Ausência de vida real

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O ano é 2045, conseguimos estender os dias, agora eles possuem 29 horas.

Nosso objetivo era ter algumas horinhas para o lazer depois do colapso de 2030, quando metade da humanidade não tinha mais do que 45 minutos diários para si.

“Para si” significava que em 45 minutos os seres humanos sanariam todas as suas refeições e necessidades de higiene. Para o sono, quatro horas por noite eram o máximo permitido por lei. Para o lazer, nada. Lazer é um luxo que só os antepassados puderam usufruir. No maravilhoso ano de 2030 progredimos tanto que o lazer se tornou algo banal e sem sentido.

Foi aí que veio o colapso e começamos a buscar soluções para este tal lazer que os antigos livros relatavam. Estender o dia foi a melhor solução encontrada depois de 15 anos de mortes precoces.

Aos 135 anos as pessoas sucumbiam à estressiedade, a doença mais terrível da história da humanidade. O quadro permaneceu crítico até 2043, quando, finalmente, os seres humanos conseguiram estender os dias e, com isso, viver em plenitude seus 203 anos. Novamente, nenhuma doença podia nos derrubar.

Em dois anos estragamos tudo. O ano é 2045, estendemos os dias e aquelas horas que pretendíamos destinar ao lazer estão sendo gastas com o Membro.

O Membro nasceu do oportunismo. As empresas de interação eletrônica viram no crescimento das horas do dia a chance de criar um software único, que permitisse que as pessoas descansassem seu corpo enquanto seus espíritos interagiam em uma dimensão elaborada para o lazer.

Para os saudosistas, era como a extinta Disney. Todos queriam estar lá. Em menos de um ano o Membro expandiu sua plataforma dimensional cinco vezes e criou cenários impossíveis de se vivenciar no plano material.

Cada vez mais as pessoas foram entrando e não querendo mais sair. Estar lá era tão bom, todos eram tão simpáticos quando desprovidos de seu corpo material, leves, divertidos…

Alguns poucos seres que resistiram à novidade lutam agora para manter vivos os corpos inanimados, cujos espíritos se divertem no Membro e se recusam a retornar. Os “45 minutos diários para si” desses missionários caíram para 30, sem direito a nenhuma hora de lazer e apenas três de sono, e agora eles lutam contra a nova doença que assola a humanidade, a falta de vontade de viver no mundo real.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (14 de maio de 2012).
Imagem disponível em: <http://knowtec.com/wp-content/uploads/2013/01/internet-velocidade.jpg&gt;. Acesso em: 18 nov. 2015.
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