O lobinho que não sabia de si

tobias

Aos cinco meses Tobias começou a ter mais liberdade de locomoção e tomou consciência do que acontecia a seu redor. Até então, sua mãe que era muito protetora não permitia que ele saísse de dentro da toca.

“É para o seu bem”, ela dizia, mas Tobias não via razão para tanto, já que viviam em um lugar onde nada de extraordinário acontecia. A comida sempre tinha a hora certa para chegar, o banho de língua ocorria exatamente às 17 horas nos dias de inverno e no verão, com o relógio ajustado, às 18 horas lá estava Tobias de barriga para cima tomando lambidas de sua mãe até não sobrar nenhuma sujeirinha.

Depois da refeição era a hora da contação de estórias… sua hora favorita. Tobias gostava da estória que a mãe contava franzindo a testa e fingindo-se de manca. Ele raramente prestava atenção no que a mãe dizia até o momento da interpretação, quando ria solto da atuação.

A mãe, por sua vez, sentia-se muito orgulhosa de fazê-lo rir com sua estória e só vez ou outra ficava cansada de ter que contar a mesma estória de novo e de novo. Tobias parecia nunca enjoar da repetição.

No dia que Tobias finalmente saiu da toca ele deu de cara com uma garotinha loirinha, de cabelos presos nas laterais por elásticos azuis, que lambia alucinadamente um pirulito quase tão grande quanto o seu rosto. Assim que o viu, a garotinha gritou: “Mamãe, mamãe, olha que bebê lobo mais lindo”.

Tobias gostou do elogio, mas desconfiou que a garotinha não enxergava bem por achar que ele era um bebê. Já era quase adolescente e seu bigode estava enorme, será que ela não conseguia notar?

Ele, então, estufou o peito e desfilou ao redor do pequeno lago que ficava diante de sua toca no intuito de se exibir para a garotinha e fazê-la notar o quanto ele já era crescido.

“Não ande tão perto da borda, Tobias, você vai escorregar e cair na água”, ralhou sua mãe.

Tobias revirou os olhos e seguiu da mesma forma, com o peito estufado e o andar elegante.

“Eu não vou falar uma terceira vez, Tobias. Você quer que eu o coloque para dentro agora mesmo?”

Tobias não teve outra escolha a não ser se afastar um pouco da borda, pelo tom da voz de sua mãe ele sabia que ela não estava de brincadeira. Ela sempre ficava irritada quando Tobias revirava os olhos, mas o que ele não conseguia descobrir era como ela sabia que ele os estava revirando se nunca fazia isso de frente para ela.

Foi quando ele resolveu se aproximar um pouco mais da garotinha, para ver se ela percebia que ele não era um bebê, que apareceu um menino grandalhão e desajeitado correndo e se posicionou bem ao lado da pequena. O menino tinha o olhar cruel quando disse para ela “Sabe este lobinho fofinho? Quando crescer ele será o Lobo Mau que vai devorar a Chapeuzinho Vermelho em uma mordida só”.

A menina franziu a boca, parecendo que ia chorar, e o menino saiu correndo novamente, rindo da cara dela. Então ela olhou novamente para Tobias e ele percebeu que ela não o enxergava mais como um bebê lobo lindo, mas sim um Lobo Mau. Apesar de não fazer ideia de quem era este tal Lobo Mau, Tobias percebeu na hora que boa coisa não era.

“Mamãe, mamãe”, chamou novamente a menina e completou fungando o nariz: “Este Lobo Mau vai pegar a Chapeuzinho e eu não quero, mamãe”.

“Quem falou essa bobagem minha filha, é claro que ele não vai pegar a Chapeuzinho, ele jamais vai para a floresta, então não vai nem encontrar com ela, pode ficar tranquila, este lobo vai ficar aqui até morrer bem velhinho”, disse a mãe consolando a garotinha.

A garotinha pareceu se consolar com a explicação que sua mãe ofereceu, mas Tobias ficou chateado ao ouvir a sentença. Então ele ficaria a vida inteira ali?

