhantes em direção à porta do shopping, mas parei perto da entrada para aguardar o trio. Mas o trio já voltara a ser dupla, o rapaz seguiu para o ponto de ônibus e as garotas vinham na direção da porta. Continue seguindo-as.

Elas entraram em uma loja de departamentos, pegaram diversas roupas para provar e quando saíram do provador, disfarçadamente, esconderam duas blusinhas e um shorts jeans na bolsa rosa choque que acomodaria muito mais peças facilmente. Mantiveram uma das peças na mão e foram para perto da saída. Fingiram olhar outras peças perto da porta e quando o alarme disparou e o segurança veio na direção delas, elas conversaram baixo algo com ele olhando para minha direção, entregaram o cabide com a peça que, teoricamente, disparou o alarme e saíram da loja.

Nisso o segurança veio na minha direção e pediu para eu acompanhá-lo até a sala de reunião e eu falei que não ia porra nenhuma. Ele então me arrastou até lá. Foi falando que era uma vergonha um tiozão feito eu ficar perseguindo adolescentes no shopping e eu disse que não tinha feito nada, que elas é que estavam roubando na loja e que fizeram ele de trouxa porque na bolsa tinham outras três peças.

Quando eu chamei o cara de trouxa ele ficou transtornado, chamou pelo rádio um monte de outros filhos-da-puta da segurança feito ele que acham que tem alguma porra de poder e os cretinos ficaram me enchendo o saco e me chamando de pedófilo. Eu mandava eles chamarem as garotas de volta que eles iam ver que elas aprontaram para nós. E foi aí que um dos cretinos filho-da-puta se aproximou e eu perdi a razão e dei um belo de um soco naquela cara gorda.

Foi assim que aquelas putinhas se deram bem levando para casa duas blusinhas e um shorts jeans roubado e eu fui parar na delegacia por perseguir menores e por socar o segurança do shopping.

Mas a estória não está com detalhes picantes sobre a ceninha do corredor e se você quiser saber mais vai ter que comprar meu livro, é claro. Acha que eu sou idiota de entregar tudo de mão beijada?

Toc, toc, toc.

— Que é, porra?

— Você demora aí?

Você aí, outra hora eu escrevo mais, o viado do garçom também quer cagar e esta porra deste restaurante só tem um banheiro para os funcionários.

Texto escrito para atividade de final de curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 30 de novembro de 2015.
Imagem disponível em: <https://clubeliterariodoporto.files.wordpress.com/2012/11/tumblr_mduofd1aov1r7l28fo7_500.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

Esta menininha que mora em mim

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Era uma vez uma menina loirinha que adorava animais.

Seus animais favoritos eram, nesta ordem: cães, macacos, golfinhos e cavalos.

Ela amava cães. Eles já eram parte de sua vida desde pequena e se acostumara a sua agradável presença. Com os outros três favoritos era diferente, eles pareciam seres distantes de sua convivência e representavam mais do que apenas animais de estimação.

Chorava muito assistindo Lassie, uma cadela collie que fazia parte de um seriado. Lassie sempre sofria muito nos episódios… era muito sabida e carinhosa.

Todos os cães que ela teve em sua vida a ensinaram coisas boas e foram importantes. Ela se recorda carinhosamente de cada um deles e suas melhores lembranças da infância estão relacionadas a eles.

Para a menina os cães simbolizam o amor.

Em seu quarto havia um quadro/pôster enorme com um macaco chimpanzé. Ela adorava esse quadro, o macaco era lindo e divertido, com sua roupa de tenista e a raquete na mão.

Espalhados, ela também tinha algumas pelúcias dos símios. Um deles até fazia um som engraçado quando sua barriga era apertada. Seu nome era Murphy. Ele usava uma camisa da seleção brasileira e pendurada a ela estava uma redinha com uma bola de futebol dentro. Pura fofura!

Ela teve o prazer de ter e conviver com os pequenos macaquinhos saguis que seu pai adquiriu, aprendeu muito sobre eles para poder cuidar melhor deles e tem muito boas recordações de todos com os quais conviveu de pertinho. Ela ajuda há muitos anos um projeto que preserva e cuida desses mesmos macaquinhos.

Para a menina os macacos simbolizam a alegria.

Os golfinhos ela tinha fascínio de conhecer, de nadar com eles. Colecionava imagens no computador e os colocava de fundo de tela. Durante um tempo eles foram sua obsessão. Flipper era seu golfinho favorito e ela adorava vê-lo pela tv.

Apenas depois de grande a menina pode ver golfinhos nadando perto do barco que ela passeava. Foi um momento mágico.

Ela ainda tem o sonho de nadar com um deles…

Para a menina os golfinhos simbolizam a liberdade.

Os cavalos, por fim, eram animais fascinantes, que ela via de perto sempre que podia. Até já tinha passeado em alguns deles por algumas vezes.

Seu filme favorito sobre cavalos, que a fazia sonhar em ter um deles, era O Corcel Negro.

Aquele cavalo negro quando empinava enchia o peito dela de uma sensação que nunca soube explicar. Até hoje quando ela vê os cavalos empinarem daquela forma sente-se da mesma maneira. Ainda não conseguiu encontrar palavra que descreva a sensação.

Uma de suas grandes e boas lembranças foi quando seu pai a levou para conhecer a égua que ele havia comprado: a Rainha. Ela veio para a família e a menina, já uma mocinha, pôde realizar o sonho de cuidar, andar e amar um cavalo que era seu. A sensação era maravilhosa.

