Entre rodopios

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Uma bailarina rodopia em seu próprio eixo, a saia rodada formando um sol, luminoso e reluzente, aquecendo o ambiente.

Seu semblante é sereno, os sucessivos rodopios não parecem desestabilizá-la. Encontra-se em uma espécie de transe.

Não fosse ela pagã eu a santificaria, tamanho o sentimento de paz que ela transmite.

De repente ela inclui um movimento novo, não apenas rodopia, mas também movimenta o pescoço em círculos opostos ao seu giro, aumentando o grau de dificuldade de execução de seu bailado.

Qual o objetivo daquilo, eu me pergunto. Não parece ser apenas uma demonstração técnica, tamanha é a entrega.

Capto um leve sorriso quando me abaixo para espiá-la melhor.

Então ela me nota? Vê que a observo e analiso? Como isso é possível?

Eu me canso de olhar antes que ela faça qualquer menção de estar cansada de girar.

Minto, não me canso de olhar, mas não tenho coragem de admitir meu embrulho no estômago apenas por observar tantos rodopios, então finjo desdém aos demais que a assistem ao meu lado, na imensa roda que se formou ao redor da bela girante. No melhor estilo “ok, ela faz só isso?”, como um brinquedo velho eu a descarto e viro as costas para sair.

Percebo rapidamente o espanto no olhar dos que a cercam assim que me viro. Volto-me para trás novamente e dou de cara com a bailarina parada, olhos expressivos sustentando os meus. Ela me encara firmemente. Tal como a roda da fortuna, ela interrompeu o seu giro. Meu destino agora está traçado.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 8 de outubro de 2015. Publicação original no Scribe (20 de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://www.tgwashington.org/files/bailarina_cigana.jpg&gt;. Acesso em: 20 out. 2015.
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O buraco

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Eles são cheios de grana, de carros, de empregados. Eles não são daqui.

Muito “na deles”, não se misturam. Mal cumprimentam.

Seu cachorro vem defecar no meu jardim. Eu fico louca da vida, mas tenho medo de reclamar, tenho desconfianças e receio dessa gente.

E as desconfianças só aumentam… agora é a garagem que eles resolveram reformar. Mas é tudo tão estranho, não é possível entender o que estão fazendo ali.

Começou com uma equipe de trabalhadores que chegou com uma enorme britadeira e ficou por três dias arrebentando todo o chão. Não fosse o barulho irritante e pelo poeirão eu teria espiado mais.

Depois começaram a cavar, cavar, cavar. Colocaram duas caçambas na frente da reforma, não dava para ver direito o que acontecia. Em menos de dois dias as caçambas já estavam cheias.

Vieram retirá-las. Fiquei com medo do caminhão bater em meu carro, estacionado na rua.

Não ousei ir perguntar se queriam que eu tirasse o carro para facilitar.

Gente estranha, não explica o que está acontecendo… E se eu ofereço para tirar o carro e eles acham que estou reclamando? Tenho medo do que possam fazer. Assim, espiei metade do dia pelo vão da persiana do escritório, esperando as caçambas saírem para liberar o campo de visão.

Nossa! Já some um homem dentro do buraco. Para que precisam cavar tanto? Eu acredito que não seja coisa de Deus o que planejam para aquele buraco.

Quando meu marido chegou, de noite, contei-lhe tudo. Ele me disse para deixar de especulação que talvez seja apenas uma adega que eles estão fazendo.

Uma adega? Até parece…

Uma adega na garagem? Não faz o menor sentido.

Eu parei a conversa, logo vi que meu marido não ia ajudar muito. Uma adega? Cada ideia…

Hoje cedo chegaram tijolos, daqueles cinzas que costumam utilizar nos prédios. Meus Deus, para que tijolos?

Eu sei que se eu entender no que vai se transformar aquele buraco irei também compreender de onde vem todo o dinheiro que eles têm. Meu faro diz que as duas coisas estão interligadas. E meu faro nunca falha.

O trabalhador do buraco não me dá muita bola quando eu finjo ir buscar um pano que voou perto da sarjeta, acho que ele está sendo bem pago para ficar de bico fechado. Ele me fuzila com o olhar quando eu insisto em entender o que é aquilo. Eu saio de fininho antes que ele chame os donos da casa.

