O pastor de ovelhas

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O cão pastor ideal é aquele que conduz o rebanho sem latidos e mordidas, mas parando em frente à ovelha e a intimidando. Assim é Pompeu, um border collie muito simpático que se hospedou em minha casa no último final de semana. A bandana vermelha que carrega no pescoço lhe confere um ar estiloso e elegante.

E, como cada pastor cuida de seu rebanho, logo que chegou, Pompeu assumiu que Pupo era sua ovelha.

O border collie é considerado o cão mais inteligente do mundo e Pompeu é um espécime perfeito da raça nesse quesito. Alerta, astuto e muito obediente, concentrado ao extremo no trabalho de arrebanhar sua ovelha.

Com o olhar e atenção completamente focados em Pupo, Pompeu esquece completamente de observar o que acontece a seu redor. Ele simplesmente nos ignorava quando nos aproximávamos, afinal, o objetivo dele era o Pupo e este se agitava com nossa proximidade. Perdia a chance de ganhar um carinho e atenção, nem os deliciosos ossos oferecidos o atraiam mais do que sua ovelha.

Pompeu só pensava em cercar e restringir, em impor sua filosofia e condicionar. Usava para tal seu olhar intimidante e seu próprio corpo para bloquear as saídas. Ao Pupo, um cão pacífico e alegre, restou a resignação e a certeza de que logo Pompeu partiria para sua casa e ele teria sua tão sonhada paz e liberdade de movimentação.

Pupo não é tolo, aproveita o melhor de Pompeu… “Como é divertido ser perseguido!”, pensa enquanto rouba a bolinha e corre, seguido por seu amigo pastor.

Ele não aceita ser restringido, mantido calado e deitado, como quer Pompeu, mas ele não discute, só quando a intimidação é exagerada e atravessa a linha que ele estabeleceu como limite. Sabe que é temporário, que Pompeu não vai mudar quem ele é simplesmente por ser intimidador e se impor sem cessar.

Não é culpa de Pompeu ser tão chato e obsessivo com sua ovelha, lá nos primórdios de seu DNA foi dito que ele deveria agir assim para ser eficiente e é isso que ele entende como correto. É parte do Pompeu acreditar que ele é um pastor, mesmo que ele já não viva no campo e que o Pupo não pareça em nada com uma ovelha. A missão de vida dele é esta: cercar, intimidar, reunir e reorganizar de acordo com o que seus valores estabelecem como seguro. Quem pode culpá-lo? Só está levando adiante a mensagem que há anos é passada para ele e na qual ele acredita.

Só que Pompeu cuida tanto da vida dos outros que se esquece da sua… vive estressado, não relaxa. De tanto ficar em cima dos outros com suas certezas ele as sufoca e cansa. O Pupo cansou de Pompeu, eu cansei de Pompeu e acho que até o Pompeu cansou de si mesmo nos breves dias que esteve conosco. E não é porque Pompeu é ruim, não. Pompeu é adorável!

Mas eu estou usando o Pompeu como bode expiatório para uma metáfora, e acho que você já percebeu.

Eu conheço diversos Pompeus, gosto de tê-los por perto vez ou outra e me canso deles, também, vez ou outra. Apesar de bonitos, inteligentes e de terem certa razão em seu discurso, eles são obcecados e não tiram o olhar do ponto que definem como importante.

Os Pompeus, por vezes, elegem-me sua ovelha e tal como o Pupo eu me deixo cercar e me resigno dentro de um limite, porque mesmo um Pompeu é divertido de vez em quando, para me perseguir enquanto fujo com a bolinha, essas coisas… mas sempre não dá.

Precisamos ter um espaço para exercitarmos nossa liberdade, de pensar, de agir, de mudar de ideia. Aquele que adota a missão de mudar seu pensamento quer mais é se impor e imposição é uma força bruta, é um tapa na cara, ofende e afasta.

Não existem verdades absolutas e uma mesma argumentação pode ser analisada por diversos pontos e encarada como yin ou yang. Então relaxa e para de perseguir ovelhas, porque quem deixa de ganhar um afago é você.

 

Imagem de Pompeu vigiando Pupo, arquivo da autora.
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É de pequenino que se torce o pepino

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Você certamente já ouviu o ditado “é de pequenino que se torce o pepino”. Pois bem, isso vale para o bem ou para o mal, os hábitos que a criança adquire e os exemplos que ela tem serão levados para sua vida adulta, por isso é importante ser vigilante e estimular adequadamente os pequeninos.

É sabido que é muito importante estimular a criança, desde pequena, a ter contato com os livros e estórias para que ela cresça e se torne um leitor e usufrua dos tantos benefícios que a leitura proporciona.