Foi quando se deu conta que “ali” era tudo o que ele conhecia, se havia outro lugar, como esta tal “floresta”, ele nunca tinha visto. E, afinal, qual era o problema de morrer bem velhinho naquele espaço tão confortável? O que todos buscavam não era a segurança de um lar com boa comida e paz? Fora isso que o senhor Papagaio dissera para ele e sua mãe certa ocasião em uma conversa. E o senhor Papagaio podia até ser um pouco depressivo, mas ele já voara por todo lado e sabia das coisas.

Sem habilidade para digerir tantas informações e reflexões, Tobias ficou horas em silêncio, sentado na beira do lago. Sua mãe, desconfiada de seu comportamento, chamou Tobias para comer, mas ele nem pareceu notar que era chamado. Então ela foi até ele e tocou levemente em sua cabeça. Ele, por sua vez, ao ser tocado, deu um pulo tão alto que ela também se assustou, escorregou e caiu dentro do lago.

“Mamãe, que susto! Desculpe, eu derrubei a senhora no lago…”, disse Tobias com os olhos arregalados.

“Não tem problema, meu filho, mas o que está acontecendo com você? Não me ouviu chamar?”

E, enquanto comiam, Tobias contou todas as suas angústias e descobertas para a mamãe loba, que tratou de explicar algumas coisas para ele:

“Meu querido, o Lobo Mau foi um antepassado de outra espécie, guloso e de má fama, que acabou manchando a imagem da nossa espécie. Mas a estória não foi bem como as pessoas contam…”, e mamãe loba contou toda a estória para Tobias: “e foi assim que acabou, com o Lobo Mau morto e o caçador achando que fez um grande feito, mas, meu filho, o Lobo dito Mau estava apenas seguindo seu extinto, como todos nós, lutando pela sobrevivência. No caso dele, não tinha este banquete que nós temos todo dia, precisava correr atrás do alimento. O problema é que ele foi um pouco guloso, se tivesse comido apenas a vovozinha não ficaria com tanto sono e roncando feito um trovão, não teria chamado a atenção do caçador e, provavelmente, ficaria vivo até ficar velhinho, como aquela mulher disse que acontecerá com você. Ou seja, ficar velhinho, morrer em segurança e com cuidados não é algo tão ruim como ela fez parecer.”

“Mamãe, e a floresta? A senhora conhece a floresta?”, quis saber Tobias.

“Não, meu filho, eu nasci longe da floresta, como você. Ouvi muitas coisas sobre ela, meu pai sempre dizia que era enorme, mas que era muito perigoso viver lá.”

“Você não tem vontade de conhecer, mamãe?”

“A floresta? Não, não, eu gosto daqui. Desde que nasci eu sou muito bem tratada. Minha mãe morreu logo após eu chegar ao mundo, então as pessoas cuidaram de mim, nunca me faltou nada.”

Tobias não sabia o que pensar, a palavra floresta parecia misteriosa e divertida ao mesmo tempo, era o tipo de lugar que ele adoraria brincar. No entanto, Tobias sabia que sua mãe não mentiria para ele, morrer velhinho e bem cuidado parecia um bom plano de vida.

Ficou assim, perdido em seus pensamentos, mais um par de horas. Sequer percebeu que o Sol começou a se esconder por trás das árvores.

Ele até gostaria de conhecer esta tal floresta, parecia uma aventura e tanto. Porém, conhecer a floresta implicaria em abrir mão de coisas que ele não estava disposto a deixar, como a convivência com sua mãe, por exemplo.

Então ele notou que não poderia ter tudo em sua vida e que começava a ter que fazer escolhas. Sentiu-se um lobo adulto e até estufou o peito, soltando em seguida uma bufada relaxante. Além disso, para ser bastante honesto, Tobias não fazia a menor ideia de como iria até esta tal floresta ou onde ela ficava.

Passou a noite arrastando folhas com as patas e pensando sobre as tantas coisas que ouviu naquele dia.

Acordou disposto na tarde seguinte, era domingo e ele estava animado para receber as visitas do dia. Agora ele tinha autorização para sair da toca e fazer o tour crepuscular com a mãe.

Esticou as canelas finas e deu uns pulinhos para aquecer a musculatura. Propôs uma corrida até a árvore torta. A disputa valia uma sessão de cafuné depois da refeição. A mãe aceitou e esperou alguns segundos depois da largada para sair e não chegar muito à frente na disputa.

