A tênue linha da realidade

13-keukenhof

Nesta semana fui almoçar com uma amiga de longa data que acabou de chegar de viagem da França com bastante coisa bacana para contar.

Como vez ou outra merecemos nos dar ao luxo de comer bem, em um lugar bacana, direcionamo-nos para um restaurante que eu gosto bastante, onde se come uma carne muito suculenta e saborosa por um preço que beira a indecência.

Logo que sentamos e fizemos nosso pedido, já começamos a tagarelar, porque é o que fazem as amigas e, mais, é o que fazem as viajantes.

Quando um amigo viaja, viajamos com ele, acompanhamos as fotos, aguardamos os pareceres e as observações de cada canto que ele explorou, falamos também do que vimos “aquela vez” que estivemos “naquele outro lugar”. É uma troca divertida.

Eis que durante a conversa minha amiga me conta que esteve no Jardim de Luxemburgo (em Paris) e, antes mesmo que ela possa continuar a falar muito mais sobre o local, já me vem à mente que acabara de ler um livro do Milan Kundera (A Festa da Insignificância), em que fala-se sobre o jardim. Eu relato isso a ela e pergunto se próximo ao jardim havia algum museu ou galeria de arte.

Ela diz que sim, que há vários museus e galerias próximas ao jardim. Então eu digo: “ah, sim, pois o personagem do livro vai para uma exposição e quando vê a fila tão longa desiste da exposição e vai passear no jardim”.

Minha amiga considera interessante a observação e segue contando sobre o jardim e diz que lá esteve em um domingo e eu penso (por bem pouco não digo!): “olha só, ele (o personagem) também esteve lá no domingo, por pouco vocês não se cruzam”.

Quem é leitor entende este tipo de devaneio…

O real e a ilusão
Todo mundo
Bem podia
Ter os dois no coração.
(Real Ilusão, Aretha, CD Pirilimpimpim)

 

Publicação original no Scribe (29 de abril de 2015).
Imagem do Jardim de Luxemburgo disponível em: http://www.yazigitravel.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/07/13-keukenhof.jpg. Acesso em 29 abr. 2015.
Anúncios

Viagem

20150309_181128

Diz um provérbio chinês que “aquele que retorna de uma viagem não é o mesmo que aquele que partiu”.

Acabei de atravessar o Atlântico para voltar ao meu lar, e como é bom estar em casa…

Vi pessoas, países e cidades diferentes, mas ao mesmo tempo iguais. Meus olhos viram paisagens diferentes e meu coração bateu mais forte diante da beleza de algumas delas.

Ouvi línguas, vozes e sussurros dos mais diversos idiomas e, mais uma vez, comprovei que o sorriso e a mímica são universais.

Já não caibo em minhas roupas, e não é pelos quilos que ganhei durante a viagem… Como somos pequenos diante do mundo enorme que existe lá fora!

Volto feliz, volto melhor, ainda sou a mesma, mas meus olhos enxergam mais longe.

 

Publicação original no Scribe (25 de março de 2015).
Imagem da Cordilheira Cantábrica, na Espanha, arquivo da autora.

O aqui. O agora.

Dettifoss-Islandia-640x400

O aqui.
O agora.
O vento batendo nas folhas das árvores.
O som de água vindo da lista de músicas para relaxar do iTunes.
O delicioso sabor do iogurte de jabuticaba gelado nas papilas gustativas.
Minha perna direita quase dormente posicionada abaixo da esquerda lembra-me da má postura e eu a corrijo.
Uma nuvem cobre o Sol e a luz oscila, escure o ambiente.
A preguiça surge.
Do outro lado da rua, uma mulher jovem, em todo seu vigor, limpa os vidros da grande janela que dá para a minha, sua disposição me causa inveja.
A preguiça se instala.
Inspiro.
Expiro.
Tudo é isto: o aqui e o agora.

 

Publicação original no Scribe (22 de janeiro de 2015).
Imagem disponível em: <http://fatosmisteriosos.com/wp-content/uploads/2016/02/Dettifoss-Islandia-640×400.jpg&gt;. Acesso em: 17 de maio de 2016.