Para isso, é necessário e recomendável que a criança tenha, desde muito cedo, o contato com os livros e faça do momento da leitura um momento de diversão.
Minha sugestão é montar uma pequena biblioteca para a criança (e que fique a seu alcance), na qual ela poderá escolher o livro que deseja “brincar” ou qual estorinha quer ouvir antes de dormir.

Existem ótimos livros infantis e, cada vez mais, amplia-se esse mercado. Alguns livros são de plástico e podem ser levados para o banho… Ideias e sugestões para estimular os pequeninos não faltam.

Minha irmã está grávida e acabamos de saber que é uma menininha. Como tia leitora voraz que sou (cujo hábito da leitura se instalou na infância) já comecei a pensar na biblioteca da pequena e já encontrei alguns títulos interessantes cuja personagem tem o mesmo nome escolhido para ela.

Minha intenção é montar uma biblioteca aqui em casa, que tem um cômodo dedicado apenas aos livros e à leitura. Mas, como é importante que minha sobrinha tenha um contato frequente com seus “livros brinquedos”, tive a ideia de tornar essa biblioteca itinerante, adquirindo uma mala colorida ou com temas infantis de rodinhas e tamanho pequeno, que poderá ser facilmente levada de uma casa para outra com alguns dos títulos escolhidos “para passear”. Fica fácil de guardar (sob a cama ou em cima do armário) e pode ir e vir sem nenhuma dificuldade.

É também fundamental ensinar a criança a cuidar de seus livros, assim como de seus brinquedos, não os deixando espalhados e tomando cuidado para que não estraguem.

Desde cedo a criança vai adquirindo a responsabilidade de zelar por suas coisas. No entanto, é claro, precisamos dosar para que essa responsabilidade não seja excessivamente rigorosa. É preciso deixar que a criança manuseie os livros, que interaja com eles (fazendo anotações ou desenhos, se for o caso), mesmo que ela não tenha muito cuidado inicialmente e que algumas páginas fiquem amassadas.

A propósito, esse é um ponto que os adultos também devem pensar. Livros são feitos para serem lidos e não enfeites na estante ou objetos de decoração da sala. Não precisamos segurá-los como se estivéssemos segurando uma joia. Eles de fato são, mas não devemos cultivar um excesso de zelo e apego neurótico por esse objeto encantador cuja função é trazer prazer e conhecimento.

Publicação original no Jornal 100% Vida em agosto de 2015 e no Scribe (25 de agosto de 2015).
Imagem de Laurinha conhecendo o livrinho feito em sua homenagem, arquivo da autora.

O poder de uma estória bem contada

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Já cantarolava Djavan: “Um dia frio / Um bom lugar pra ler um livro”. Nada mais propício nesta estação do que um cantinho bem aconchegante e uma boa estória para ser lida.

Alguns escritores são tão notáveis que nos transportam para outra dimensão. E como é difícil voltar! Experimentamos a dúbia sensação de querer concluir logo a leitura e de desejar que ela nunca acabe.

Meu marido e eu costumamos brincar neste sentido de se transportar. Eu (que estava lendo o romance E o vento levou) digo “vou para Tara”, e ele (que está lendo a coleção Harry Potter) diz “vou para Hogwarts”; e assim partimos cada um para sua viagem com os personagens e as situações mais inusitadas sem sequer sairmos de perto um do outro.

Vez ou outra aterrissamos e pedimos ao outro a atenção para um comentário ou destaque do livro que consideramos interessante, então novamente mergulhamos nas palavras.
Margaret Mitchell, autora de E o vento levou, cuja leitura mencionei, é talentosíssima. Ela consegue prender eficientemente o leitor em seu romance ambientado em 1860-1870, com cerca de mil páginas de letras pequenas, mesmo o leitor já tendo assistido as quatro horas de filme da adaptação feita para o cinema.

Esse foi seu único romance, mas pode-se dizer sem medo de equívoco que ela ficou consagrada por ele. Sem dúvida, é o melhor exemplo de estória bem contada que posso citar de minhas recentes leituras. Possui personagens fortes, uma trama envolvente, cenários muito bem descritos e diálogos que valem grifos de destaque e um lugar na memória.

Algumas leituras, no entanto, não nos deixam confortáveis, inquietando-nos. É como se no cantinho de cada página houvesse um espinho que nos cutuca vez ou outra e nos faz ter vontade de parar a leitura por ali. E quem quer ler algo que não seja prazeroso?

É nesse momento que precisamos respirar fundo, parar e analisar friamente nossa leitura, porque os livros e personagens que mais nos pinicam são aqueles que mais precisamos abraçar e conversar. São eles que nos farão pensar sobre nossas atitudes, sobre situações que são desconfortáveis e que, por vezes, evitamos encarar. É uma verdadeira terapia!