“Ufa, esta foi por pouco, você está ficando veloz, meu filho”, disse a mamãe loba, que terminou a disputa poucos centímetros a frente.

Tobias ficava chateado quando perdia, e ele sempre perdia. Entretanto, sabia que sua mãe não o deixava ganhar só para que ficasse satisfeito. Ela até podia não dar o melhor de si durante a corrida, mas não criava nele a falsa ilusão de que era melhor corredor que ela, quando na verdade não era mesmo. Na ocasião em que ele de fato vir a ser vencedor saberá que foi por mérito próprio e não por agrado de sua mãe.

“Mamãe, eu queria lhe pedir um favor”, disse Tobias ofegante, enquanto retornavam ao ponto de partida da corrida, próximo à entrada da toca: “Eu queria saber mais sobre como eram os lobos e lobas que a senhora conheceu, pois percebi que mesmo não fazendo nada para aumentar a fama de mau, nós também não estamos fazendo nada para acabar com ela”.

“Veja só os macacos”, seguiu falando Tobias: “eles fazem uma algazarra, uma sujeira, roubam comida dos visitantes e ainda fazem xixi nos pés deles e todos ficam encantados em observá-los. Os patos, tão mal-humorados, só querem saber de miolo de pão, não ligam a mínima para quem os joga, ainda assim vivem cercados de pessoas e nunca se ouviu falar de um Pato Mau. O que nós estamos fazendo de errado?”

“Tobias, meu filho, você passou a noite pensando nisso, não foi? Se consumindo com as palavras da mãe da garotinha e com a estória do Lobo Mau que contei…”, a mamãe loba fez um carinho na cabeça do filhote e continuou: “Pois saiba que o seu raciocínio é muito bom, eu não teria pensando melhor. Eu, realmente, não sei o que nós estamos fazendo de errado. Talvez não haja certo ou errado. Nós somos o que somos, não devemos fingir ser o que não somos para agradar nossos visitantes. Você se sentiria bem fazendo macaquices, por exemplo?”

“De jeito nenhum, mamãe”, disse Tobias.

“Então é isso, meu filho, aos olhos atentos e mentes abertas nós seremos interessantes. Acredito que receberemos visitantes interessados em saber quem somos e como vivemos. Talvez eles adorem ver os macacos em ação, ou o nado sincronizado dos patos, mas estou certa que sempre haverá os que ficarão felizes em saber mais um pouco sobre nós, em nos visitar e nos apreciar.”

Tobias ficou pensativo e a mamãe loba deu um tempo para que ele pudesse assimilar o que ela tinha acabado de dizer, então continuou: “O mais importante, meu filho, é você estar satisfeito em ser quem você é. Você está?”

“Sim, estou muito satisfeito”, respondeu Tobias sem pestanejar.

“Ótimo, estamos resolvidos! Que tal uma nova disputa até a árvore?”

E saíram os dois correndo, mãe e filho, felizes por viverem a vida que viviam e por serem quem eram.

 

Imagem disponível aqui. Acesso em: 19 de janeiro de 2017.
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Um sapo de personalidade

 

Eusebio

O sapo Eusébio era descendente de uma linhagem real dos Grandes Lagos da Vila Suíça. Desde girino Eusébio aprendera a amar seu lar e sua família, assim como ser grato por todo alimento que a natureza o oferecia.

Sua família era muito tradicional e fechada. Seus relacionamentos e convivência se limitavam aos primos e parentes próximos. O convívio com os demais moradores dos lagos não era, de forma alguma, incentivado. E, apesar de nunca ter havido notícia concreta de punição, corria a lenda que um ancestral havia cometido o sacrilégio de fugir com uma rãzona pimenta dos olhos vermelhos e foi banido da família.

Eusébio ouvira essa estória de seu tio-avô Bartolomeu em certa noite úmida, enquanto caçavam e ficou curioso para saber como era a tal rã que encantou tanto seu antepassado a ponto de fazê-lo transgredir a orientação dos familiares.

Fez diversas perguntas, mas Bartolomeu não quis saber de responder nenhuma e tratou logo de mudar de assunto, pois viu um perigoso interesse em Eusébio.