A vida é curta demais para colecionar rancores!

 

Couple Having Argument

As últimas eleições mostraram um país divido em partes quase iguais, opiniões diferentes e muita (muita!) intolerância.

Mas eu não estou aqui para falar sobre eleição, candidatos, nem nada de política, e sim para pensar sobre o ser humano.

Desde que o mundo é mundo o ser humano busca se afinar a seus semelhantes, aos que pensam e agem como eles próprios e aos que encontra sintonia. É a lei da atração!

Contudo, é previsível que não tenhamos sintonia em todos os aspectos mesmo com aqueles que mais nos entrosamos. E, combinemos, a vida seria muito chata se todo mundo fosse igual.

São as diferenças entre nós e aqueles que gostamos de ter por perto que nos ensinam, que nos fazem repensar coisas, analisar outros pontos de vista e, quem sabe, até mudar de opinião. Agora, que não venha um qualquer, que a gente nem gosta, dizer a mesma coisa… certamente serão rechaçados.

Por que, então, repelir as ideias diferentes? Excluir os amigos e familiares que se posicionaram de maneira diferente politicamente, torcem para times diferentes, são de outras religiões e possuem crenças diferentes das nossas… as possibilidades de opiniões colidirem são infinitas. Até quando este embate?

Outro dia eu li uma frase do Saramago na internet, que dizia assim: “Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.” É bem por aí, ninguém quer receber goela abaixo o que o outro pensa, nem ficar discutindo e se posicionando, é cansativo.

Se o assunto não agrada, mude o rumo da conversa. Se não concorda com o outro, aprenda a apenas ouvir, é um exercício desafiador para aqueles que têm uma “opinião formada sobre tudo”, mas compensa. Se tudo que o outro diz lhe incomoda, então mude de ares, elimina o cidadão da lista de telefones, ou melhor, para atualizar o jargão: bloqueia no WhatsApp e no Facebook. Vá em busca de novas conversas e amizades. Você não precisa de uma eleição como desculpa para isso, mas bem pode “aproveitar a deixa”…

O fato é que a vida é curta demais para colecionar rancores!

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (28 de outubro de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de abril de 2016).
Imagem disponível em: <http://i.huffpost.com/gen/2555898/images/o-RANCOR-facebook.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Eu queria

dente-di-leone

Eu queria
Por um dia
Controlar o mundo
Ditar as regras
Medir segundo minha régua.

Eu queria
Por um dia
Saber como reagir em todas as situações
Não sentir culpa pelo não feito
E ter a certeza de que fiz o que pude.

Só por um dia
Eu queria
Fechar os olhos e sorrir
Com o vento batendo em meu rosto
E a luz do Sol a me iluminar.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (20 de maio de 2012).
Imagem disponível em: <http://www.greenreport.it/wp-content/uploads/2015/06/dente-di-leone.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Para você, o que é viver?

Saber-viver

Para mim, é poder olhar o céu azul e suspirar diante da maravilha, e do mistério, que ele é.

É rir de gargalhar diante de uma bobagem.

É desejar uma camisa da Minnie, procurar por anos uma que não seja infantil, nem projetada para a Gisele Bunchen, e um dia qualquer passeando por uma vitrine dar de cara com ela e mal poder esperar chegar em casa para vesti-la.

É escrever as bobagens que lhe passam pela cabeça e achar centenas de pessoas que se identificam com ela.

É sentir uma agonia gigante ao pensar em todos os livros que estão na prateleira esperando sua leitura, e nos que ainda nem foram comprados.

É sonhar com cada pedacinho da casa que está sendo projetada e curtir cada segundo do ano de sua concretização.

É criar uns três espetáculos maravilhosos e nunca levá-los ao palco.

É rir em um minuto e chorar no outro.

É ter certeza que existe uma razão para eu estar aqui, neste planeta, vivendo esta vida, estas experiências, convivendo com estas pessoas e, ao mesmo tempo, não ter tanta certeza assim.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (21 de outubro de 2009).
Imagem disponível em: <http://portal6.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Saber-viver.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.