Inconformada, sento-me diante da televisão esperando a novela começar. O jornal noticia que os sequestros aumentaram muito na região. Minha sobrancelha se curva e, imediatamente, um sorriso se forma em meus lábios. Descobri! Só pode ser isto, aquele buraco na garagem vai se transformar em cárcere para sequestros. Eis a fonte de renda do meu vizinho, eis o sentido para tanto sigilo.

Olho para o lado, meu marido cochila no sofá. Eu ameaço abrir a boca e no mesmo instante a fecho. Ele não merece saber. Deixe estar, só quero ver sua cara quando a polícia tirar de lá um grande empresário depois da minha denúncia. Eu vou encher os pulmões e dizer: bem que eu disse!

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 16 de setembro de 2015. Publicação original no Scribe (1° de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-mpJLrHKC47I/VH-l0jXMp1I/AAAAAAAAAkA/0BlrajnL498/s1600/Buraco%2BNegro%2B002.jpg&gt;. Acesso em: 1° out. 2015.

Os mistérios que moram na infância

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Era uma criança assustada, tinha medo do mundo e queria fugir dele, mas não sabia inexistir.

Sua mãe lhe dizia com a voz grave (típica dos momentos solenes): “não abra o micro-ondas e coloque a mão lá dentro logo que ele apitar, pois lá dentro mora um monstro que puxa sua mão e a torce, deixando-a para sempre assim retorcida”.

Meu Deus, a criança pensava. E obedecia.

Às vezes, de noite, quando não conseguia dormir, a criança corria para a cama da mãe e ficava puxando papo. A mãe, caindo de sono, ficava em silêncio e se ouviam batidas na porta.

Com os olhos arregalados, a criança dizia: “mamãe, está ouvindo? Tem alguém batendo na porta”. A mãe, com a mesma voz solene, dizia: “quem será a esta hora? Seria o homem do saco?”

O pavor tomava conta da criança e ela ficava bem quietinha para o homem do saco não a encontrar, e acabava por dormir.

O tempo foi passando, a criança crescendo, o conhecimento sendo adquirido e o mistério do monstro do micro-ondas explicado pela ciência.

O homem do saco, que fanfarrão, era apenas a mão da mãe sonolenta batendo na cabeceira da cama.

Foi-se o mistério, foi-se a graça. É tão bom ser criança!

 

Publicação original no Scribe (18 de junho de 2015).
Imagem disponível em: <https://grupogirino.files.wordpress.com/2012/02/grupo-girino-_-saci-e-o-homem-do-saco-091.jpg?w=774&gt;. Acesso em 18 jun. 2015.

O sorriso

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Ela era uma universitária, ele um artista de cinema, dia da formatura da primeira.

Do outro lado do auditório uma possibilidade se escondia… seria uma vida apaixonada e feliz. Realizada, ela seguiria seu caminho sendo uma boa esposa, receberia amor e viveria muitos anos exercendo a profissão que escolheu.

Diante dela, o olhar, o sorriso devastador e um romance que apesar de breve (não adiantava se iludir) certamente seria inesquecível. Bastava retribuir o bilhete com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer.

Dois caminhos, uma escolha difícil. Sentimentos intensos, era dia de sua formatura.

A prova final fora uma armadilha, tinha certeza disso. O professor – um senhor sisudo de cabelos grisalhos – entregou-lhe a folha de avaliação com olhar desafiador. O olhar dizia: “quero vê-la sair desta”. Às vésperas da conclusão do curso e o professor vinha com essa…

Impetuosa como era, não pensou duas vezes, terminou a prova e saiu disparada em direção à sala do professor na universidade. Diante de uma plateia de cinco outros docentes desferiu os desaforos que guardava dentro de si.

A lógica estava ao lado dela, e mais, lembrava-se de uma informação que derrubou as defesas e argumentos do professor. Ela colocou para fora seus pensamentos, aquela prova era uma ofensa pessoal, virou as costas e sequer deu tempo para a réplica do professor, que pareceu receber uma paulada na face e pouco tinha a dizer em sua defesa.

Podia ter comprometido sua formatura, mas às favas com esse detalhe, queria mesmo era livrar-se daquele sentimento. E o fez. Assim que virou as costas, depois de tudo dito, sentia-se novamente em paz. Formada ou não formada, tinha a alma lavada e nada mais importava.