Para encerrar a conversa disse em voz muito grave e séria: “Meu caro Eusébio, resta-lhe apenas guardar a seguinte mensagem: não saia pelo lago fazendo amizades, não é educado de sua parte mostrar aos demais moradores deste habitat o quanto somos superiores a eles”.

O tio-avô Bartolomeu era muito formal e, às vezes, também bastante arrogante.

Normalmente, depois das fartas caçadas noturnas com o tio-avô Bartolomeu seguia-se uma longa noite de cantorias na beira do lago. Depois, com a barriga cheia e a garganta ardida de tanto coaxar, Eusébio dormia até perto do momento em que o sol se posicionava no meio do céu, bem acima de sua cabeça. E, como não gostava de tomar sol, sempre que acordava ia refrescar suas escamas em sua poça favorita, repleta de lama e água geladinha que ficava abaixo da Grande Pedra.

Certa feita, no caminho para a poça, Eusébio avistou um brilho estranho no meio de duas folhas e parou para ver do que se tratava. Para seu espanto, uma mosca enorme, brilhante, de tons verdes metálicos, debatia-se presa em uma teia de aranha.

“Um belo café da manhã”, pensou ele já colocando a enorme língua para fora da boca. Foi então que ele sentiu uma enorme ânsia. E depois outra. Sentiu as patas adormecerem e fechou os olhos para esperar a sensação passar. Devia ser algum mal-estar momentâneo devido ao banquete que fizera na noite anterior.

Ao abrir os olhos novamente, qual não foi seu espanto ao notar que a mosca o encarava com um olhar apavorado. Ele nunca notara antes quão grandes e expressivos eram os olhos das moscas. Se bem que ele nunca tinha visto uma mosca como aquela antes, tão grande e brilhosa. Parecia até vestida com uma fantasia de festa do Cururu do Ano.

— O que você está olhando? – perguntou Eusébio que, para seu total desconserto ouviu como resposta: — “Não me coma, por favor, eu tenho filhas para criar”.

— Você fala?

— Claro que eu falo, que tipo de mosca acha que eu sou?

— Desculpe, nunca ouvi uma mosca falar antes – disse Eusébio desconcertado.

— Por favor, é sério, não me mate e, se não for pedir muito, me ajude a sair daqui, estou presa há horas e sei que logo a dona desta teia vai voltar e eu estarei destinada a morrer lentamente envolvida em um casulo.

— Eu não sei como fazer para tirá-la daí.

— Use sua língua, mas, por favor, mesmo, por favor, não me engula.

— Isso vai ser muito difícil…

— Não me comer?

— Não! Tirar você daí usando minha língua… Façamos assim, eu vou esticar este graveto com a língua e você agarra ele bem firme com suas patas, ok?

— Ok.

— Força, está quase desgrudando… Ufa! Saiu. Agora pode voar… vamos, voe logo. Não consegue voar?

— Não consigo, estou exausta de tanto esforço para fugir da teia, preciso de um tempo para recuperar as forças e conseguir bater minhas asas novamente.

— Tudo bem então, boa sorte, até qualquer dia, eu vou indo.

— Não, por favor, fique. Estou muito vulnerável aqui sem poder voar. Qualquer predador pode me atacar assim.

— Acho que você não percebeu Dona Mosca, mas eu sou um predador que pode te atacar, então creio que seja melhor eu ir seguindo meu caminho.

— Por favor, fique. Confio em você. A propósito, como é seu nome?

— É Eusébio. Fico lisonjeado com sua confiança.

E foi assim que Eusébio ficou ali jogando conversa fora com a mosca que antes seria sua presa. A propósito, o nome dela era Josefina e assim que soube seu nome Eusébio teve certeza que seria incapaz de comê-la mesmo que estivesse morrendo de fome.

Ela era uma mosca muito simpática, contara muitas aventuras a Eusébio, que ficou morrendo de vontade de voar também para poder conhecer os lugares que ela visitou. Sem nem perceber o dia foi indo embora e quando viu já era hora de voltar para a casa para caçar com o tio-avô Bartolomeu.

— Nossa, já é tarde, preciso ir. E você tem suas filhas para cuidar. Já consegue voar?

