Esta menininha que mora em mim

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Era uma vez uma menina loirinha que adorava animais.

Seus animais favoritos eram, nesta ordem: cães, macacos, golfinhos e cavalos.

Ela amava cães. Eles já eram parte de sua vida desde pequena e se acostumara a sua agradável presença. Com os outros três favoritos era diferente, eles pareciam seres distantes de sua convivência e representavam mais do que apenas animais de estimação.

Chorava muito assistindo Lassie, uma cadela collie que fazia parte de um seriado. Lassie sempre sofria muito nos episódios… era muito sabida e carinhosa.

Todos os cães que ela teve em sua vida a ensinaram coisas boas e foram importantes. Ela se recorda carinhosamente de cada um deles e suas melhores lembranças da infância estão relacionadas a eles.

Para a menina os cães simbolizam o amor.

Em seu quarto havia um quadro/pôster enorme com um macaco chimpanzé. Ela adorava esse quadro, o macaco era lindo e divertido, com sua roupa de tenista e a raquete na mão.

Espalhados, ela também tinha algumas pelúcias dos símios. Um deles até fazia um som engraçado quando sua barriga era apertada. Seu nome era Murphy. Ele usava uma camisa da seleção brasileira e pendurada a ela estava uma redinha com uma bola de futebol dentro. Pura fofura!

Ela teve o prazer de ter e conviver com os pequenos macaquinhos saguis que seu pai adquiriu, aprendeu muito sobre eles para poder cuidar melhor deles e tem muito boas recordações de todos com os quais conviveu de pertinho. Ela ajuda há muitos anos um projeto que preserva e cuida desses mesmos macaquinhos.

Para a menina os macacos simbolizam a alegria.

Os golfinhos ela tinha fascínio de conhecer, de nadar com eles. Colecionava imagens no computador e os colocava de fundo de tela. Durante um tempo eles foram sua obsessão. Flipper era seu golfinho favorito e ela adorava vê-lo pela tv.

Apenas depois de grande a menina pode ver golfinhos nadando perto do barco que ela passeava. Foi um momento mágico.

Ela ainda tem o sonho de nadar com um deles…

Para a menina os golfinhos simbolizam a liberdade.

Os cavalos, por fim, eram animais fascinantes, que ela via de perto sempre que podia. Até já tinha passeado em alguns deles por algumas vezes.

Seu filme favorito sobre cavalos, que a fazia sonhar em ter um deles, era O Corcel Negro.

Aquele cavalo negro quando empinava enchia o peito dela de uma sensação que nunca soube explicar. Até hoje quando ela vê os cavalos empinarem daquela forma sente-se da mesma maneira. Ainda não conseguiu encontrar palavra que descreva a sensação.

Uma de suas grandes e boas lembranças foi quando seu pai a levou para conhecer a égua que ele havia comprado: a Rainha. Ela veio para a família e a menina, já uma mocinha, pôde realizar o sonho de cuidar, andar e amar um cavalo que era seu. A sensação era maravilhosa.

Para a menina os cavalos simbolizam a força.

Hoje, adulta, a menina que ainda mora nela sabe que seus animais favoritos retratam o que ela valoriza na vida.

 

Imagem da autora na infância, arquivo pessoal.
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A leitura e seus benefícios

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“Ler é tão bom que nem precisaria servir para mais nada, mas serve”.

Li essa frase alguns anos atrás em um livro sobre história da leitura e não me esqueci mais dela. Por ironia, esqueci o nome do livro e, também, a autoria da frase.

Acho que foi Jorge Luis Borges quem a disse, mas como saber? A memória tem destes estratagemas, lembramos da parte que mais nos marca e interessa e o resto se perde, ou fica arquivada em alguma gaveta do cérebro até que não estejamos mais precisando da informação ou pensando sobre ela, aí pimba!, ela surge.

Refletindo sobre a frase, podemos listar uma série de benefícios que a leitura traz para o ser humano: desenvolve a imaginação e a criatividade; aumenta nosso vocabulário e fluência na escrita; faz-nos pensar sob outros pontos de vista e refletir sobre diversos assuntos, tornando-nos, assim, pessoas melhores; relaxa; aumenta a concentração; melhora a memória; e por aí vai, a lista é longa. Dá para falar o dia inteiro sobre o quanto ler é bom e faz bem…

Focando um pouco mais na questão da memória, conclui recentemente a leitura do livro Para sempre Alice, de autoria de Lisa Genova, que está em pauta neste mês no clube da leitura que coordeno e cuja adaptação para o cinema premiou com o Oscar a protagonista Julianne Moore. O livro trata do Alzheimer, esta cruel doença neurológica degenerativa que provoca o declínio das funções intelectuais e não se restringe apenas a idosos, como bem nos mostra seu enredo.

Em sua versão precoce, surgida em decorrência da hereditariedade, os sintomas da doença podem começar a surgir a partir dos 30 anos. Nesses casos, mais do que qualquer outro, é importante tomar conhecimento e iniciar o tratamento o quanto antes para diminuir os sintomas e evitar sua progressão, uma vez que já se sabe que o gene mutante está ali e a qualquer momento pode começar a se manifestar.