Para a menina os cavalos simbolizam a força.

Hoje, adulta, a menina que ainda mora nela sabe que seus animais favoritos retratam o que ela valoriza na vida.

 

Imagem da autora na infância, arquivo pessoal.

Eu escolho o amor

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Escute o que eu estou lhe dizendo, eu não vou ficar repetindo ou correndo atrás de você para dizer mais vezes. Eu estou aqui de peito aberto para pedir desculpas pelo que eu fiz.

Não faça esta cara, eu sei que o magoei, eu sei que destruí o que havia entre nós. Acredite, eu sei. E eu lamento.

Eu não fui leviana, não vou mentir e dizer que foi algo sem significado para mim. Não foi.

Eu não o trairia se não fosse com alguém que realmente houvesse me tirado do meu centro. E acho que você sabe disso, pois me conhece muito bem.

Fiz a escolha de seguir sem esta pessoa em minha vida e doeu. Não fiz esta escolha por você e nem pelo nosso filho que eu carrego em meu ventre. Eu fiz por mim. Eu preciso de paz. Até por isso estou aqui para deixar tudo esclarecido entre nós. Eu sinto muito pelo rumo que tudo tomou.

Olha pra mim. Não é fácil estar aqui dizendo tudo isto.

Não, eu não quero que você diga “eu te perdoo”. Eu quero que você perdoe de verdade e não precisa nem me dizer, se não quiser. Eu não preciso do seu perdão para seguir em frente. Eu não preciso, de verdade. Eu me perdoei e isso era tudo o que eu precisava para viver minha vida daqui para frente. Mas se você me perdoar vai conseguir viver sem tanto ódio e isso vai ser melhor para você. Vai parar de se destruir aos poucos como tem feito. Eu não suporto ver você assim.

Não estou aqui pedindo o perdão para depois pedir que volte para mim. Eu não quero comigo alguém que me culpe por sua infelicidade, que me odeie. Eu escolhi o amor, é isso que eu quero para a minha vida e para a vida de nosso filho.

Não torça os olhos, não ouse. Nosso filho sim. Você é homem suficiente para admitir que estava lá e o fez comigo e não havia ninguém entre nós dois, nem física e nem sentimentalmente. Tudo aconteceu depois, você sabe. Não use meus erros como desculpa para condenar nosso filho. Ele não tem culpa.

Aliás, só fique na vida dele se o amar. Senão pode ir. Eu tenho amor suficiente para dar a ele. E ele o amará, assim como eu o amo.

Eu lamento, mas você não pode fazer nada com relação a isso. Não pode nos impedir de lhe amar. Esta é a nossa escolha, aceite-a e viva como achar melhor.

 

Publicação original no Scribe.
Imagem disponível em: <http://todateen.uol.com.br/tt/wp-content/uploads/2015/08/maos-formando-coracao-mat.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

O tordo

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As labaredas do fogo estalavam a madeira enquanto a consumia. Tudo ao redor fervia.

O ar estava ficando denso de fumaça e respirar se tornava um desafio perigoso.

Uma claridade se projetava pela lateral do imenso salão em chamas. Era uma saída daquele inferno dantesco.

Corro em direção a claridade, tropeço em alguma coisa quente e sinto a sola do meu calçado derreter. A sola do meu pé começa a arder e me apresso em levantar e continuar correndo.

A luz é forte do lado de fora, não consigo ver nada, fecho os olhos e sinto o ar limpo entrar em meus pulmões. Ele me queima por dentro, eu engasgo e tenho um acesso de tosse.

Olho para os lados, vejo embaçado agora, apenas vultos para um lado e para outro da rua.

Todos estão perdidos. Todos estão tentando se salvar.

Percebo que não ouço mais nada, apenas um zumbido contínuo. Lembro de um estrondo alto, acho que foi uma explosão, e mais nada, só zumbido, calor, fumaça e desespero.

Mas agora eu respiro, enxergo embaçado e ouço o zumbido. Estou viva, é o que importa.

De repente eu sinto algo se aproximando vindo do céu em minha direção, é um pássaro negro, ele está em chamas e bate suas asas em minha direção, ele tenta me agarrar.

Caio no chão, estou esgotada, cubro meu rosto com os braços e o pássaro me arranha com suas unhas.

Eu grito. Grito alto. Grito desesperadamente.

Abro os olhos assustada, vejo a luz do dia invadindo o quarto. No beiral de granito da varanda um tucano que nos visita diariamente tenta se equilibrar. A anatomia de suas garras não permite que ele se sustente na pedra lisa.

O meu grito o assusta e ele bate ainda mais as asas negras. Seu bico amarelo e laranja me remetem às chamas que até poucos segundos povoavam minha mente.

Meu marido desperta. Ele vê o tucano já desistindo de pousar em nossa varanda.

— O que está acontecendo? – pergunta-me assustado.

Eu não consigo responder, não porque o sonho foi impressionantemente real e se mesclou com a realidade do despertar de uma maneira surpreendente, mas porque não consigo parar de rir. Nunca mais assisto Jogos Vorazes antes de dormir.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 9 de novembro de 2015. Publicação original no Scribe (18 de novembro de 2015).
Imagem disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-GbKiXwNwqGA/UNu1mwShz0I/
AAAAAAAACzc/GHGPzaXVfCI/s1600/em-chamas-2c2ba-filme-de-jogos-vorazes-jc3a1-tem-data-de-lanc3a7amento.jpg>. Acesso em: 18 nov. 2015.