— É, acho que sim… – resmungou Josefina enquanto batia cautelosamente suas asas. — Já posso sim. Mas, preciso ser sincera com você, agora que somos amigos… eu não tenho filhas, foi uma mentirinha que contei. Sabe como é, questão de sobrevivência, entrei em pânico. Mas tenho sobrinhas lindas e tenho certeza que elas sentiriam muito minha falta caso me comesse.

Eusébio riu da cara de arrependida que Josefina fez.

— Tudo bem, tudo bem, acho que eu faria o mesmo. Agora preciso mesmo ir. Nos vemos por aí?

— Claro que sim, amanhã estarei presa nesta mesma teia ao meio dia – e Josefina gargalhou batendo as asas para longe.

De lá de cima gritou para Eusébio:

— Daqui do alto você é ainda mais elegante, Eusébio. Suas escamas brilham vistas do alto, você sabia? É quase tão cintilante quanto meu corpo, mas de um tom completamente diferente. É incrível!

Não, Eusébio não sabia. E também não sabia que podia ser tão agradável a amizade com uma mosca.

Naquela noite, depois de tomar uma bronca do tio-avô Bartolomeu e de ouvir um sermão de meia hora sobre pontualidade, Eusébio saiu para a caçada noturna já com a barriga roncando de fome.

Durante o trajeto ele foi pensando se deveria contar ao tio-avô sobre a amizade que fizera com Josefina. Ele sabia que ninguém da sua família aceitaria isso, então segurou a informação para si.

Ao se posicionarem abaixo de um feixe de luz que saía do poste na clareira ao lado do Lago Leste, o tio-avô Bartolomeu começou a caçada e parecia estar com um apetite voraz, pois mal engolia um inseto e já capturava outro.

Eusébio também estava com fome e logo laçou um mosquito com sua língua. Mas, assim que o mosquito se aproximou de sua boca ele notou os olhos petrificados do inseto e o cuspiu no chão de terra batida. O mosquito, por sua vez, voou rapidamente para bem alto, fora do alcance dos dois sapos.

O tio-avô Bartolomeu nem percebeu o que acabara de acontecer, continuou enchendo a pança sem ao menos olhar para o lado.

“E agora, o que eu vou fazer? Será que todo inseto que eu caçar vai ser isso?”, pensou Eusébio, aflito.

Ele se afastou um pouco de Bartolomeu e tentou novamente esticar a linguona para pegar um besouro suculento que parecia estar voando sem rumo pela clareira. Foi quando sentiu novamente ânsia e recolheu imediatamente a língua, antes mesmo de se aproximar do besouro.

Agora a ânsia não se devia ao fato de estar com a barriga muito cheia, na verdade, ele sentia dores de fome e até uma certa tontura. Precisava se alimentar, mas só de pensar em caçar um novo inseto ele ficava com o estômago embrulhado. Foi aí que teve uma ideia: iria comer plantas! Claro, a mata ao redor do lago estava cheia de plantas verdinhas e os insetos pareciam se fartar. Devia ser muito bom.

Eusébio alegou uma indisposição ao tio-avô Bartolomeu e se afastou para a mata. Lá procurou uma touceira de mato para tentar se alimentar. Ele não fazia ideia de que tipo de mato era aquele, para ele era tudo igual, mas como viu uma formiga recolhendo um pedacinho e levando para o formigueiro sentiu-se seguro para experimentar.

Esticou a língua e pegou um ramo. “Hum, deve ser bom”, pensou se motivando.

— Eca – resmungou Eusébio enquanto cuspia o pedacinho de mato.

Como ia comer aquilo, pensou Eusébio enquanto olhava ao redor a procura de alguma outra planta que parecesse apetitosa.

Não achou nenhuma, foi para casa com a barriga doendo e nem conseguiu participar da cantoria daquela noite. Deixou seus pais preocupados, que questionaram o tio-avô Bartolomeu sobre a caçada da noite.

— Caros sobrinhos, não faço ideia do que possa ter havido com Eusébio. Sempre achei este sapinho muito esquisito. Fala mais do que come, pensa mais do que hiberna. Vocês o estão educando muito mal, sabem disso. Fazem todas as vontades dele. Minha missão é apenas levá-lo comigo na caçada. Se vocês precisam de uma babá contratem uma, mas não me façam perguntas que não poderei responder.

