Apenas um pão francês

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Era um pão francês, apenas um pão francês…

O que concedia a ele um sabor especial era o que o acompanhava: um sorriso, que apesar de enrugado tinha um ar juvenil, maroto.

Primeiro era o som do motor da velha Brasília sendo estacionada, depois o som da trava do portão sendo aberta, e aí vinha, do fim do corredor, o chacoalhar da sacolinha de plástico acompanhada do sorriso.

Hora do lanche da tarde, com o cheiro de café estimulando-nos a jogar conversa fora, hora do carinho de avô de sorriso maroto.

Não haverá pão francês mais delicioso.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (15 de janeiro de 2015).
Imagem do vô Ignácio, arquivo da autora.
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O sorriso

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Ela era uma universitária, ele um artista de cinema, dia da formatura da primeira.

Do outro lado do auditório uma possibilidade se escondia… seria uma vida apaixonada e feliz. Realizada, ela seguiria seu caminho sendo uma boa esposa, receberia amor e viveria muitos anos exercendo a profissão que escolheu.

Diante dela, o olhar, o sorriso devastador e um romance que apesar de breve (não adiantava se iludir) certamente seria inesquecível. Bastava retribuir o bilhete com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer.

Dois caminhos, uma escolha difícil. Sentimentos intensos, era dia de sua formatura.

A prova final fora uma armadilha, tinha certeza disso. O professor – um senhor sisudo de cabelos grisalhos – entregou-lhe a folha de avaliação com olhar desafiador. O olhar dizia: “quero vê-la sair desta”. Às vésperas da conclusão do curso e o professor vinha com essa…

Impetuosa como era, não pensou duas vezes, terminou a prova e saiu disparada em direção à sala do professor na universidade. Diante de uma plateia de cinco outros docentes desferiu os desaforos que guardava dentro de si.

A lógica estava ao lado dela, e mais, lembrava-se de uma informação que derrubou as defesas e argumentos do professor. Ela colocou para fora seus pensamentos, aquela prova era uma ofensa pessoal, virou as costas e sequer deu tempo para a réplica do professor, que pareceu receber uma paulada na face e pouco tinha a dizer em sua defesa.

Podia ter comprometido sua formatura, mas às favas com esse detalhe, queria mesmo era livrar-se daquele sentimento. E o fez. Assim que virou as costas, depois de tudo dito, sentia-se novamente em paz. Formada ou não formada, tinha a alma lavada e nada mais importava.

Passara por muita tensão, mas era dia de sua formatura, logo, conclui-se que as palavras desferidas ao professor surtiram efeito. Entretanto, o importante nesta história era o bilhete… e com o bilhete, vinha o olhar. E o sorriso, devastador.

Emocionada ela abraçou sua avó, a típica avó: grisalha e pequena, uma criatura falante que causava simpatia por onde passava.

De repente, começou a chorar. Choro compulsivo, alto, dolorido. Quem avistava a cena poderia acreditar que se tratava da emoção do momento, graduação depois do sufoco das provas finais, do desaforo do professor. Os mais atentos talvez imaginassem que era tudo por causa do bilhete, do olhar, do sorriso. Os atentos notaram o sorriso.

Mas não era. Só ela sabia, só ela sentia, só ela via… Era um dia especial, a emoção fazia parte dele, ela deveria estar vendo apenas a avó diante dela, mas via mais.

Via aquele que deveria estar ao lado da sua avó, e a seus olhos ele estava. Aquele que era parte importante daquele dia, mas que não estava fisicamente presente nele.

A emoção de vê-lo, o presente de ali tê-lo, era tudo muito intenso, muito verdadeiro, mesmo sendo uma visão apenas dela. Se era real ou se não era, pouco importava. Ela simplesmente sentia e chorava. Um choro que era uma prece, mas que ninguém sabia.

Ela segurava o bilhete, bastava tê-lo retribuído com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer. Ela não o fez, ficou estarrecida com a possibilidade.

Ela sempre o desejou, mas, de repente, os distintos caminhos que sua vida poderia tomar se mostraram claros diante dela. A escolha de qual seguir era muito difícil.

Do outro lado do auditório outra possibilidade a esperava. Uma vida muito bonita e feliz.
Ali, diante dela, o bilhete: “A GENTE NÃO ESCOLHE COMO VAI SER TODA NOSSA VIDA, MAS ESCOLHE COM QUEM VAI PASSÁ-LA.”

