O tordo

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As labaredas do fogo estalavam a madeira enquanto a consumia. Tudo ao redor fervia.

O ar estava ficando denso de fumaça e respirar se tornava um desafio perigoso.

Uma claridade se projetava pela lateral do imenso salão em chamas. Era uma saída daquele inferno dantesco.

Corro em direção a claridade, tropeço em alguma coisa quente e sinto a sola do meu calçado derreter. A sola do meu pé começa a arder e me apresso em levantar e continuar correndo.

A luz é forte do lado de fora, não consigo ver nada, fecho os olhos e sinto o ar limpo entrar em meus pulmões. Ele me queima por dentro, eu engasgo e tenho um acesso de tosse.

Olho para os lados, vejo embaçado agora, apenas vultos para um lado e para outro da rua.

Todos estão perdidos. Todos estão tentando se salvar.

Percebo que não ouço mais nada, apenas um zumbido contínuo. Lembro de um estrondo alto, acho que foi uma explosão, e mais nada, só zumbido, calor, fumaça e desespero.

Mas agora eu respiro, enxergo embaçado e ouço o zumbido. Estou viva, é o que importa.

De repente eu sinto algo se aproximando vindo do céu em minha direção, é um pássaro negro, ele está em chamas e bate suas asas em minha direção, ele tenta me agarrar.

Caio no chão, estou esgotada, cubro meu rosto com os braços e o pássaro me arranha com suas unhas.

Eu grito. Grito alto. Grito desesperadamente.

Abro os olhos assustada, vejo a luz do dia invadindo o quarto. No beiral de granito da varanda um tucano que nos visita diariamente tenta se equilibrar. A anatomia de suas garras não permite que ele se sustente na pedra lisa.

O meu grito o assusta e ele bate ainda mais as asas negras. Seu bico amarelo e laranja me remetem às chamas que até poucos segundos povoavam minha mente.

Meu marido desperta. Ele vê o tucano já desistindo de pousar em nossa varanda.

— O que está acontecendo? – pergunta-me assustado.

Eu não consigo responder, não porque o sonho foi impressionantemente real e se mesclou com a realidade do despertar de uma maneira surpreendente, mas porque não consigo parar de rir. Nunca mais assisto Jogos Vorazes antes de dormir.

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 9 de novembro de 2015. Publicação original no Scribe (18 de novembro de 2015).
Imagem disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/-GbKiXwNwqGA/UNu1mwShz0I/
AAAAAAAACzc/GHGPzaXVfCI/s1600/em-chamas-2c2ba-filme-de-jogos-vorazes-jc3a1-tem-data-de-lanc3a7amento.jpg>. Acesso em: 18 nov. 2015.
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