Entre rodopios

bailarina_cigana

Uma bailarina rodopia em seu próprio eixo, a saia rodada formando um sol, luminoso e reluzente, aquecendo o ambiente.

Seu semblante é sereno, os sucessivos rodopios não parecem desestabilizá-la. Encontra-se em uma espécie de transe.

Não fosse ela pagã eu a santificaria, tamanho o sentimento de paz que ela transmite.

De repente ela inclui um movimento novo, não apenas rodopia, mas também movimenta o pescoço em círculos opostos ao seu giro, aumentando o grau de dificuldade de execução de seu bailado.

Qual o objetivo daquilo, eu me pergunto. Não parece ser apenas uma demonstração técnica, tamanha é a entrega.

Capto um leve sorriso quando me abaixo para espiá-la melhor.

Então ela me nota? Vê que a observo e analiso? Como isso é possível?

Eu me canso de olhar antes que ela faça qualquer menção de estar cansada de girar.

Minto, não me canso de olhar, mas não tenho coragem de admitir meu embrulho no estômago apenas por observar tantos rodopios, então finjo desdém aos demais que a assistem ao meu lado, na imensa roda que se formou ao redor da bela girante. No melhor estilo “ok, ela faz só isso?”, como um brinquedo velho eu a descarto e viro as costas para sair.

Percebo rapidamente o espanto no olhar dos que a cercam assim que me viro. Volto-me para trás novamente e dou de cara com a bailarina parada, olhos expressivos sustentando os meus. Ela me encara firmemente. Tal como a roda da fortuna, ela interrompeu o seu giro. Meu destino agora está traçado.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 8 de outubro de 2015. Publicação original no Scribe (20 de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://www.tgwashington.org/files/bailarina_cigana.jpg&gt;. Acesso em: 20 out. 2015.
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