O tio-avô Bartolomeu também era bastante indelicado às vezes.

No dia seguinte, ainda com a barriga doendo de fome, Eusébio teve uma ideia. Saiu para a clareira onde ficava o poste que caçavam de noite e começou a comer os insetos que tinham morrido ao se debaterem na luz no dia anterior e estavam caídos no chão.

O gosto era muito ruim, nem de longe lembrava o sabor dos insetos caçados na hora. No entanto, havia a vantagem de não ter um par de olhos o mirando enquanto engolia.

Depois de comer, Eusébio rumou para a poça de lama na esperança de encontrar sua amiga Josefina e, assim que a encontrou, já foi contando seu dilema. Durante a conversa ele começou a sentir uma dor de barriga que foi aumentando, aumentando, até a hora que ele precisou sair correndo para trás da moita-banheiro para se aliviar.

— Olha só, Josefina. Esta é minha situação agora, ou tenho ânsia ou dor de barriga. Não consigo me alimentar e a culpa é sua…

— Minha, Eusébio? Por quê?

— Oras bolas, eu nem sabia que os insetos tinham sentimentos, família, antes de te conhecer. Agora que eu sei não consigo mais comê-los. Estou condenado a morrer de fome ou de diarreia.

— Não seja tão exagerado, Eusébio. Existe uma infinidade de coisas que você pode comer. No começo vai ser difícil, mas depois vai acostumar. Tanto seu paladar quanto seu estômago irão se ajustar. Vamos começar experimentando aquela flor rosa ali. Eu ouvi falar que é muito boa, tem um creminho dentro que alguns passarinhos adoram chupar.

E Eusébio subiu no galho mais baixo e esticou a língua para lamber o tal creminho. “É docinho”, pensou. E começou a lamber mais e mais até o sabor sumir.

— É bom, mas continuo com fome, Josefina. Este creminho não sustenta…

— Já sei, já sei, vem comigo.

E Josefina levou Eusébio em um cantinho da mata que ele nunca tinha visitado. Por ser meio longe dos lagos os sapos nunca iam para aquela direção.

Lá encontraram uma diversidade muito grande de plantas e Eusébio foi logo experimentando tudo que viu pela frente. Nenhuma era realmente boa ou suculenta como os insetos que comera no passado, mas uma ou outra dava uma boa enganada na fome. Até que encontrou uma planta esbranquiçada com um caule baixinho, grosso e que tinha uma espécie de chapeuzinho vermelho sobre ele.

Já estava com a planta na mão para comer quando Josefina deu um grito para ele:

— Não coma isto, Eusébio. É venenoso!

— Venenoso? Mas o que é isto?

— É um fungo, chama-se cogumelo. Este que você está segurando é venenoso, mas tem alguns logo ali que são comestíveis. Vem comigo.

Ao ultrapassar uma pequena moita de capim logo a seu lado direito, Eusébio se deparou com muitos cogumelos com o chapeuzinho levemente amarelado. Ficou encantado.

— Estes eu posso comer, Josefina?

— Pode sim.

Ao dar a primeira mordida Eusébio fez uma cara de surpresa e disse:

— Hum, é delicioso!

— É mesmo? Que bom que gostou. Mas como apenas alguns, não sabemos como seu estômago vai reagir a tanta novidade.

— Sim, pode deixar. Só vou comer uns 35.

E riram juntos do exagero de Eusébio, que era mesmo um comilão.

Naquela noite, na caçada com o tio-avô Bartolomeu, Eusébio disfarçou que estava capturando insetos, mas ficou apenas colocando a língua para dentro e para fora da boca sem pegar nada. Achou que o tinha enganado, mas pouco depois da caçada, na hora da cantoria, perto dos pais de Eusébio, o tio-avô disse sem nem controlar o tom de voz:

— Meu caro Eusébio, considero este um bom momento para que você nos revele o segredo de se manter sadio sem comer…

— Como assim? Você passou mal de novo, meu filho? Não conseguiu caçar? – disse, preocupada, a mãe de Eusébio.

— Não, mamãe, eu cacei sim. O tio-avô Bartolomeu deve ter se enganado. Estou bem alimentando.