Não são raras as ocasiões nas quais vou aos encontros do clube da leitura com um livro entalado na garganta e uma crítica ferrenha, achando que ele não valia a leitura e saio de lá com a certeza de que aquele livro me cutucou o quanto precisava e cumpriu seu papel em meu crescimento e, no final das contas, eu acabo até gostando dele.

O poder de um bom livro e de uma boa estória é algo que tem sido levado bastante a sério, pois a leitura é uma atividade que, além dos benefícios culturais e de formação, pode desempenhar uma função terapêutica.

A Biblioterapia é um exemplo desse tipo de tratamento por meio da leitura e tem diversas aplicações. Trata-se de um processo que começa com a análise de problema. A partir daí, identifica-se por qual dificuldade o leitor está passando e quais leituras poderiam ajudá-lo a enfrentá-la. Depois vem a escolha do livro. Vários fatores influenciam nessa escolha como os gostos pessoais de cada um, o grau de escolaridade, a faixa etária entre outros. Por último vem o diálogo sobre a leitura; uma conversa entre o leitor e um profissional para a interpretação o texto. Essa etapa pode ser tanto individual, como em grupo (Wikipédia).

De certa forma, os clubes de leitura acabam funcionando como um grupo terapêutico onde cada um coloca seu ponto de vista sobre e todos se engrandecem com o parecer de cada um e suas próprias reflexões acerca delas.

E quando se fala de estórias bem contadas, é impossível não citar aquelas que nos agasalham e acariciam como se fôssemos crianças manhosas precisando de atenção. Nesse sentindo, nada mais caloroso do que O pequeno príncipe, uma leitura enriquecedora e cheia de simbolismos, com um loirinho encantador, que mora em um asteroide, cuida de uma rosa e nos ensina que “o essencial é invisível aos olhos”. Toda “pessoa grande” merece alimentar sua criança interior com esta estória.

Como dizia um quadrinho compartilhado no Facebook que li nesta semana: um bom livro não termina, ele se esconde dentro de nós.

 

Referência:
Wikipédia. Biblioterapia. Disponível em: < https://pt.wikipedia.org/wiki/Biblioterapia&gt;. Acesso em 3. jul. 2015.
Publicação original no Jornal 100% Vida em julho de 2015 e no Scribe (2 de agosto de 2015).
Imagem disponível em:
<http://2.bp.blogspot.com/-VEBHC7jmL0c/VLQMGdvhmuI/AAAAAAAAAkw/SGhPgZ-Ovtw/s1600/Nr%2B43%2Bstr%2B14%2BStrefa%2Bporad%2Bbiblioterapia.jpg&gt;.
Acesso em 2 ago. 2015.

A leitura e seus benefícios

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“Ler é tão bom que nem precisaria servir para mais nada, mas serve”.

Li essa frase alguns anos atrás em um livro sobre história da leitura e não me esqueci mais dela. Por ironia, esqueci o nome do livro e, também, a autoria da frase.

Acho que foi Jorge Luis Borges quem a disse, mas como saber? A memória tem destes estratagemas, lembramos da parte que mais nos marca e interessa e o resto se perde, ou fica arquivada em alguma gaveta do cérebro até que não estejamos mais precisando da informação ou pensando sobre ela, aí pimba!, ela surge.

Refletindo sobre a frase, podemos listar uma série de benefícios que a leitura traz para o ser humano: desenvolve a imaginação e a criatividade; aumenta nosso vocabulário e fluência na escrita; faz-nos pensar sob outros pontos de vista e refletir sobre diversos assuntos, tornando-nos, assim, pessoas melhores; relaxa; aumenta a concentração; melhora a memória; e por aí vai, a lista é longa. Dá para falar o dia inteiro sobre o quanto ler é bom e faz bem…

Focando um pouco mais na questão da memória, conclui recentemente a leitura do livro Para sempre Alice, de autoria de Lisa Genova, que está em pauta neste mês no clube da leitura que coordeno e cuja adaptação para o cinema premiou com o Oscar a protagonista Julianne Moore. O livro trata do Alzheimer, esta cruel doença neurológica degenerativa que provoca o declínio das funções intelectuais e não se restringe apenas a idosos, como bem nos mostra seu enredo.

Em sua versão precoce, surgida em decorrência da hereditariedade, os sintomas da doença podem começar a surgir a partir dos 30 anos. Nesses casos, mais do que qualquer outro, é importante tomar conhecimento e iniciar o tratamento o quanto antes para diminuir os sintomas e evitar sua progressão, uma vez que já se sabe que o gene mutante está ali e a qualquer momento pode começar a se manifestar.