Passara por muita tensão, mas era dia de sua formatura, logo, conclui-se que as palavras desferidas ao professor surtiram efeito. Entretanto, o importante nesta história era o bilhete… e com o bilhete, vinha o olhar. E o sorriso, devastador.

Emocionada ela abraçou sua avó, a típica avó: grisalha e pequena, uma criatura falante que causava simpatia por onde passava.

De repente, começou a chorar. Choro compulsivo, alto, dolorido. Quem avistava a cena poderia acreditar que se tratava da emoção do momento, graduação depois do sufoco das provas finais, do desaforo do professor. Os mais atentos talvez imaginassem que era tudo por causa do bilhete, do olhar, do sorriso. Os atentos notaram o sorriso.

Mas não era. Só ela sabia, só ela sentia, só ela via… Era um dia especial, a emoção fazia parte dele, ela deveria estar vendo apenas a avó diante dela, mas via mais.

Via aquele que deveria estar ao lado da sua avó, e a seus olhos ele estava. Aquele que era parte importante daquele dia, mas que não estava fisicamente presente nele.

A emoção de vê-lo, o presente de ali tê-lo, era tudo muito intenso, muito verdadeiro, mesmo sendo uma visão apenas dela. Se era real ou se não era, pouco importava. Ela simplesmente sentia e chorava. Um choro que era uma prece, mas que ninguém sabia.

Ela segurava o bilhete, bastava tê-lo retribuído com seu olhar, aquele que expressaria mais do que as palavras poderiam dizer. Ela não o fez, ficou estarrecida com a possibilidade.

Ela sempre o desejou, mas, de repente, os distintos caminhos que sua vida poderia tomar se mostraram claros diante dela. A escolha de qual seguir era muito difícil.

Do outro lado do auditório outra possibilidade a esperava. Uma vida muito bonita e feliz.
Ali, diante dela, o bilhete: “A GENTE NÃO ESCOLHE COMO VAI SER TODA NOSSA VIDA, MAS ESCOLHE COM QUEM VAI PASSÁ-LA.”

Levanta a cabeça, de cima do púlpito parte o olhar devastador, atravessa o salão dos cumprimentos, chega até ela. É o momento da decisão… e ela faz sua escolha.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (6 de abril de 2014). Revisado e publicado como editorial do Jornal 100% Vida (edição de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://img01.deviantart.net/cf47/i/2015/264/7/2/gato_de_cheshire_by_deltaarena-d9agjzv.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

A beleza que só ela vê

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Ela era uma mulher forte, daquelas que todo mundo se inspirava. Nada a abalava. Dissessem o que dissessem, ela nunca dava importância, sabia seu valor e não mudava seus valores e convicções por conta da desaprovação alheia. Uma muralha!

De noite, sozinha em casa, mal amada, ela deve chorar horrores, pensavam. Deve ter insônia, não é possível, uma mulher destas não pode ser feliz… Mas ela era.

Ao invés das crises de choro que todos a imaginavam tendo, ela sentava ao fim do dia, diante de uma mesa de jantar muito bem posta, com uma comidinha caprichada – que ela preparou enquanto ouvia seu cantor favorito no aparelho de som – e uma taça de vinho vagabundo – seu favorito mesmo não tendo nada de classudo.

A seu lado, não uma cadeira vazia, mas ocupada por um gato lindo… Não aqueles que a gente vê nos anúncios de roupas masculinas, mas aquele cheio de pelos e com um miado rouco, também sem glamour ou raça pomposa, mas que a avista com olhar apaixonado.

Posicionado como uma estátua ele a encara, com um olhar sereno que transmite paz. Para ela isso basta, a vida não precisa de grandes acontecimentos para ser bela e a felicidade não precisa de muito mais para se achegar.

O que os outros dizem sobre ela pouco importa, pensa neste instante, quantos podem se dar ao luxo de ter momentos como aquele? Se ela é uma fortaleza? Sim, ela é. Não pelo que os outros veem de postura profissional, não por parecer inabalável, mas porque ela está em sintonia consigo mesma.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (17 de outubro de 2014).
Imagem disponível em: <https://olhepramimagora.files.wordpress.com/2012/07/tumblr_lnggg25p7p1qdfy88o1_500.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.

Ausência de vida real

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O ano é 2045, conseguimos estender os dias, agora eles possuem 29 horas.

Nosso objetivo era ter algumas horinhas para o lazer depois do colapso de 2030, quando metade da humanidade não tinha mais do que 45 minutos diários para si.