Levanta a cabeça, de cima do púlpito parte o olhar devastador, atravessa o salão dos cumprimentos, chega até ela. É o momento da decisão… e ela faz sua escolha.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (6 de abril de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://img01.deviantart.net/cf47/i/2015/264/7/2/gato_de_cheshire_by_deltaarena-d9agjzv.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

A beleza que só ela vê

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Ela era uma mulher forte, daquelas que todo mundo se inspirava. Nada a abalava. Dissessem o que dissessem, ela nunca dava importância, sabia seu valor e não mudava seus valores e convicções por conta da desaprovação alheia. Uma muralha!

De noite, sozinha em casa, mal amada, ela deve chorar horrores, pensavam. Deve ter insônia, não é possível, uma mulher destas não pode ser feliz… Mas ela era.

Ao invés das crises de choro que todos a imaginavam tendo, ela sentava ao fim do dia, diante de uma mesa de jantar muito bem posta, com uma comidinha caprichada – que ela preparou enquanto ouvia seu cantor favorito no aparelho de som – e uma taça de vinho vagabundo – seu favorito mesmo não tendo nada de classudo.

A seu lado, não uma cadeira vazia, mas ocupada por um gato lindo… Não aqueles que a gente vê nos anúncios de roupas masculinas, mas aquele cheio de pelos e com um miado rouco, também sem glamour ou raça pomposa, mas que a avista com olhar apaixonado.

Posicionado como uma estátua ele a encara, com um olhar sereno que transmite paz. Para ela isso basta, a vida não precisa de grandes acontecimentos para ser bela e a felicidade não precisa de muito mais para se achegar.

O que os outros dizem sobre ela pouco importa, pensa neste instante, quantos podem se dar ao luxo de ter momentos como aquele? Se ela é uma fortaleza? Sim, ela é. Não pelo que os outros veem de postura profissional, não por parecer inabalável, mas porque ela está em sintonia consigo mesma.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (17 de outubro de 2014).
Imagem disponível em: <https://olhepramimagora.files.wordpress.com/2012/07/tumblr_lnggg25p7p1qdfy88o1_500.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

A vida é curta demais para colecionar rancores!

 

Couple Having Argument

As últimas eleições mostraram um país divido em partes quase iguais, opiniões diferentes e muita (muita!) intolerância.

Mas eu não estou aqui para falar sobre eleição, candidatos, nem nada de política, e sim para pensar sobre o ser humano.

Desde que o mundo é mundo o ser humano busca se afinar a seus semelhantes, aos que pensam e agem como eles próprios e aos que encontra sintonia. É a lei da atração!

Contudo, é previsível que não tenhamos sintonia em todos os aspectos mesmo com aqueles que mais nos entrosamos. E, combinemos, a vida seria muito chata se todo mundo fosse igual.

São as diferenças entre nós e aqueles que gostamos de ter por perto que nos ensinam, que nos fazem repensar coisas, analisar outros pontos de vista e, quem sabe, até mudar de opinião. Agora, que não venha um qualquer, que a gente nem gosta, dizer a mesma coisa… certamente serão rechaçados.

Por que, então, repelir as ideias diferentes? Excluir os amigos e familiares que se posicionaram de maneira diferente politicamente, torcem para times diferentes, são de outras religiões e possuem crenças diferentes das nossas… as possibilidades de opiniões colidirem são infinitas. Até quando este embate?

Outro dia eu li uma frase do Saramago na internet, que dizia assim: “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.” É bem por aí, ninguém quer receber goela abaixo o que o outro pensa, nem ficar discutindo e se posicionando, é cansativo.

Se o assunto não agrada, mude o rumo da conversa. Se não concorda com o outro, aprenda a apenas ouvir, é um exercício desafiador para aqueles que têm uma “opinião formada sobre tudo”, mas compensa. Se tudo que o outro diz lhe incomoda, então mude de ares, elimina o cidadão da lista de telefones, ou melhor, para atualizar o jargão: bloqueia no WhatsApp e no Facebook. Vá em busca de novas conversas e amizades. Você não precisa de uma eleição como desculpa para isso, mas bem pode “aproveitar a deixa”…

O fato é que a vida é curta demais para colecionar rancores!

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (28 de outubro de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de abril de 2016).
Imagem disponível em: <http://i.huffpost.com/gen/2555898/images/o-RANCOR-facebook.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Ausência de vida real

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O ano é 2045, conseguimos estender os dias, agora eles possuem 29 horas.

Nosso objetivo era ter algumas horinhas para o lazer depois do colapso de 2030, quando metade da humanidade não tinha mais do que 45 minutos diários para si.