É aí que leitura e prevenção se encontram… Quem lê tem “menores níveis de proteína beta amiloide, vinculada com o Mal de Alzheimer”, de acordo com um estudo publicado na edição digital da revista Archives of Neurology (Fonte: Estadão/Saúde, 2012).

Assim como os músculos do corpo, o cérebro também precisa ser exercitado, senão se atrofia (metaforicamente falando). A leitura é um excelente meio para estimular o cérebro e colocá-lo para malhar. E aqui nem faz diferença se você fica bem em roupa de ginástica ou não.

 

A soma de nossos saberes

A leitura nos permite vivenciar situações de risco sem nos arriscarmos de fato, apaixonarmo-nos por muitos personagens, sofrer com alguns deles, vibrar com as conquistas de outros, trazê-los para o mundo real e até nos encontrar com eles em uma tarde de inverno para um chá quentinho.

Não, este não é um estágio evoluído da demência do Alzheimer, é apenas imaginação. E como ela voa quando o assunto é literatura!

Muito se ouve dizer sobre a experiência da leitura ser solitária, mas ela não precisa ser se não quisermos. Tiramos do livro mensagens e conhecimentos diferentes, de acordo com nossas vivências e crenças pessoais. É isto que fazemos quando reunimos em nosso clube da leitura todas as experiências em torno de uma leitura prazerosa e uma caneca de café: discussões enriquecedoras e ainda mais conhecimento do que aqueles que a leitura havia nos proporcionado.

Já dizia um dos mais influentes escritores e editores brasileiros, Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Façamos nossa parte incluindo muita leitura em nossa vida!

 

Publicação original no Jornal 100% Vida em junho de 2015 e no Scribe (2 de julho de 2015).
Imagem disponível em:
<http://gravatanoticias.com.br/wp-content/uploads/2015/06/destaque11.jpg&gt;.
Acesso em 2 jul. 2015.

O lado bom da vida

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O lado bom da vida é o seu avesso, aquele lado que só você enxerga, aquele que está apenas visível a seus olhos.

O mundo pode estar desabando a seu redor, mas você consegue captar a beleza do momento presente: os detalhes da paisagem, as cores, os sons, os cheiros e os sabores que a vida oferece hoje e que amanhã não se repetirão.

É como estar constantemente de férias, descobrindo lugares, sorrindo para os imprevistos…

É estado pleno de êxtase.

É o sorriso da criança no colo da mãe que entrou na fila preferencial em sua frente logo naquele dia que os ponteiros do relógio parecem andar mais rápido.

É a inesperada lambida de seu cachorro quando você abaixou para colocar-lhe um pouco mais de água antes de sair para mais um dia de trabalho.

É o pôr-do-sol alaranjado de uma tarde de outono que você avistou enquanto o carro estava parado no trânsito congestionado.

É o ipê roxo florescendo em junho, imponente se exibindo para você.

É o cheiro de bolo saindo do forno e o gole quente de um café com leite em manhã fria.

E por que o lado bom da vida está visível apenas a seus olhos?

Simplesmente porque você se propôs a olhar para ele.

 

Publicação original no Scribe (11 de junho de 2015).
Imagem das ruas de Campinas (São Paulo), arquivo da autora.

Devaneios sobre a arte

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Estou aqui a devanear sobre a arte… a dança, a música, o teatro, a literatura… todas são formas de nos salvarmos da loucura e, ao mesmo tempo, sua mais pura expressão.

Aquele que canta o faz dando voz a seus demônios, canta forte, canta alto e se liberta do que sente, seja bom, seja ruim.

O que dança não faz nada diferente, só usa o corpo ao invés da voz para se libertar.

No teatro, expressão maios acontece, une-se a dança, a música e o corpo todo se expressa de todas as formas que a arte permite. Por vezes, até a ausência de som, de movimento, diz tudo que precisa ser dito. Exorcizam-se os demônios…

Das artes, a literatura é a mais contida (recuso-me a dizer limitada!), podem pensar alguns… um simples texto, preso ali no papel ou na tela leitor… São tão poucos os que leem, mas tantos ouvem música, dançam, fazem cena, desempenhando os mais diversos papéis durante a vida…

Mas é pela palavra que o autor cria movimento, cria som, solta seus demônios internos, renova-se e se reinventa. Ele é quem quiser ser, sem se mostrar, sem que você o delimite pelas dimensões disponíveis pelo recurso da visão ou capacidades auditivas e táteis.

O único limite daquele que escreve é a sua imaginação, e a do leitor!

E imaginação, nós bem sabemos!, tende ao infinito.

 

Publicação original no Scribe (14 de maio de 2015).
Imagem disponível em: <http://data.whicdn.com/images/16689637/tumblr_ltoe4bsLan1qep56go1_500_large.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.