É aí que leitura e prevenção se encontram… Quem lê tem “menores níveis de proteína beta amiloide, vinculada com o Mal de Alzheimer”, de acordo com um estudo publicado na edição digital da revista Archives of Neurology (Fonte: Estadão/Saúde, 2012).

Assim como os músculos do corpo, o cérebro também precisa ser exercitado, senão se atrofia (metaforicamente falando). A leitura é um excelente meio para estimular o cérebro e colocá-lo para malhar. E aqui nem faz diferença se você fica bem em roupa de ginástica ou não.

 

A soma de nossos saberes

A leitura nos permite vivenciar situações de risco sem nos arriscarmos de fato, apaixonarmo-nos por muitos personagens, sofrer com alguns deles, vibrar com as conquistas de outros, trazê-los para o mundo real e até nos encontrar com eles em uma tarde de inverno para um chá quentinho.

Não, este não é um estágio evoluído da demência do Alzheimer, é apenas imaginação. E como ela voa quando o assunto é literatura!

Muito se ouve dizer sobre a experiência da leitura ser solitária, mas ela não precisa ser se não quisermos. Tiramos do livro mensagens e conhecimentos diferentes, de acordo com nossas vivências e crenças pessoais. É isto que fazemos quando reunimos em nosso clube da leitura todas as experiências em torno de uma leitura prazerosa e uma caneca de café: discussões enriquecedoras e ainda mais conhecimento do que aqueles que a leitura havia nos proporcionado.

Já dizia um dos mais influentes escritores e editores brasileiros, Monteiro Lobato: “Um país se faz com homens e livros”. Façamos nossa parte incluindo muita leitura em nossa vida!

 

Publicação original no Jornal 100% Vida em junho de 2015 e no Scribe (2 de julho de 2015).
Imagem disponível em:
<http://gravatanoticias.com.br/wp-content/uploads/2015/06/destaque11.jpg&gt;.
Acesso em 2 jul. 2015.

A tênue linha da realidade

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Nesta semana fui almoçar com uma amiga de longa data que acabou de chegar de viagem da França com bastante coisa bacana para contar.

Como vez ou outra merecemos nos dar ao luxo de comer bem, em um lugar bacana, direcionamo-nos para um restaurante que eu gosto bastante, onde se come uma carne muito suculenta e saborosa por um preço que beira a indecência.

Logo que sentamos e fizemos nosso pedido, já começamos a tagarelar, porque é o que fazem as amigas e, mais, é o que fazem as viajantes.

Quando um amigo viaja, viajamos com ele, acompanhamos as fotos, aguardamos os pareceres e as observações de cada canto que ele explorou, falamos também do que vimos “aquela vez” que estivemos “naquele outro lugar”. É uma troca divertida.

Eis que durante a conversa minha amiga me conta que esteve no Jardim de Luxemburgo (em Paris) e, antes mesmo que ela possa continuar a falar muito mais sobre o local, já me vem à mente que acabara de ler um livro do Milan Kundera (A Festa da Insignificância), em que fala-se sobre o jardim. Eu relato isso a ela e pergunto se próximo ao jardim havia algum museu ou galeria de arte.

Ela diz que sim, que há vários museus e galerias próximas ao jardim. Então eu digo: “ah, sim, pois o personagem do livro vai para uma exposição e quando vê a fila tão longa desiste da exposição e vai passear no jardim”.

Minha amiga considera interessante a observação e segue contando sobre o jardim e diz que lá esteve em um domingo e eu penso (por bem pouco não digo!): “olha só, ele (o personagem) também esteve lá no domingo, por pouco vocês não se cruzam”.

Quem é leitor entende este tipo de devaneio…

O real e a ilusão
Todo mundo
Bem podia
Ter os dois no coração.
(Real Ilusão, Aretha, CD Pirilimpimpim)

 

Publicação original no Scribe (29 de abril de 2015).
Imagem do Jardim de Luxemburgo disponível em: http://www.yazigitravel.com.br/blog/wp-content/uploads/2011/07/13-keukenhof.jpg. Acesso em 29 abr. 2015.

O sorriso

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Ela era uma universitária, ele um artista de cinema, dia da formatura da primeira.

Do outro lado do auditório uma possibilidade se escondia… seria uma vida apaixonada e feliz. Realizada, ela seguiria seu caminho sendo uma boa esposa, receberia amor e viveria muitos anos exercendo a profissão que escolheu.

Diante dela, o olhar, o sorriso devastador e um romance que apesar de breve (não adiantava se iludir) certamente seria inesquecível. Bastava retribuir o bilhete com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer.

Dois caminhos, uma escolha difícil. Sentimentos intensos, era dia de sua formatura.

