O buraco

Buraco Negro 002

Eles são cheios de grana, de carros, de empregados. Eles não são daqui.

Muito “na deles”, não se misturam. Mal cumprimentam.

Seu cachorro vem defecar no meu jardim. Eu fico louca da vida, mas tenho medo de reclamar, tenho desconfianças e receio dessa gente.

E as desconfianças só aumentam… agora é a garagem que eles resolveram reformar. Mas é tudo tão estranho, não é possível entender o que estão fazendo ali.

Começou com uma equipe de trabalhadores que chegou com uma enorme britadeira e ficou por três dias arrebentando todo o chão. Não fosse o barulho irritante e pelo poeirão eu teria espiado mais.

Depois começaram a cavar, cavar, cavar. Colocaram duas caçambas na frente da reforma, não dava para ver direito o que acontecia. Em menos de dois dias as caçambas já estavam cheias.

Vieram retirá-las. Fiquei com medo do caminhão bater em meu carro, estacionado na rua.

Não ousei ir perguntar se queriam que eu tirasse o carro para facilitar.

Gente estranha, não explica o que está acontecendo… E se eu ofereço para tirar o carro e eles acham que estou reclamando? Tenho medo do que possam fazer. Assim, espiei metade do dia pelo vão da persiana do escritório, esperando as caçambas saírem para liberar o campo de visão.

Nossa! Já some um homem dentro do buraco. Para que precisam cavar tanto? Eu acredito que não seja coisa de Deus o que planejam para aquele buraco.

Quando meu marido chegou, de noite, contei-lhe tudo. Ele me disse para deixar de especulação que talvez seja apenas uma adega que eles estão fazendo.

Uma adega? Até parece…

Uma adega na garagem? Não faz o menor sentido.

Eu parei a conversa, logo vi que meu marido não ia ajudar muito. Uma adega? Cada ideia…

Hoje cedo chegaram tijolos, daqueles cinzas que costumam utilizar nos prédios. Meus Deus, para que tijolos?

Eu sei que se eu entender no que vai se transformar aquele buraco irei também compreender de onde vem todo o dinheiro que eles têm. Meu faro diz que as duas coisas estão interligadas. E meu faro nunca falha.

O trabalhador do buraco não me dá muita bola quando eu finjo ir buscar um pano que voou perto da sarjeta, acho que ele está sendo bem pago para ficar de bico fechado. Ele me fuzila com o olhar quando eu insisto em entender o que é aquilo. Eu saio de fininho antes que ele chame os donos da casa.

Inconformada, sento-me diante da televisão esperando a novela começar. O jornal noticia que os sequestros aumentaram muito na região. Minha sobrancelha se curva e, imediatamente, um sorriso se forma em meus lábios. Descobri! Só pode ser isto, aquele buraco na garagem vai se transformar em cárcere para sequestros. Eis a fonte de renda do meu vizinho, eis o sentido para tanto sigilo.

Olho para o lado, meu marido cochila no sofá. Eu ameaço abrir a boca e no mesmo instante a fecho. Ele não merece saber. Deixe estar, só quero ver sua cara quando a polícia tirar de lá um grande empresário depois da minha denúncia. Eu vou encher os pulmões e dizer: bem que eu disse!

Texto escrito para atividade de aula do curso de extensão Escrita Criativa (Narrativa) da Unicamp, em 16 de setembro de 2015. Publicação original no Scribe (1° de outubro de 2015).
Imagem disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/-mpJLrHKC47I/VH-l0jXMp1I/AAAAAAAAAkA/0BlrajnL498/s1600/Buraco%2BNegro%2B002.jpg&gt;. Acesso em: 1° out. 2015.
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