Teu nome

pet_rua

José é meu nome. De Zé me chamavam em raros dias de muito bom humor.

Sou um cachorro que foi miseravelmente desamparado por minha família.

Meu humano me deixou assim, sem mais nem menos. Abriu a porta do carro, colocou-me para fora e partiu em alta velocidade. Mudou-se e eu fiquei para trás.

Razões e justificativas ele tem muitas, mas o fato é que nada justifica tamanho crime.

Eu conhecia o cheiro de todas as ruas, pois não deixava pedra por cheirar nos passeios que fizemos juntos. Ainda assim, de nada adiantou eu retornar a uma casa que agora estava vazia.

Quando a fome apertou eu simplesmente lati, na tola esperança de ter sobrado alguém na casa para me dar comida. Não tinha.

Tomei pito de um vizinho, um jato de água de mangueira de outro e nem assim me calei, porque a fome gritava em mim. Então eu raspei a porta de dona Zuleika. Ela tinha um olhar piedoso e sempre me dava carinho quando passava pelo portão. Foi dona Zuleika foi quem acalmou meu estômago naquele dia.

Ela até tentou me alimentar mais vezes, mas o marido dela é muito bravo e deu-lhe uma coça. Eu tive pena dela e, por gratidão, fui sofrer meu desarrimo em outro lugar.

Tem sido assim desde então, um dia ganho comida, outro roubo, um ou outro fico ouvindo o ronco do vazio dentro de mim e com saudade dos tempos de fartura durmo embaixo do carro do seu Eliseu, um senhor muito simpático que me abre o portão toda noite.

Embaixo do opala velho do seu Eliseu tem um tapetinho que me aquece. Não fosse a nossa uma cidade quente eu já teria virado picolé nas ruas. O tapetinho embaixo do carro é bom, mas fico manchado de óleo e com um visual tão imundo que fica mais complicado ainda conseguir comida.

O mundo é cruel, o mundo é dos belos.

O meu humano me achava bonito apesar de tudo, ele me disse uma vez: “você é tão feio que até é bonito”. Eu fiquei feliz com o elogio e rosnei e mordisquei o braço dele em agradecimento. Ele me jogou o livro que estava lendo e riu. Era a forma que ela tinha de dizer que me amava.

Ao menos eu pensei que ele me amava, até o dia que me deixou para trás.

Eu juro, se ele aparecesse aqui, se voltasse para me buscar, eu o perdoaria. Eu pularia em seu colo e lamberia sua face. Vamos, apareça! Volte!

Será que ele sente remorso?

Não pude notar se os seus olhos continham lágrimas quando me colocou no carro, pois a claridade batia nas lentes dos seus óculos. Só percebi que o momento era crítico porque as crianças choravam. Não fosse isso eu pensaria estar partindo para um passeio.

Eu não consigo esquecer seu rosto de senhor de meia-idade encarando pelo retrovisor enquanto me deixava para trás. Nem uma palavra ele disse, um adeus ou um foda-se.

Muitas vezes o ouvi me dizer: “Eu o chamo José. Como é que tu me chamas?”

Eu o chamava Amor, agora o chamo Abandono.

 

Imagem disponível em: <http://revistameupet.com.br/upload/imagens_upload/pet_rua.jpg&gt;. Acesso em: 29 de junho de 2016.
Inspirado no conto O crime do professor de matemática de Clarice Lispector.
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