“Para si” significava que em 45 minutos os seres humanos sanariam todas as suas refeições e necessidades de higiene. Para o sono, quatro horas por noite eram o máximo permitido por lei. Para o lazer, nada. Lazer é um luxo que só os antepassados puderam usufruir. No maravilhoso ano de 2030 progredimos tanto que o lazer se tornou algo banal e sem sentido.

Foi aí que veio o colapso e começamos a buscar soluções para este tal lazer que os antigos livros relatavam. Estender o dia foi a melhor solução encontrada depois de 15 anos de mortes precoces.

Aos 135 anos as pessoas sucumbiam à estressiedade, a doença mais terrível da história da humanidade. O quadro permaneceu crítico até 2043, quando, finalmente, os seres humanos conseguiram estender os dias e, com isso, viver em plenitude seus 203 anos. Novamente, nenhuma doença podia nos derrubar.

Em dois anos estragamos tudo. O ano é 2045, estendemos os dias e aquelas horas que pretendíamos destinar ao lazer estão sendo gastas com o Membro.

O Membro nasceu do oportunismo. As empresas de interação eletrônica viram no crescimento das horas do dia a chance de criar um software único, que permitisse que as pessoas descansassem seu corpo enquanto seus espíritos interagiam em uma dimensão elaborada para o lazer.

Para os saudosistas, era como a extinta Disney. Todos queriam estar lá. Em menos de um ano o Membro expandiu sua plataforma dimensional cinco vezes e criou cenários impossíveis de se vivenciar no plano material.

Cada vez mais as pessoas foram entrando e não querendo mais sair. Estar lá era tão bom, todos eram tão simpáticos quando desprovidos de seu corpo material, leves, divertidos…

Alguns poucos seres que resistiram à novidade lutam agora para manter vivos os corpos inanimados, cujos espíritos se divertem no Membro e se recusam a retornar. Os “45 minutos diários para si” desses missionários caíram para 30, sem direito a nenhuma hora de lazer e apenas três de sono, e agora eles lutam contra a nova doença que assola a humanidade, a falta de vontade de viver no mundo real.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (14 de maio de 2012).
Imagem disponível em: <http://knowtec.com/wp-content/uploads/2013/01/internet-velocidade.jpg&gt;. Acesso em: 18 nov. 2015.

Eu queria

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Eu queria
Por um dia
Controlar o mundo
Ditar as regras
Medir segundo minha régua.

Eu queria
Por um dia
Saber como reagir em todas as situações
Não sentir culpa pelo não feito
E ter a certeza de que fiz o que pude.

Só por um dia
Eu queria
Fechar os olhos e sorrir
Com o vento batendo em meu rosto
E a luz do Sol a me iluminar.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (20 de maio de 2012).
Imagem disponível em: <http://www.greenreport.it/wp-content/uploads/2015/06/dente-di-leone.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Logo ali, onde tudo acontece…

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Depois de longos anos Cristina retornou às aulas naquela escola que tanta felicidade lhe trouxera. Foram áureos tempos, com crises adolescentes, amores impossíveis, diversão e amizade.

Tudo aquilo voltava, mas só na lembrança, muita coisa havia mudado.

A escola já não era a mesma, novas cores, reformada, bem mais apresentável que os primeiros anos de estudo.

Os tempos eram outros, mas as emoções eram revividas, passo a passo, sala a sala.

Ela olhava todos os rostos, nenhum lhe era familiar mas, apesar de tantos estranhos, ela se sentia em casa, ambientada como em poucos lugares.

E no meio da multidão, que passeia entretida no intervalo entre as aulas, eis que surje um rosto conhecido.

Na verdade, um rosto amado, desejado por anos a fio, um amor impossível.

Cristina, em vão, sonhara com a atenção daquele garoto, mas ele tinha olhos para todas, menos para ela.

Foram dias frustrantes e tudo voltou à tona naquele momento.

Mas agora algo parecia diferente, ele se dirigia à ela, sorria, se aproximava mais, mais ainda…

O ar lhe faltava, a proximidade era grande, mal dava para ouvir o que ele dizia de tão alto que seu coração batia.

Ele a beijou, ela fechou os olhos e aproveitou o ansiado momento.

O beijo era doce, melhor do que ela esperava e mais quente do que desejava.

Então ela abriu os olhos, o cenário havia mudado, o quarto escuro denunciava que ainda era noite e tudo não passou de um sonho.

Cristina sorriu, o sonho fora maravilhoso, mas a realidade era ainda melhor!

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (5 de julho de 2010).
Imagem disponível em: <http://www.folhavitoria.com.br/entretenimento/blogs/sexo-e-prazer/wp-content/uploads/2013/10/fantasiar.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.