— Ora, seu pestinha, acaso me chama de mentiroso agora? Acha que não notei seu esforço em fingir que comia enquanto mirava a língua para o ar e não capturava nada? Fiquei observando-o a noite toda e agora me vem com esta de estar bem alimentado. Só se comeu vento…

— Eusébio, peça desculpas para tio Bartolomeu. E explique essa história de que ficou fingindo que caçava.

Pelo olhar da mãe e devido ao desconcerto de ser pego de surpresa, Eusébio soube que não poderia inventar uma desculpa qualquer. Não conseguia pensar em nada para dizer além da verdade, então pediu que a mãe o acompanhasse em casa para poder contar tudo com calma. Ficou receoso de falar diante de todos e ser discriminado.

No entanto, mesmo com toda cautela para contar o ocorrido, a notícia caiu como uma bomba. A mãe de Eusébio começou a chorar, o pai deu a ele uma enorme carraspana e, em horas, todos já sabiam o que tinha acontecido, ocorrendo justamente o que ele temia… todos passaram a olhar para ele com desdém e a ignorá-lo.

Foi cabisbaixo que Eusébio encontrou Josefina na mata e contou a ela toda sua tristeza. Temia ter o mesmo destino de seu antepassado e ser banido do convívio dos seus familiares.

— Para com isto, Eusébio. Os tempos são outros, ninguém vai te banir por uma bobagem dessas…

— Mesmo que eu não seja expulso, não quero que me ignorem ou zombem de mim o tempo todo.

Josefina ouviu as lamúrias de Eusébio pelo tempo que pareceu uma eternidade. Então lhe disse:

— Preste muita atenção no que eu vou te dizer, Eusébio. Você é um sapo sabido e vai entender rapidinho. Você tem o direito de ser o que quiser e isso inclui o que vai comer, beber, vestir, com quem vai namorar ou ter amizades. Sua família precisa entender isso e aceitar suas escolhas. Se eles realmente o amam irão acabar entendendo que suas escolhas são parte de quem você é e aceitarão. Mas, independentemente de eles o aceitarem, você precisa se aceitar, assumir-se como um sapo que não come insetos e pronto e acabou, doa a quem doer.

— Você falando até parece fácil.

— Não, não é fácil. Mas é importante como poucas coisas na vida são. Eu garanto que você vai se sentir muito mais seguro para fazer futuras escolhas quando encarar este primeiro desafio.

E realmente não foi fácil. Eusébio emagreceu e deixou de ter aquela pancinha característica dos sapos de sua família, que se fartavam de insetos todas as noites. Sua pele clareou um pouco e ele ficou parecendo meio pálido perto de seus familiares. As escamas perderam um pouco o brilho, mas ele ganhou agilidade e disposição, acabou dormindo menos e visitando mais a biblioteca nas horas que sobraram. Descobriu coisas incríveis sobre a fauna e a flora de seu habitat. Sabia, como ninguém, dar conselhos para os jovens sapos sobre o que comer para acabar com a dor na língua, que erva passar na pele queimada de sol, como fugir dos predadores, essas coisas úteis e que antes eram desconhecidas pela maioria.

Seus pais acabaram sentindo orgulho do sapo que ele se tornou e enchiam-se de alegria ao contar que ele foi promovido a conselheiro do Lago Leste, o maior dos Grandes Lagos da Vila Suíça.

Eusébio seguiu feliz e realizado por ser quem ele era, por suas escolhas e personalidade. Agora era muito mais fácil encarar os desafios e os olhares dos sapos maldosos que todo lago tinha. Ele se considerava um sapo feliz e amado, tudo parecia perfeito, exceto por um detalhe: nunca falara sobre Josefina para seus familiares. Ninguém desconfiava de sua amizade com uma mosca e Eusébio sabia que era apenas questão de tempo até ter que se posicionar e apresentar sua melhor amiga para a família. Josefina não reclamava, mas Eusébio sabia que ela merecia esta consideração.

Ele precisava se posicionar e valorizar uma amizade que contribuíra tanto para seu crescimento pessoal. Mas a aventura de sua revelação fica para uma outra estória…

 

Imagem disponível em: <http://azcolorir.com/desenhos/KT6/A7z/KT6A7zqTo.gif&gt;. Acesso em: 24 de junho de 2016.