“Para si” significava que em 45 minutos os seres humanos sanariam todas as suas refeições e necessidades de higiene. Para o sono, quatro horas por noite eram o máximo permitido por lei. Para o lazer, nada. Lazer é um luxo que só os antepassados puderam usufruir. No maravilhoso ano de 2030 progredimos tanto que o lazer se tornou algo banal e sem sentido.

Foi aí que veio o colapso e começamos a buscar soluções para este tal lazer que os antigos livros relatavam. Estender o dia foi a melhor solução encontrada depois de 15 anos de mortes precoces.

Aos 135 anos as pessoas sucumbiam à estressiedade, a doença mais terrível da história da humanidade. O quadro permaneceu crítico até 2043, quando, finalmente, os seres humanos conseguiram estender os dias e, com isso, viver em plenitude seus 203 anos. Novamente, nenhuma doença podia nos derrubar.

Em dois anos estragamos tudo. O ano é 2045, estendemos os dias e aquelas horas que pretendíamos destinar ao lazer estão sendo gastas com o Membro.

O Membro nasceu do oportunismo. As empresas de interação eletrônica viram no crescimento das horas do dia a chance de criar um software único, que permitisse que as pessoas descansassem seu corpo enquanto seus espíritos interagiam em uma dimensão elaborada para o lazer.

Para os saudosistas, era como a extinta Disney. Todos queriam estar lá. Em menos de um ano o Membro expandiu sua plataforma dimensional cinco vezes e criou cenários impossíveis de se vivenciar no plano material.

Cada vez mais as pessoas foram entrando e não querendo mais sair. Estar lá era tão bom, todos eram tão simpáticos quando desprovidos de seu corpo material, leves, divertidos…

Alguns poucos seres que resistiram à novidade lutam agora para manter vivos os corpos inanimados, cujos espíritos se divertem no Membro e se recusam a retornar. Os “45 minutos diários para si” desses missionários caíram para 30, sem direito a nenhuma hora de lazer e apenas três de sono, e agora eles lutam contra a nova doença que assola a humanidade, a falta de vontade de viver no mundo real.

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (14 de maio de 2012).
Imagem disponível em: <http://knowtec.com/wp-content/uploads/2013/01/internet-velocidade.jpg&gt;. Acesso em: 18 nov. 2015.

Logo ali, onde tudo acontece…

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Depois de longos anos Cristina retornou às aulas naquela escola que tanta felicidade lhe trouxera. Foram áureos tempos, com crises adolescentes, amores impossíveis, diversão e amizade.

Tudo aquilo voltava, mas só na lembrança, muita coisa havia mudado.

A escola já não era a mesma, novas cores, reformada, bem mais apresentável que os primeiros anos de estudo.

Os tempos eram outros, mas as emoções eram revividas, passo a passo, sala a sala.

Ela olhava todos os rostos, nenhum lhe era familiar mas, apesar de tantos estranhos, ela se sentia em casa, ambientada como em poucos lugares.

E no meio da multidão, que passeia entretida no intervalo entre as aulas, eis que surje um rosto conhecido.

Na verdade, um rosto amado, desejado por anos a fio, um amor impossível.

Cristina, em vão, sonhara com a atenção daquele garoto, mas ele tinha olhos para todas, menos para ela.

Foram dias frustrantes e tudo voltou à tona naquele momento.

Mas agora algo parecia diferente, ele se dirigia à ela, sorria, se aproximava mais, mais ainda…

O ar lhe faltava, a proximidade era grande, mal dava para ouvir o que ele dizia de tão alto que seu coração batia.

Ele a beijou, ela fechou os olhos e aproveitou o ansiado momento.

O beijo era doce, melhor do que ela esperava e mais quente do que desejava.

Então ela abriu os olhos, o cenário havia mudado, o quarto escuro denunciava que ainda era noite e tudo não passou de um sonho.

Cristina sorriu, o sonho fora maravilhoso, mas a realidade era ainda melhor!

 

Publicação original do blog “Falando mais do que a boca” (5 de julho de 2010).
Imagem disponível em: <http://www.folhavitoria.com.br/entretenimento/blogs/sexo-e-prazer/wp-content/uploads/2013/10/fantasiar.jpg&gt;. Acesso em: 16 de maio de 2016.