A prova final fora uma armadilha, tinha certeza disso. O professor – um senhor sisudo de cabelos grisalhos – entregou-lhe a folha de avaliação com olhar desafiador. O olhar dizia: “quero vê-la sair desta”. Às vésperas da conclusão do curso e o professor vinha com essa…

Impetuosa como era, não pensou duas vezes, terminou a prova e saiu disparada em direção à sala do professor na universidade. Diante de uma plateia de cinco outros docentes desferiu os desaforos que guardava dentro de si.

A lógica estava ao lado dela, e mais, lembrava-se de uma informação que derrubou as defesas e argumentos do professor. Ela colocou para fora seus pensamentos, aquela prova era uma ofensa pessoal, virou as costas e sequer deu tempo para a réplica do professor, que pareceu receber uma paulada na face e pouco tinha a dizer em sua defesa.

Podia ter comprometido sua formatura, mas às favas com esse detalhe, queria mesmo era livrar-se daquele sentimento. E o fez. Assim que virou as costas, depois de tudo dito, sentia-se novamente em paz. Formada ou não formada, tinha a alma lavada e nada mais importava.

Passara por muita tensão, mas era dia de sua formatura, logo, conclui-se que as palavras desferidas ao professor surtiram efeito. Entretanto, o importante nesta história era o bilhete… e com o bilhete, vinha o olhar. E o sorriso, devastador.

Emocionada ela abraçou sua avó, a típica avó: grisalha e pequena, uma criatura falante que causava simpatia por onde passava.

De repente, começou a chorar. Choro compulsivo, alto, dolorido. Quem avistava a cena poderia acreditar que se tratava da emoção do momento, graduação depois do sufoco das provas finais, do desaforo do professor. Os mais atentos talvez imaginassem que era tudo por causa do bilhete, do olhar, do sorriso. Os atentos notaram o sorriso.

Mas não era. Só ela sabia, só ela sentia, só ela via… Era um dia especial, a emoção fazia parte dele, ela deveria estar vendo apenas a avó diante dela, mas via mais.

Via aquele que deveria estar ao lado da sua avó, e a seus olhos ele estava. Aquele que era parte importante daquele dia, mas que não estava fisicamente presente nele.

A emoção de vê-lo, o presente de ali tê-lo, era tudo muito intenso, muito verdadeiro, mesmo sendo uma visão apenas dela. Se era real ou se não era, pouco importava. Ela simplesmente sentia e chorava. Um choro que era uma prece, mas que ninguém sabia.

Ela segurava o bilhete, bastava tê-lo retribuído com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer. Ela não o fez, ficou estarrecida com a possibilidade.

Ela sempre o desejou, mas, de repente, os distintos caminhos que sua vida poderia tomar se mostraram claros diante dela. A escolha de qual seguir era muito difícil.

Do outro lado do auditório outra possibilidade a esperava. Uma vida muito bonita e feliz.
Ali, diante dela, o bilhete: “A GENTE NÃO ESCOLHE COMO VAI SER TODA NOSSA VIDA, MAS ESCOLHE COM QUEM VAI PASSÁ-LA.”

Levanta a cabeça, de cima do púlpito parte o olhar devastador, atravessa o salão dos cumprimentos, chega até ela. É o momento da decisão… e ela faz sua escolha.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (6 de abril de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://img01.deviantart.net/cf47/i/2015/264/7/2/gato_de_cheshire_by_deltaarena-d9agjzv.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

A beleza que só ela vê

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Ela era uma mulher forte, daquelas que todo mundo se inspirava. Nada a abalava. Dissessem o que dissessem, ela nunca dava importância, sabia seu valor e não mudava seus valores e convicções por conta da desaprovação alheia. Uma muralha!

De noite, sozinha em casa, mal amada, ela deve chorar horrores, pensavam. Deve ter insônia, não é possível, uma mulher destas não pode ser feliz… Mas ela era.

Ao invés das crises de choro que todos a imaginavam tendo, ela sentava ao fim do dia, diante de uma mesa de jantar muito bem posta, com uma comidinha caprichada – que ela preparou enquanto ouvia seu cantor favorito no aparelho de som – e uma taça de vinho vagabundo – seu favorito mesmo não tendo nada de classudo.

A seu lado, não uma cadeira vazia, mas ocupada por um gato lindo… Não aqueles que a gente vê nos anúncios de roupas masculinas, mas aquele cheio de pelos e com um miado rouco, também sem glamour ou raça pomposa, mas que a avista com olhar apaixonado.

Posicionado como uma estátua ele a encara, com um olhar sereno que transmite paz. Para ela isso basta, a vida não precisa de grandes acontecimentos para ser bela e a felicidade não precisa de muito mais para se achegar.

O que os outros dizem sobre ela pouco importa, pensa neste instante, quantos podem se dar ao luxo de ter momentos como aquele? Se ela é uma fortaleza? Sim, ela é. Não pelo que os outros veem de postura profissional, não por parecer inabalável, mas porque ela está em sintonia consigo mesma.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (17 de outubro de 2014).
Imagem disponível em: <https://olhepramimagora.files.wordpress.com/2012/07/tumblr_lnggg25p7p1qdfy88o1_500.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.